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Os vândalos da Unesp

      
As fotografias que o Estado publicou na primeira página e na página A14 de sua edição de ontem, se fossem vistas sem os títulos, as legendas e o noticiário que as acompanham, certamente deixariam o leitor na certeza de que houvera mais uma rebelião de menores infratores da Febem. O vandalismo manifestado na destruição indiscriminada de propriedade, a violência contra tudo e contra todos, especialmente contra as autoridades - tudo o que o Estado reproduziu ontem se encaixaria na descrição da conduta de sociopatas que percorrem as fronteiras da selvageria porque - como está na moda diagnosticar em alguns círculos - foram vítimas da sociedade que não lhes deu oportunidades de levar uma vida digna e civilizada.

Mas os baderneiros não eram menores infratores, que a essa condição chegaram por ter sido marginalizados pela sociedade, nem estavam quebrando a Febem.

Eram estudantes universitários que arrasaram instalações da reitoria da Unesp, desrespeitaram os membros do Conselho Universitário e agrediram fisicamente professores. O energúmeno que, com uma máscara no rosto, garantindo-lhe o anonimato, e um chicote na mão, imobilizou o reitor da universidade jamais foi uma "vítima da sociedade". Ao contrário. Faz parte da minoria de privilegiados dessa mesma sociedade que freqüentam os melhores colégios - se públicos ou privados, não importa - e ingressam numa das melhores escolas superiores do País, que cursam sem ônus para eles e suas famílias.

Os universitários que invadiram a reitoria da Unesp são pessoas privilegiadas, pois estudam de graça numa boa universidade, mas padecem do grave mal do egoísmo e da alienação. Afinal, com sua violência, tentaram - e conseguiram, pelo menos momentaneamente - impedir a planejada expansão dos cursos da universidade, o que exigiria a criação de oito novos câmpus no Estado. Em resumo, os baderneiros querem estudar de graça, numa boa escola, mas não admitem que esse privilégio seja estendido a um número maior de pessoas, em regiões carentes de ensino universitário gratuito.

O argumento dos baderneiros - e também de alguns professores, não se devendo esquecer que um deles orquestrava as ações do bando, usando um telefone celular - é que as cerca de mil vagas a serem abertas na Unesp provocarão queda na qualidade do ensino, uma vez que os professores terão de aceitar mais alunos nas salas ou de dar mais aulas.

Existem, de fato, dúvidas quanto às condições e oportunidade da expansão dos cursos da Unesp. Mas não se pode deixar de lado o fato de que várias unidades da universidade foram criadas em condições muito semelhantes às agora propostas para os novos câmpus e, com o passar do tempo, ofereceram ensino superior público de excelente qualidade.

Quando a Assembléia Legislativa votou o Orçamento para 2002 das universidades estaduais, a Unesp obteve uma proporção de repasse maior do ICMS, por causa da apresentação de projetos de expansão de vagas caracterizados pelo atendimento de áreas carentes de novas opções de ensino superior. Os deputados alteraram a divisão tradicional dos 9,57% do total arrecadado do imposto, destinando 5,2% para a USP, 2,1% para a Unicamp e aumentando os recursos da Unesp de 2,1% para 2,3%.

O projeto de abertura de novas vagas foi viabilizado pelas parcerias com as prefeituras das cidades - que arcarão com os custos físicos dos novos câmpus, providenciando prédios, funcionários de apoio e instalações - cabendo à universidade fornecer os professores. Os novos cursos - zootecnia, engenharia de alimentos, turismo ou administração de empresas - foram criados em função das demandas locais. Os reitores da USP e da Unicamp reclamaram muito da perda de recursos, mas os deputados mantiveram o critério para garantir a expansão das vagas prometidas pela Unesp já para o vestibular de 2003.

Nada disso explica ou justifica o comportamento de um grupo de energúmenos, cuja brutalidade apenas demonstrou que há pessoas que conseguem passar num vestibular apertado, mas não estão preparadas para a civilizada vida universitária.

Fonte: O Estado de S. Paulo - Editorial
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