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Educar com os olhos no futuro

      
De 1998 a 2002, o Brasil mais que dobrou o número de cursos de graduação, numa expansão que bateu em exatos 107%. Quem se der ao trabalho de debruçar sobre os números brutos e fizer algumas poucas contas, chegará à média de quatro novos cursos abertos por dia, no período.

Deixando de lado outras considerações, foi um salto espetacular, partindo dos 6.950 cursos em 1988 e totalizando 14.399 até outubro de 2002, data-limite da coleta de dados para o último Censo de Educação Superior, que abrangeu 1.637 instituições. Comparando as matrículas, constata-se que em 2002 os cursos de graduação abrigavam quase 3,5 milhões de alunos, cerca de 450 mil acima do alunado de 2001.

Como explicar esse boom num país que convive há décadas com o problema crônico de investimentos em educação, que encontra sua melhor tradução na crescente relação candidatos/vaga nos vestibulares Não vem ao caso aqui discutir as razões alegadas para tal situação há quem diga que o governo canaliza pouca verba para o ensino e há quem diga que o dinheiro é suficiente, só que é mal gerido o fato inegável é que a oferta de vagas sempre ficou muito aquém da demanda.

A expansão dos cursos superiores nesses cinco anos deveu-se principalmente às instituições particulares, que agora contam com 63,5% dos cursos (um aumento de 3.980 para 9.147) e 70% das matrículas. Para dimensionar o ritmo, basta cotejar o aumento do número de alunos nas redes pública e privada: 31% contra 84%, respectivamente.

Bastou a divulgação das estatísticas para pipocarem críticas e palpites, boa parte em tom depreciativo e categórico. Quase sempre, as considerações são ligeiras, resumindo-se a um comentário que peca pela generalização: A qualidade não acompanhou a quantidade. Interessante notar que poucos se dão ao trabalho de fundamentar a análise da qualidade, num momento em que várias correntes se dedicam com entusiasmo a desmerecer o Provão, sem deixar muito claro o que pretendem colocar em seu lugar.

Leigos na matéria podem até cultivar opiniões baseadas em constatações empíricas e expressá-las em conversas amenas ou indignadas, dependendo da última bomba veiculada pela imprensa. Mas de especialistas é justo que a sociedade espere uma análise serena, despida de interesses corporativos e dogmatismos de qualquer espécie, seguida de propostas consistentes para aprimorar o sistema de ensino, sem necessariamente destruir o pouco que foi feito e que deve ser creditado majoritariamente não a governos anteriores, mas a essa mesma sociedade, que tantas vezes contribuiu com pesados sacrifícios para os avanços.

Ninguém, com uma dose mínima de bom senso, acreditaria que a expansão do ensino superior se deu sem problemas, distorções e até abusos. Mas a experiência ensina que, antes de colocar todo o processo numa vala comum, é recomendável examinar cada instituição criteriosamente e de forma isenta, com o objetivo de manter e aprimorar os cursos que tenham condições de atender às necessidades do aluno e do país.

Convém ainda lembrar que, mesmo com o expressivo aumento das vagas, apenas 9% dos brasileiros de 18 a 24 anos estão na faculdade, enquanto em países como Chile e Bolívia essa parcela supera a casa dos 20%, como compara Carlos Antunes, secretário de Ensino Superior do Ministério da Educação. E mais: a quase universalização do ensino fundamental já está se refletindo no aumento de matrículas do ensino médio e, com isso, dentro de dois ou três anos, a pressão dos jovens nas portas das faculdades será bem mais intensa.

Por essas razões, somadas ao crime que será matar as esperanças dos jovens e dos pais que apostam na educação como passaporte para um mundo melhor, é mais interessante pensar à frente, buscando aprimorar o sistema de ensino como um todo. Até porque, ao que tudo indica, os dois sistemas terão de conviver por um bom tempo, sob o olhar vigilante do Estado, que precisará se mostrar competente para retirar dos dois sistemas o que cada um tem de melhor e conjugá-los. Só assim será possível agilizar o resgate dos milhões de jovens hoje condenados à exclusão por falta de conhecimentos que lhe permitam construir um país mais justo e menos desigual.

Fonte: Correio Braziliense
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