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Na internet, ex-guarda vira doutor

      
Na internet, ex-guarda vira doutor e fatura com teses e monografias
Fraude cresce e pelo menos dez sites vendem trabalhos universitários
De um laptop numa casa de aparência humilde na Zona Oeste do Rio, o ex-guarda municipal e professor de informática Jorge Vagner, de 36 anos, garante que já saíram nos últimos três anos mais de 400 monografias, teses de mestrado e doutorado para estudantes de todo o Brasil e até de países como Portugal e Espanha. Anunciada inicialmente em simples panfletos colados em murais nas universidades, a venda desses trabalhos se sofistica e ganha ares profissionais em sites da internet.

- Foi um filão que encontrei. ? um mercado que cresce a cada dia. Hoje, tiro cerca de R$ 12 mil por mês - diz Vagner, que por trás do portão de casa guarda dois automóveis e uma moto Harley Davidson.

Com a chegada do fim do ano letivo, surgem até e-mails anunciando promoções para quem já quer garantir a aprovação. Há pelo menos dez páginas na internet com boa apresentação visual, que oferecem quase todos os tipos de trabalhos universitários. De direito a administração, passando por medicina e engenharia, o preço de uma tese pode variar de R$ 300 a R$ 4 mil.

- A pessoa encomenda, eu compro os livros e faço, geralmente por etapas. Vou modificando à medida que o aluno me passa as correções do orientador. Só me lembro de um estudante reprovado - gaba-se o ex-professor de informática, que já contabiliza quatro sites na internet.

A apresentação das páginas é um capítulo à parte. Basta um clique para tirar dúvidas como forma de pagamento, prazos e método de trabalho. Os autores chegam a se apresentar como prestadores de serviço para estudantes acadêmicos. Em seu site, Jorge Vagner diz ser o diretor comercial de sua empresa de apoio aos estudantes.

Para presidente da Capes, é preciso criar conselhos de ética
Para tornar a oferta mais atrãnte, os autores tentam mostrar credibilidade. Em geral, os sites afirmam que contam com uma equipe de professores gabaritados para elaborar teses e monografias. Na prática, no entanto, como revela Jorge Vagner, os trabalhos costumam ser copiados, o que ele garante só ter feito uma vez:

Isso é uma tática para dar mais confiança aos alunos. No meu site, por exemplo, botei a foto de uma suposta equipe. Mas eu e mais duas amigas, uma bióloga e uma socióloga, fazemos tudo. O sistema de avaliação das universidades hoje é muito ruim. A maior prova é que eu já consegui elaborar, por exemplo, teses inteiras em áreas como engenharia ou medicina.

Apesar de duvidar da eficácia do doutor da internet, o presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) do Ministério da Educação, Marcel Bursztyn, diz que as universidades precisam estar atentas às fraudes e sugere a criação de conselhos de ética para analisar os possíveis casos. Só em 2002, foram produzidas mais de 31 mil teses de mestrado e boa parte desse acervo já começa a ser posto pelas instituições na internet.

Além desses vendedores, há hoje uma gama enorme de trabalhos disponíveis para consulta na internet, o que democratiza o acesso, mas abre espaço para fraudes. O ideal seriam códigos nas universidades com as possíveis punições, além de uma boa formação ética para os alunos.

Para especialista, venda dos trabalhos não é crime
A sofisticação dos sites é tanta que alguns até afirmam que a compra e a venda das teses não são ilegais. E, por incrível que possa parecer, eles podem estar certos.

Não há propriamente um crime ou uma violação de direito autoral, já que o autor cede a obra. ? uma violação da ética e da moral, que precisa ser punida severamente pelas universidades afirma o advogado Luiz Araripe, especialista em direito autoral.

Nas universidades, no entanto, ninguém admite qualquer caso de fraude. A justificativa é de que o sistema de acompanhamento das teses e monografias não dá espaço para trabalhos que foram comprados ou copiados.

Com o controle constante que é feito pelos orientadores, qualquer desvio é percebido diz o coordenador de Pós-Graduação da PUC, José Ricardo Bergman.

Para a pesquisadora da Fundação Cesgranrio Ligia Elliot, a brecha pode estar justamente no trabalho do orientador:
? lamentável, mas, se há desleixo do professor, é possível que se mantenha essa fábrica de esperteza.

Fonte: O Globo
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