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Cacareco, não. Isso é design

      
Se a ordem no design contemporâneo é inovar, então há que se tirar o chapéu para Seu João Paixão, inventor de um objeto composto de uma varinha de madeira, na qual amarrou na ponta, com barbante, um copo plástico (uma variação: vários sacos plásticos). O uso? ''A varinha, na altura do amanhecer, me protege de ser atropelado'', define ele - e não se pode dizer que não seja um conceito funcional. Foi do encontro com o andarilho Seu João Paixão nas ruas de Copacabana, com sua curiosa conceituação do design, que nasceu o projeto Rua dos inventos, que a pesquisadora Gabriela de Gusmão Pereira apresentará a partir do dia 5 no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA).
Em 1998, estudante de Artes e Design na PUC-RJ, Gabriela andava atrás de um tema para a sua monografia de final de curso. ''Eu queria pesquisar algo que não estivesse dentro do padrão do que é considerado objeto de estudo em design'', conta. Ao topar com aquele mendigo atrelado a seus cacarecos, a moça percebeu que, na população e nos ambulantes de rua, a necessidade e a criatividade andavam juntas como em poucos segmentos sociais. Depois de formada, Gabriela conseguiu uma bolsa na Rioarte e o patrocínio da IBM para continuar sua pesquisa, enquanto cursa o mestrado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP - o tema da dissertação, claro, será Projetar e sobreviver na rua.
O projeto Rua dos inventos é composto pela exposição no MNBA, um livro e um CD-Rom com as imagens dos cerca de 80 ''inventos ambulantes'' e dos seis ''inventores perambulantes'' com os quais Gabriela manteve contato mais constante nesses quatro anos de trabalho. O alvo da pesquisa: estruturas e objetos inventados com material barato, a custo zero, para solucionar problemas práticos ou para trazer algum tipo de realização ao inventor. Na mostra, há 13 objetos e 23 fotografias coloridas dos inventos.
Em tempo: para facilitar a identificação, Gabriela traçou algumas subclassificações dos artefatos. Como, por exemplo, ''instrumentos de trabalho'', categoria na qual se inclui o trioeletricafezinho, colorido carrinho usado por ambulantes para vender copinhos de café nas ruas de Salvador, incrementado com música e acessórios de trio elétrico. Ou ''utensílios'', como o triciclo amarelinho usado por Seu Pelé para passear à noite nos arredores da Cinelândia - todo encapado com uma ensolarada fita crepe, o veículo tem acoplados um aparelho de som, uma TV a bateria e dois despertadores, para o dono, vigia do Cine íris, no Centro, jamais perder a hora.
Outro ''utensílio'' presente à mostra é o par de óculos que Dona Pequena, moradora de rua de Copacabana, concebeu em parceria com um oculista da região. Não tem lentes. Encaixada nos aros, uma estrutura de metal serve para segurar suas pálpebras, que, se deixadas soltas, praticamente encobrem os olhos de Dona Pequena. Na categoria ''inventos tipográficos'', destaca-se Carlos, o empalhador de cadeiras do Jardim Botânico que, preocupado com a perenidade de sua arte, oferece aulas gratuitas, anunciadas por um cartaz de rua: ''O artista morre, mas a arte não pode morrer.''
O melhor, porém, está sob a rubrica de ''objetos lúdicos''. Neco, um artesão de Maricá, teve um sonho com uma criança que levava na mão um aviãozinho de lata. ''Acordei com um avião na mão, mas não tinha nenhum avião na mão'', conta ele no livro.


Fonte: Jornal do Brasil


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