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Felippe... presente!

      
Que aulinha triste essa de hoje... A educação brasileira está querendo entender melhor o que Felippe quis com isso. Foi embora justo agora, quando estávamos juntos inventando tantas coisas boas aqui na Bahia. Tanta coisa com a cara dele. Na Faculdade de Educação, que ele tanto gostava e tanto criticava, estávamos - nada disso... estamos ainda! - buscando construir uma escola sem rumo. E ele ajudando cotidianamente a tirá-la do rumo... Há quatro anos eu estava em Londres e, de lá, escrevia umas maluquices sobre o futuro da Faculdade. Escrevia para Felippe, claro. Ele respondia, comentava, reescrevia e dizia muitas outras coisas. Deu no que deu: eu e Mary Arapiraca terminamos diretores da Faced, com o estímulo de muitos outros colegas.

Desde o início da minha vida profissional, quando pensava alguma coisa mais diferente, inevitavelmente lembrava de Felippe. E corria atrás dele, em Brasília ou Ouro Preto (ah! tempo bom, hein Felippe?!). Eu tinha certeza de que ele me entenderia. Ele levava a sério as minhas idéias de que a escola tinha que ser um espaço alegre, vibrante e menos careta. Depois, com a internet e essas coisas todas, começamos a conversar sobre como as tecnologias estavam mudando a sociedade e como a sociedade mudava com elas. E a escola? Nada! Imexível, como já disse um ministro... Felippe, aberto a todas essas coisas, passou de um analfabeto digital para um quase-hacker.

Lembro, como se fosse hoje, eu puxando fios para fazer a ligação de um computador no gabinete do reitor quando lá estava ele, no lugar que já foi de Edgard Santos. Felippe incentivava tudo isso e, mais ainda, implantou em sua gestão, e com plena participação do Conselho Universitário, uma política explícita de informatização da Universidade, responsável pelo salto qualitativo da Ufba em termos de tecnologias da informação e comunicação, naqueles tempos em que a internet apenas engatinhava. O reitor tinha que estar conectado! E conectado ele sempre foi!!! Comecei a explicar, ao mestre que tanto me ensinou, os primeiros passos nesse mundo digital. E lá foi ele... como sempre, vendo e experimentando novas possibilidades. Aprendendo com os mais jovens... Futucando, como ele adorava repetir, usando a expressão de uma menina de 8 anos numa aula inaugural que organizamos juntos na Faced.

Desde as primeiras aulas que tive na Faced, de história e filosofia da ciência e metodologia do ensino de física, que ele ministrou até ontem, percebia que ele já nos levava a navegar por inúmeras teorias não tão tradicionais assim, que nos possibilitava um outro pensar. Outros pensares... no plural. Ele sempre foi plural.... Trazia textos e referências muito diferentes dos corriqueiros livros didáticos (didáticos?!). Trazia-nos coisas esquisitas este barbudo baixinho que, recentemente, até charuto fumava pelos corredores da faculdade. Deixou a Reitoria e voltou para a sala de aula e para os corredores, seu lugar preferido na Universidade. Lugar dos diálogos e das provocações, que ele fazia tão bem! Não hesitamos em chamá-lo de Pajé. E ele adorou, como adorava tudo que significava quebrar a ordem instituída para fortalecer a participação de todos na construção de um sociedade justa. Ele não se acomodava e, hoje, deve estar por aí fazendo mais estripulias pois, quieto mesmo, ele não ficava, não! Não suportava a aula tradicional. A professoralidade instituída, dizia ele, não leva a nada e afasta as pessoas da beleza do aprendizado. E do ensinamento.

Ele não parava de dar e de assistir a aulas, sempre dialogando e provocando. Entrava em todas as salas. Olhava pela porta... se achasse que tinha coisa boa rolando ali dentro, entrava quietinho e ficava por lá. Mas não suportava os processos tradicionais, hoje dominados pela lógica neoliberal que insiste em querer transformar até a universidade em empresa, com padrões e índices de produtividade! Eu sou improdutivo, gritava ele em tempos de GED - perdoe-me leitor de fora da Universidade, mas isso é tão esquisito que eu lhe peço paciência mas... não vou explicar, não! Eu sou improdutivo e pronto... quero é tempo para ficar de bobeira, quieto, lendo, pensando e conversando sobre idéias, repetia ele insistentemente com aquele ar de .. ar de... de Pajé, claro!!!

Está terminando a aula de hoje. Vamos à chamada final para ver quem ficou até o fim.

Nelson... tô aqui!
Mary... presente!
Felippe... Felippe Serpa ...
Será que ele já foi?!
pssss.. fui não... tô aqui... mas não vou perder meu tempo respondendo chamada... isso é um atraso danado da escola e eu tenho coisa mais importante pra conversar... pssssss.. deixa quieto... fui não, mas... deixa pensarem que já fui!.

Fonte: A Tarde Online
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