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Seis Provões. E nenhum curso fechado

      
Desde que começou a ser avaliado pelo Provão, em 1998, o curso de Administração da Faculdade de Administração Hospitalar, que fica na zona sul de São Paulo, só tirou notas E. Mas continua funcionando. Assim como ele, há mais 13 cursos, de outras 10 instituições de ensino superior, com três conceitos D ou E consecutivos só na capital - o que seria o suficiente para o fechamento do curso. Sete anos depois de ter criado o Exame Nacional de Cursos (nome oficial do Provão), o Ministério da Educação (MEC) ainda não fechou nenhum curso.

A sensação que fica, para estudantes e especialistas em Educação, é que o Provão não surte resultados na prática. "Vou ter de perder toda a tarde fazendo uma prova que não dá em nada", afirma Fabrício Gomes Silva, de 23 anos, um dos 395.995 graduandos que estarão fazendo a avaliação hoje. "Não sei para que serve o Provão. Todo mundo sabe que o País está cheio de cursos ruins e não vi nenhum ser fechado." Ex-secretário municipal de Educação de São Paulo, o professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) Mário Sérgio Cortella acredita que o MEC precisa ter mais firmeza. "Acho que os resultados e as ameaças de fechamento assustam, mas é difícil passar para uma modificação efetiva se não houver punição.

O governo iniciou um processo necessário de avaliação, mas não consegue dar continuidade a ele e, assim, não chega ao seu objetivo final." Para ele, o Provão protege a situação atual da qualidade de ensino e não consegue ultrapassar os interesses dos cursos privados. "O governo ainda entende que o ensino é um negócio mas, depois de quase oito anos, ele precisa agir para que o Provão não seja mero instrumento de propaganda e promoção." O presidente da União Nacional dos Estudantes, Felipe Maia, não acredita no fechamento de um curso.

"Falta vontade e coragem para o ministério fechar um curso", acredita. "Não existe um interesse real em se avaliar o sistema porque os donos das instituições particulares deixariam de ser beneficiados." Ele afirma que o Provão é um instrumento limitado de avaliação e, portanto, não deve servir de base para o fechamento de uma faculdade. "Sabemos que há muitas instituições ruins e, se o interesse em manter a qualidade fosse real, o exame seria mais consistente." Se MEC não agir, Provão pode cair em descrédito O professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Afrânio Catani, afima que, se não cumprir o que determinou, o MEC pode ver o Provão cair em descrédito. "Se o governo não tiver pulso, o exame vai ficar desacreditado e não assustará mais ninguém", diz. "Mas acho que o ministro Paulo Renato vai tomar uma atitude.

Caso contrário, ele será lembrado como o criador de uma avaliação inócua." Para o professor, o MEC precisa ter força para fechar os cursos. "O CNE não teve coragem de tomar essa decisão porque também é formado por integrantes de instituições particulares", afirma. "Acredito que ficavam com medo de votar pelo fechamento de uma faculdade porque a próxima vítima poderia ser um deles." Catani ressalta que, por ainda ser um instrumento frágil de avaliação, o Provão não deve servir para a suspensão de um curso.

"Esse exame já nasceu falido, cheio de problemas e acho que é preciso, primeiro, termos uma avaliação mais consistente para, então, começarmos o fechamento." Até o ano passado, o fechamento de um curso dependia de avalia- ções e pareceres do MEC e do CNE. Como não existia um prazo determinado para as faculdades apresentarem recursos, os processos ficavam transitando entre os dois órgãos sem uma solução definitiva e os cursos continuavam a funcionar normalmente, apesar do desempenho ruim nas avaliações. "Mas agora o processo é automático", garante o ministro da Educação, Paulo Renato Souza. "O curso que for mal perde o reconhecimento." Ele se refere às novas regras, que suspendem por pelo menos um ano o reconhecimento dos cursos que tiverem três conceitos D ou E no Provão e que também forem mal-avaliados no item 'corpo docente' na Avaliação das Condições de Oferta.

O diretor de avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), Tancredo Maia Filho, lembra que agora as faculdades não têm mais como tentar ganhar tempo. "Quando o processo ia para o CNE era mais fácil manter um curso de baixa qualidade. Mas agora não tem jeito." Ele afirma, no entanto, que o objetivo do Provão não é fechar cursos. "O exame foi criado para melhorar os cursos, para mexer com as faculdades. E estamos conseguindo isso. Mais da metade do corpo docente, por exemplo, já tem mestrado ou doutorado, e esse é um resultado concreto da avaliação."

O presidente do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior do Estado de São Paulo, Gabriel Mário Rodrigues, concorda: "O Provão, apesar de ainda ter algumas deficiências, tornou-se um instrumento importante para as instituições", diz. "Todos passaram a se preocupar mais com a qualidade, a investir mais no ensino, e acho que essa é a função do exame, não o fechamento de instituições."

A tensão nas faculdades ameaçadas

O clima entre os estudantes da Faculdade de Administração Hospitalar, no Morumbi, zona sul, está tenso desde o início do ano por causa do Provão. Os alunos do 4º ano dos cursos de Administração de Empresas e de Administração Hospitalar passaram todo o primeiro bimestre revendo as disciplinas que cursaram no início da faculdade. Além disso, fizeram três simulados nos moldes do Provão durante o semestre, para elevar a nota da faculdade. A instituição, nas últimas quatro avaliações, tirou somente notas 'E'. "Estamos tentando tirar a faculdade do buraco", diz em tom de brincadeira o estudante Samuel de Souza Pereira, de 36 anos.

Ele diz que está bem preparado para a prova, mas não acha que a faculdade terá condições de tirar A ou B.
Segundo ele, nos primeiros anos do Provão, muitos deixaram de fazê-lo. Mas as notas 'E' seguidas da faculdade preocupam. "Os alunos realmente temem que o curso seja fechado." "Quando o MEC começou a pegar no pé, a diretoria passou a investir mais aqui dentro", diz a estudante do último ano de Administração de Empresas, Renata Cruz, de 22 anos. Ela conta que, nos dois primeiros anos da faculdade, os alunos usavam os computadores em grupos de quatro ou cinco. Hoje, ela diz que a situação melhorou: outro laboratório de informática foi criado e eles trabalham em duplas. O nervosismo é tão grande, que Renata sofreu uma úlcera.

Segundo ela, a diretoria não deveria ter exigido bom rendimento dos alunos apenas no último ano do curso. "Isso deveria ter sido feito desde o começo. Se não conseguirmos, vamos nos sentir culpados", afirma Renata. O diretor da faculdade foi procurado pelo JT, mas não foi encontrado.

Fonte: Jornal da Tarde
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