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Notícias

Perseguição ideológica

      

Trechos de obras de Santoro (clique para ouvir)
Prelúdio 1 - Allegro lento
Prelúdio "Tes Yeux" nº1 - Lento Expressivo
Prelúdio "Tes Yeux" nº1 - Andante
Prelúdio nº19 - Allegro grotesco e bárbaro
Prelúdio nº 27 - Andante
No auge da perseguição aos comunistas do século XX, quase todos os artistas, em algum momento, ou período de suas trajetórias, foram tocados e criaram obras motivadas pelas circunstâncias políticas ou sociais de seu tempo. Isso se reflete também na obra do compositor Cláudio Santoro, filiado ao partido comunista desde 1944, quando tinha 25 anos de idade.

Durante toda a vida o compositor foi vítima de sua ideologia política. Além de perder inúmeras oportunidades em sua carreira, Santoro chegou ao extremo. Mantendo-se apenas com uma bolsa de estudos simbólica concedida pelo governo francês, o compositor passou fome e frio para conseguir estudar música em Paris. Incorruptível, Santoro era capaz de abrir mão de um bom salário mas não abdicava de seus ideais, mesmo estando em péssimas condições de sobrevivência.

No início da carreira, Santoro tocava na Orquestra Sinfônica Brasileira e costumava discutir política com os músicos da orquestra, procurando esclarecer-se politicamente. Fascinado pelo socialismo de Karl Marx e outros teóricos do Marxismo, o compositor decidiu filiar-se ao partido, postura adotada por grande parte dos músicos que compunham a orquestra. "Santoro ficou entusiasmado pelas idéias socialistas de igualdade e justiça para a população", diz a pesquisadora da Unicamp (Universidade de Campinas), Iracele Vera Lívero de Souza, que realizou uma dissertação de mestrado sobre a obra do compositor.



Dois compositores na Era Vargas
Exaltação ao poder

Ao mesmo tempo que os ideais socialistas eram comentadas de forma positiva por seus companheiros de orquestra, a extrema direita execrava o regime. Pouco a pouco, chegava ao Brasil informações sobre os alto níveis de educação russa, o ballet, música e ciência, fatores que despertavam a atenção do compositor, e sobretudo, música. Entretanto, o compositor não tinha uma posição confortável por suas ideologias políticas. "Cláudio pagou um alto preço por suas idéias políticas. Sempre sofria retaliações por sua maneira de pensar", destaca Carlota, primeira esposa do compositor, na dissertação de mestrado de Iracele.

Um dos principais momentos da vida do compositor em que este defende sua ideologia política ocorre em 1946, quando é contemplado com uma bolsa de estudos da Guggenhein Foudation para estudar música nos Estados Unidos. Segundo Iracele, essa bolsa de estudos era uma das mais difíceis de ser conseguida. Além disso, inúmeras personalidades conhecidas de Santoro, inclusive, o mãstro Heitor Villa-Lobos, apoiaram sua pretensão. Porém, em virtude de Santoro ter filiação com o PC (Partido Comunista), o visto de entrada nos EUA lhe foi negado.

De acordo com Iracele, a firmação de sua ideologia política favorável ao comunismo acontece quando Santoro perde a bolsa de Guggenhein Foudation. "Bastava que Santoro assinasse um documento afirmando que não pertencia mais ao partido comunista para conseguir a bolsa. Porém, ele descreve que o partido era legal e que sempre foi uma pessoa de dizer a verdade", conta. Segundo a pesquisadora, essa atitude causou-lhe grandes problemas pois já estava inclusive de malas prontas para embarcar para os Estados Unidos, tinha vendido os móveis e alugado apartamento no exterior.

Foram inúmeros acontecimentos negativos que ocorreram na vida do compositor em virtude de sua posição política. Entre eles pode-se destacar a perda de um cargo musical na Unesco (Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura) em Paris. Segundo Iracele, a oportunidade era maravilhosa. "Financeiramente, seria possível viver com dignidade na França. Parecia que tudo estava acertado. Entretanto, dias depois de ter recebido a proposta, Santoro foi notificado que seu nome não fora aceito para o cargo por causa de sua ligação com a esquerda francesa", conta.

Com ideais do realismo-socialista, influenciado pelo teórico russo Andrei Zdanov no Congresso de Praga, a música de Santoro sofre uma transformação radical. Segundo Iracele, neste momento fica evidente sua preocupação em tornar sua obra mais simples e compreensível, de maneira a torná-la mais acessível ao público. Santoro, compositor erudito, inicia, neste período, uma fase nacionalista, compondo músicas baseadas em uma temática popular e folclórica, mas também, com caráter progressista, ou seja, que descrevesse a luta da classe proletária. Nesta fase, o compositor fica mundialmente conhecido e recebe inúmeros prêmios internacionais.

De volta ao Brasil, em 1948, outro viés na carreira do compositor. Desta vez, as negativas em sua carreira estavam ligadas a dois encontros com o mãstro Villa-Lobos. Nesta época, Santoro passa a pleitear o cargo de regente adjunto da OSB (Orquestra Sinfônica Brasileira) e uma vaga do quadro do Conservatório Brasileiro, que Villa-Lobos, o então responsável pelo Conservatório havia lhe prometido. Porém, quebrando sua promessa, Villa-Lobos nega as duas funções a Santoro. Em 1955, em um novo encontro com Villa-Lobos, Santoro volta a pedir um cargo no Conservatório Brasileiro, pois haviam cinco vagas disponíveis, entretanto, Villa-Lobos lhe responde com outra negativa dizendo que o perfil das vagas não se adequava ao compositor.

Combatido pela crítica, Santoro foi muito perseguido. Poucos conseguiam analisar a obra de um compositor com ideologias políticas oposicionistas as suas. Uma das exceções era Nadia Boulanger, professora de Santoro durante o período em que estudou na França. ? importante lembrar que as primeiras peças dodecafônicas de Santoro, consideradas de seu período mais erudito, na década de 40 não agradavam o público. "Os ouvintes não entendiam a dissonância e a falta de apoio da tonalidade, então, para eles, a música parecia desafinada. Essa característica era desestimulada por muitos críticos, mas compreendida por outros, como o musicólogo uruguaio Curt Lange, maior incentivador de sua obra", diz Iracele.

Em 1971, Santoro vive na Alemanha com a família. Segundo Iracele, após ter seu reconhecimento internacional, o compositor está estabelecido, além disso, podia ver suas obras serem editadas e regidas. Em cartas dirigidas a Curt Lange, Santoro afirma estar feliz. Entretanto, ao receber uma vaga na Orquestra do Teatro Nacional de Brasília Santoro volta ao Brasil. "Aqui, Santoro sentiu-se desiludido, pois artistas de seu tempo que defendiam uma formação pedagógica haviam sido dispersados", conta a pesquisadora.

Ao final de sua vida em Brasília, Santoro declarava, em cartas dirigidas a Curt Lange, que pessoas daquele meio musical tornavam sua vida um inferno. "Santoro falava da corrupção naquele momento, dos cortes de verbas para realizar seu trabalho e dos inquéritos contra ele. Mas, mesmo assim, o compositor sentia-se satisfeito pela homenagem que o mundo iria prestar pelos seus 70 anos e de suas obras que iriam ser estreadas fora Brasil", finaliza.

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