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Exaltação ao poder

      

Com a instauração do Governo Vargas em 1930, um importante personagem da música brasileira passou a integrar o gabinete do palácio do Catete, no Rio de Janeiro (sede da presidência à época): o mãstro Villa-Lobos (1887-1959). Participando ativamente do regime getulista, o mãstro foi responsável por inúmeras apresentações em praças públicas em prol do regime de Vargas e, principalmente, da construção de uma identidade nacionalista vinculada ao Estado Novo.

Segundo historiadores, embora a intenção do mãstro não tenha sido a de colaborar diretamente na política instaurada pelo regime de Vargas, a união entre compositor e ditador acabou favorecendo ambas as personalidades. No caso do mãstro, o apoio do governo veio impulsionar a projeção de sua obra em um cenário internacional.

Apesar de relevante, essa aliança acaba sendo pouco abordada pela maioria dos historiadores. Segundo a historiadora da Unicamp (Universidade de Campinas), Analía Chernãnvsky, que defendeu uma dissertação de mestrado sobre o tema, um dos motivos para a falta de ligação da vida e obra do mãstro com o regime de Vargas está relacionada ao distanciamento de Villa-Lobos antes da queda do regime. "Em 1944, um ano antes da derrocada do regime, Villa-Lobos já estava fora do país. Com isso, ele não assiste de perto a queda da Era Vargas. Isso pode ter sido um dos fatores para a preservação de sua imagem antes que esta fosse marcada como impopular", diz.

"Essa memória de mãstro, construída no final dos anos 40, quando Villa-Lobos já havia deixado sua função no governo, até hoje ficou cristalizada pela maioria dos historiadores, porém, ela ignora quase que completamente a importância do mãstro no governo getulista", declara. Segundo a pesquisadora, essa visão acaba sendo um viés para a história tendo em vista a memória "fechada" de Villa- Lobos que é repassada as futuras gerações.

Um caso com a política

Analía conta que Villa-Lobos não foi apenas um funcionário do governo getulista. Com sua entrada no governo em 1932, quando conquistou o posto de Superintendente da Educação Musical e Artística da prefeitura do Distrito Federal (à época situado no Rio de Janeiro), Villa-Lobos passa a assumir o governo de Getúlio como seu governo. "Desde o início, Villa-Lobos ressalta a revolução de 1930 como uma renovação nos padrões político-brasileiros", ressalta Analía.

Entretanto, a pesquisadora declara que a ligação mais próxima e evidente com o sistema político ocorre a partir da instauração do Estado Novo (1937). "A partir do Estado Novo, Villa-Lobos começa a desenvolver projetos ligados à política e fazer apologia à política de Vargas", diz. De acordo com a historiadora, a partir dessa união política, Villa-lobos inicia uma série de medidas no governo. Entre elas, cria um curso de especialização de canto orfeônico (canto coral à capela) para professores, com o objetivo de torná-lo principal meio de iniciação musical para crianças.

A aliança de Villa-Lobos com o governo de Vargas possibilitou ao mãstro um grande reconhecimento de sua obra, além da elaboração de projetos educacionais voltados para a música considerados de extrema importância para a carreira do mãstro. "Ao invés de fundar uma escola de música, como faziam muitos mãstros, Villa-Lobos escreveu um projeto educacional que propunha a inclusão de aulas de canto orfeônico nas escolas públicas de primeiro e segundo graus, na cidade do Rio de Janeiro", informa.

De acordo com Analía, a elaboração desse projeto possibilitou a fundação do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, fazendo com que o mãstro se tornasse o primeiro diretor da instituição, uma espécie de consagração de sua obra. A elaboração desse projeto foi um dos principais motivos de reconhecimento internacional da obra de Villa-Lobos.

Vivendo em uma época em que havia uma preocupação muito grande com o nacionalismo, o mãstro participou de um momento histórico muito importante: a construção dos símbolos nacionais. Analía conta que Getúlio preocupava-se em adequar os símbolos do país, como por exemplo, o hino nacional, ao sistema político da época. "Nesse contexto, Villa-Lobos foi de representação fundamental, pois, não auxiliou apenas na criação desses símbolos; o mãstro foi responsável pelo desenvolvimento da construção de uma ideologia política que exaltasse o governo Vargas", declara.

Segundo historiadores, outro momento importante que marcava o envolvimento do mãstro com o governo getulista era a execução dos projetos de corais organizados nos dias de feriados nacionais para promover o presidente. "Não apenas dos desfiles de 7 de Setembro, mas também em outras datas comemorativas, Villa-Lobos promovia corais dentro de estádios destinados ao público, que eram verdadeiras odes ao presidente", conta a professora de História da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Cláudia Wasserman.

Analía também destaca que essas concentrações orfeônicas eram marcadas pelos discursos em prol do governo, do presidente e também do Estado Novo. "Dentro dessa programação havia todo um discurso político em prol de Getúlio Vargas e da instauração da ideologia política do Estado Novo", explica. Desse modo, a historiadora conta que, além dos feriados nacionais, datas como 10 de Outubro (dia do golpe do Estado Novo) e o próprio aniversário de Getúlio Vargas, também eram comemoradas e marcadas pelas apresentações. "Havia toda uma articulação para a comemoração do regime ditatorial de Vargas. Na verdade, era uma espécie de doutrinação da população à ideologia política do ex-presidente", afirma.

Grande parte da obra do mãstro sofreu influência de sua vivência com o governo. Além dos cantos orfeônicos, Villa-Lobos escreveu a peça "Canto do pajé", obra destacada por inúmeros historiadores, que marcava a entrada de Vargas nos grandes discursos à população. "O canto do pajé significava a feição de Getúlio como curandeiro, ou seja, a idéia era de ressaltar que ele viera como o objetivo de curar o Brasil", explica Analía.

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