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Universidade ética por um Brasil mais justo

      
O Seminário Internacional Universidade 21 reunirá em Brasília professores e universitários, no final do mês, para refletir sobre formas de reinventar a universidade neste início de século. Os problemas e desafios são muitos. Mas o espírito de ousadia que se faz sentir entre os organizadores do evento permite dizer que neste debate nada será proibido. Tudo será posto em questão para se descobrir e implementar novas formas de ensino superior que permitam melhor contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e auto-sustentável.

Em agosto, o Seminário Nacional Universidade 21 nos deu sinais do protagonismo que poderá ser dado à universidade neste despertar de um novo século. Entre as reflexões propostas estão: Qual deve ser o contrato social da universidade com a sociedade? Quais as novas formas de engajamento da universidade?

O presidente Lula e o ministro da Educação, professor Cristovam Buarque, entendem que faz parte do conceito de universidade com inclusão social, a implantação de cursos noturnos e à distância, e de sistema de cotas para negros e estudantes das escolas públicas, a interiorização, a ocupação das vagas ociosas, o aumento de oferta de vagas. O professor Cristovam pensa até em substituir a organização clássica por departamentos, pelos núcleos transdisciplinares, onde os temas da atualidade (como fome, pobreza, juventude, energia, cultura, etc.) seriam constantemente discutidos. Muitas dessas propostas já são bem conhecidas e estão sendo praticadas com bons resultados em várias universidades. O que se percebe de novo, no entanto, é o aumento da adesão e da disponibilidade para uma sincera mobilização envolvendo governo, professores, administradores e técnicos e universitários.

Essa adesão precisa, no entanto, envolver todo o povo brasileiro, tocar profundamente os corações e transformar este debate aberto numa revolução pacífica de solidariedade pela inclusão e justiça social. Os nossos jovens universitários, cuja coragem e generosidade têm sido constantes ao longo de nossa história, poderiam assumir a liderança. E deveriam, especialmente os da classe alta e de parte da classe média, altamente privilegiados, há séculos, e que estudam nas universidades públicas e gratuitas. Eles se beneficiam de políticas públicas que os privilegiam em detrimento do ensino básico de qualidade para milhões de crianças. Esses jovens têm a obrigação moral e ética de dar um retorno à Nação e à sociedade. Esse retorno não pode estar limitado a soluções de realização pessoal, através da obtenção de um bom emprego na iniciativa privada ou na área pública. ? preciso que a estrutura do ensino universitário possibilite a esses jovens sair do câmpus universitário, chegar às periferias pobres e distantes, conhecer a realidade do povo sofredor, olhar nos olhos das crianças que vão para escola de pés descalços e não conhecem as benesses do mundo globalizado. Elas vivem apenas suas tristes conseqüências.

No Primeiro Mundo, milhares de rapazes e moças, sensíveis à realidade deste mundo desigual, já descobriram os caminhos do trabalho solidário. Eles são o contraponto de seus governantes, adeptos de políticas que ameaçam a paz, a natureza e a humanidade. Espanhóis, italianos, americanos podem ser encontrados entre os índios de Chiapas, no meio de crianças órfãs com HIV positivo no Quênia, nos campos de refugiados palestinos e entre os mutilados das guerras da áfrica. Nos organismos internacionais de solidariedade, como Médicos Sem Fronteiras, Jornalistas Sem Fronteiras, Cruz Vermelha, são ainda raros os jovens brasileiros.

Na Presidência da República, um grupo interministerial, envolvendo ex-rondonistas e a UNE, estuda formas de relançar o Projeto Rondon. No Ministério da Justiça, um projeto de emenda constitucional visa possibilitar o serviço social alternativo ao serviço militar, como já ocorre em muitos países europeus.

A universidade poderia entrar nesse movimento incluindo no currículo universitário, antes da conclusão de qualquer curso, um estágio social solidário ligado às diferentes áreas do conhecimento. Teríamos então, milhares de universitários, em fase de conclusão de curso, trabalhando como paramédicos, sanitaristas e engenheiros, em regiões desassistidas; professores, pedagogos, psicólogos, ajudando nas nossas desprovidas escolas primárias e secundárias do interior e das periferias das grandes cidades; arquitetos, engenheiros, ambientalistas poderiam estar pesquisando soluções de urbanismo, habitações populares e construindo junto ao povo em mutirões; futuros jornalistas trabalhando na comunicação comunitária e reforçando rádios locais de pequenas cidades; economistas, tributaristas e cientistas sociais dando assistência às prefeituras; futuros empresários e especialistas em administração e turismo descobrindo soluções para desenvolvimentos de cidades como a pequena Goiás. E assim por diante.

O povo, há muitas gerações, generoso para com os nossos universitários, ganharia com isso. Ganhariam muito mais os próprios universitários, que teriam durante esse tempo de trabalho solidário e especialização orientada por seus professores, um aprendizado mais realista sobre o nosso País, nosso povo e nossas necessidades. O Brasil daria um exemplo de prática de justiça e de uma juventude pacífica, solidária e ética. Aprenderíamos todos a apreciar o gozo fino, delicado e insubstituível do sabor da solidariedade.

O presidente da UNE, Gustavo Petta, afirmou que a entidade máxima dos universitários será sempre combativa, rebelde e consciente para possibilitar aos estudantes sonhar com um mundo novo. Chegou a hora dos universitários pararem de sonhar para construir um mundo novo.

Marcelo Barros é monge beneditino

Fonte: O Popular
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