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Sala de aula no trabalho

      

Teoria ou prática? Para os adeptos das faculdades corporativas, trata-se de um falso dilema. Teoria, sim, mas aplicada à prática do mercado. ? a resposta-padrão das empresas que, em número crescente, têm investido na formação de seus funcionários.

O dilema pode ser falso, mas a polêmica é real. As universidades acusam as empresas de segmentar o conhecimento; as empresas dizem que as faculdades não preparam o aluno para o mercado.

Para romper o impasse, várias empresas decidiram eliminar a fronteira entre os mundos acadêmico e profissional. Portadores de diplomas que não garantem o desempenho no trabalho, muitos funcionários vêem o escritório transformado em sala de aula.

Esse novo espaço nas empresas tem um nome que revela a ambição do projeto: "universidades corporativas". As aspas são indicativos do status que têm: elas não são reconhecidas pelo Ministério da Educação como instituições de ensino superior.

E nem é essa a preocupação das empresas. Para elas, o fundamental é garantir ao empregado uma estrutura na qual ele aprenda conteúdos que serão necessários ao seu dia-a-dia e que, teoricamente, ele não teria aprendido na universidade tradicional.

"Não faz sentido ter uma universidade corporativa se ela não estiver focada nos negócios da empresa", afirma Ricardo Fenley, gerente de treinamento da Boston School, universidade do Bank Boston, com 15 mil vagas por ano e aberta também a familiares de funcionários e grandes clientes.

Como a maioria das inovações administrativas, a tendência das universidades corporativas nasceu nos Estados Unidos. Na década de 70, a General Electric inaugurou sua primeira unidade educacional.

A moda, no entanto, demorou a pegar. A iniciativa só se tornou mais generalizada a partir dos anos 90.

Hoje, os Estados Unidos contam com mais de mais de 3.000 escolas de empresas. Segundo especialistas, em dez anos, o número dessas escolas deverá ultrapassar o de instituições oficiais de ensino superior.

No Brasil, a escala por enquanto é modesta. Há no país cerca de 40 universidades corporativas. As primeiras foram as das grandes corporações: Motorola, McDonald's, Bank Boston, Visa, Grupo Algar, AmBev. Mas começam a surgir escolas do gênero em médias e até pequenas empresas.

"? na prática que o aluno vai aprender. Por mais que tentem, as escolas tradicionais não conseguem acompanhar as mudanças do mercado", diz Cícero Domingos Pereira, um vice-presidente do Grupo Algar, conglomerado que abriga 17 empresas de vários setores, de telecomunicações a agrobusiness.

A terminologia interna do Algar é típica das empresas que procuram enfatizar a importância do aprendizado contínuo. Os cerca de 7.000 "associados", por exemplo -a empresa aboliu o termo "funcionário"- se relacionam não com a área de recursos humanos, mas sim com a de talentos humanos, dirigida por Domingos Pereira.

Para a ala mais exigente dos acadêmicos, as universidades corporativas não passam de "centros de treinamento", como rebate Marcos Fernandes, coordenador geral da Pós-Graduação Stricto Sensu e do MBA da FGV-Eãsp. Para Fernandes, um dos objetivos principais de uma universidade é o de promover o convívio com a diversidade e a troca de experiências -o que não pode ser oferecido quando um funcionário participa de uma formação dentro de seu ambiente de trabalho.

Do lado da empresa, além de garantir que os valores da companhia sejam compartilhados e habilidades sejam desenvolvidas, o ensino corporativo acaba possibilitando o armazenamento e o mapeamento do conhecimento que é gerado ali ou que falta aos seus profissionais, e o custo é certamente mais baixo do que numa escola. "Fica mais barato treinar aqui dentro", afirma o gerente de treinamento da Boston School, Ricardo Fenley.

As universidades corporativas atingem o ápice quando passam a oferecer cursos de MBA ("Master of Business Administration") voltados para as necessidades da corporação. Para tornar isso possível, a maioria das empresas faz parcerias com instituições de ensino tradicionais, e assim conseguem oferecer uma certificação externa (e válida) ao formando.

A Boston School, ligada ao Bank Boston, fundada em 1999, oferece desde cursos de revisão gramatical até MBA. Além de contar com um corpo docente profissional -alguns professores são de universidades norte-americanas-, o curso de MBA também prevê estágio no exterior.

A empresa de bebidas AmBev é outro exemplo. Forma, uma vez por ano, uma turma de executivos -seus funcionários e alguns revendedores selecionados- em um MBA realizado sob a coordenação do Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais), de São Paulo.

Algumas empresas vão além. A Universidade do Hambúrguer (UH), criada pela rede de fast-food McDonald's, pode ter um nome pouco usual para uma escola. Mas ela é considerada por especialistas como um exemplo clássico de faculdade corporativa.

Inaugurada em outubro de 1997, em Alphaville, na região metropolitana de São Paulo, a única UH da América Latina representou um investimento de R$ 7 milhões. Seu projeto segue os moldes da Hamburger University, dos EUA, a pioneira criada pela empresa em 1961.

A Universidade do Hambúrguer ministra cursos para funcionários, franqueados e fornecedores a partir do cargo de gerência. Pode oferecer até três cursos simultaneamente e tem capacidade máxima para 240 alunos. Por ano, a universidade chega a receber 1.200 alunos. Para os executivos com cargos mais altos, há a possibilidade de fazer pós-graduação na Hamburguer University, em Chicago.

Além das parcerias firmadas com instituições de ensino, algumas empresas estão expandindo seu raio de ação e oferecem formação fora de seu quadro de funcionários.

A Amil Universidade Corporativa, criada em 1990, vende seus cursos a outras empresas. E a Trevisan, empresa de consultoria e auditoria, foi ainda mais longe. Resolveu expandir seus negócios para a área educativa, criando uma instituição de ensino.

Apesar de fornecer bolsa de estudos para seus empregados e funcionar dentro da empresa, a Faculdade Trevisan, regularizada como instituição de ensino pelo MEC, não pode ser considerada mais uma universidade corporativa.

A Trevisan, mesmo funcionando como outra faculdade qualquer, tem uma característica que a torna mais atrativa para os alunos que sonham com uma rápida inserção no mundo profissional: sua proximidade com o mercado de trabalho. Afinal, o recrutamento de novos profissionais para a empresa acaba sendo feito entre os alunos.

"Eu preferi entrar direto em contato com o ambiente de trabalho", conta Ricardo José Patine Filho, que está no quarto ano de administração de empresas e já conseguiu uma vaga de auditor da Trevisan (empresa).

As universidades corporativas são mais uma opção de aprendizado para o profissional. Buscar o equilíbrio entre as formações -acadêmica e prática- pode ser o caminho mais seguro.

Fonte: Folha de S.Paulo



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