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Prefácio: Vida nas ruas

      

Vivemos os primeiros anos do século XXI. A despeito das promessas de maior igualdade entre os países explicitadas em acordos internacionais nas últimas décadas do século XX, não se conseguiu erradicar a pobreza, a fome e outras mazelas. Este período foi marcado por movimentos mundiais importantes à democratização de povos oprimidos pela repressão e pelo medo, como o fim das ditaduras em grande parte da América Latina e a luta contra o apartheid na áfrica do Sul, para citar alguns exemplos. No entanto, em meio ao discurso dominante sobre direitos humanos, eqüitatividade e globalização, este mesmo período foi palco de crescente distanciamento entre ricos e pobres, aumentando a desigualdade social e econômica no mundo.

Este livro tem como base as histórias de vida relatadas por crianças e adolescentes que se encontram nas ruas da cidade do Rio de Janeiro. Suas trajetórias estão interligadas ao atual momento histórico, de mundialização, como diria o geógrafo e cientista social Milton Santos: momento de rápidas transformações, de transições e reordenamento político-espacial do mundo. São os chamados meninos e meninas de rua, street kids, ni¤os de la calle, enfants de la rue... - denominação comum para um fenômeno que se tornou ampla e dolorosamente visível por volta dos anos 1980, tendo custado as vidas de muitas crianças e jovens, que simplesmente lutavam para sobreviver.

As trajetórias que apresentamos e discutimos neste livro representam as vidas de milhões de crianças e adolescentes no mundo. Seriam suas trajetórias de vida inevitáveis? Esta será a pergunta que norteará a nossa análise.

O grupo que focalizamos neste livro é parte de um contingente maior de pessoas que migram, são deslocadas ou exiladas de seus contextos de origem - uma das características mais notáveis na contemporaneidade. São eles exemplos vivos das contradições de nossos tempos, entre o discurso emergente de direitos e a real situação de agravamento das desigualdades socioeconômicas. Defende-se o direito que as crianças e adolescentes têm à convivência familiar e comunitária, porém, não se lhes asseguram sequer condições mínimas para que possam sobreviver dignamente e permanecer em seus lares. Pelo contrário, como veremos nos relatos de suas vidas, eles parecem nascer sem lugar no mundo. Suas vidas são marcadas, desde o início, por adversidades contínuas, forçando-os a circunstâncias desumanas, que vão compondo o pano de fundo de suas trajetórias. Embora ocupem as ruas com sede de viver, suas histórias são pautadas por episódios de fome, brigas, desastres, mortes, perdas, falta de opção, de apoio, de tudo.

Este livro funda-se na preocupação com as vidas destas crianças e adolescentes. Visa captar em suas palavras e em suas formas de expressão, os sentidos que eles dão ao seu destino e aos caminhos que antevêem para si. O livro nasce com vocação para subsidiar ações, antecedendo a criação de uma rede de organizações que articulasse suas iniciativas de atendimento à população infantil e juvenil em situação de rua na cidade do Rio de Janeiro, a Rede Rio Criança. A pesquisa que originou o livro aconteceu por iniciativa da fundação suíça Terre des hommes, que procurou a equipe do CIESPI para sua realização . Partimos da idéia de produzir um material totalmente baseado na voz das crianças e dos adolescentes, envolvendo instituições e educadores sociais em um processo participativo de desenvolvimento e execução da pesquisa. O primeiro produto da pesquisa - um relatório -foi debatido em seminário, com a participação de diversas organizações do Rio de Janeiro, Ricardo Lucchini, da Universidade de Fribourg e Daniel Stoecklin, de Terre des hommes, estando os dois últimos profundamente envolvidos na reflexão e na prática sobre o tema em âmbito internacional . O livro procura refletir este processo de aprendizagem e sensibilidade, respeitando os pontos de vista das crianças e dos adultos que compõem sua essência.

Optamos por subdividir o livro em duas partes. Na primeira, intitulada Vida nas ruas, iniciamos com o capítulo elaborado por Irene Rizzini e Udi Mandel Butler, que revisitam a literatura sobre "meninos de rua" nas últimas duas décadas, apontando algumas das principais tendências que se destacam nas análises produzidas no Brasil, interligando-as a aspectos da literatura internacional, quando pertinente. Em seguida, os textos de Riccardo Lucchini e Daniel Stoecklin, baseados em experiências de pesquisas com crianças e adolescentes em situação de rua de diversos países da América Latina, Europa e ásia, apresentam reflexões que complementam o capítulo sobre a literatura brasileira e contribuem para aprofundar a análise atual sobre o tema.

Na segunda parte, contextualizamos estas análises com base em observações e entrevistas com meninos e meninas que encontramos nas ruas e em instituições de abrigamento na cidade do Rio de Janeiro. Com o título Trajetórias de vida de crianças e adolescentes nas ruas do Rio de Janeiro, a equipe de pesquisa do CIESPI, composta por Alexandre Bárbara Soares, Aline de Carvalho Martins, Udi Mandel Butler e Paula Caldeira, revela a experiência vivida juntamente com outros profissionais da Rede Rio Criança. As histórias de vida que nos foram confiadas constituem a fonte de inspiração do livro como um todo.

Há muitos anos acompanhamos os percursos de crianças e adolescentes como os que apresentamos neste livro. Não apenas crianças brasileiras, mas tantas outras que pelo mundo afora se movimentam entre suas casas, as ruas e as instituições, em busca de proteção e de um lugar onde se sintam pertencentes. São diversos os fatores de ordem política mais ampla que determinam os processos excludentes que afetam as vidas de cada uma destas crianças e suas famílias. Porém, este tipo de constatação sugere que não há o que se possa fazer para mudar este quadro. Não acreditamos nisso. E, ao fazermos essa afirmação, baseamo-nos nas experiências de vida e nos depoimentos das crianças e adolescentes . Apesar da constante exposição às frustrações e decepções, eles mantêm acesas as esperanças e demonstram ter consciência e lucidez quando refletem sobre suas vidas...

"A sociedade não entende nosso lado. Eu sei que a gente faz errado em tá na rua, mas às vezes a própria sociedade faz a gente entrar na droga mais rápido, entendeu?... Eu acho que todo mundo merece uma chance na vida. Uma, não, várias! Só tem que aproveitar"(Sabrina, 15 anos).

"... Eu ajudava os meninos de rua pra eles voltar pra casa. Eu queria ajudar os pobres... eu queria que não existia tráfico na rua. Queria que existisse paz"(Derico, 12 anos).

"Se eu fosse presidente? Ia fazer tanta coisa boa..."(Waldyr, 17 anos).

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