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Notícias

Recado de um crime

      
O brutal assassinato do casal de adolescentes paulistas provocou uma onda de revolta e perplexidade. A frieza dos criminosos assombrou até mesmo experientes policiais. O crime repercutiu forte na crônica policial e suscitou acaloradas discussões a respeito da inadequação do Estatuto da Criança e do Adolescente à realidade que estamos vivendo. O tema, sem dúvida dramático, exige uma reflexão aprofundada. Estratégias emocionais não costumam ser as mais adequadas para o encaminhamento de assunto tão complexo. O mal existe e, sem dúvida, tem algo de insondável. Mas a crueldade não é fruto do acaso. ? o resultado de uma equação bem precisa. Violência transmitida pela mídia, exclusão social, família dilacerada e impunidade compõem, estou certo, o caldo que engrossa a paranóia.

A era do entretenimento, cuidadosamente medida pelas oscilações do ibope, tem na violência um de seus carros-chefes. A transgressão passou a ser a diversão mais rotineira de todas. Alguns setores do negócio do entretenimento, apoiados na manipulação do conceito de liberdade de expressão, crescem à sombra da exploração das paixões humanas. Ao subestimar a influência da violência ficcional, omitem uma realidade bem conhecida da psicologia: a promoção do sadismo como instrumento de diversão não produz a sublimação da agressividade, antes representa um forte incitamento a comportamentos anti-sociais. Morte, violência e estupro, realidades banalizadas por certas novelas e programas de auditório da TV brasileira, acabam sendo incorporadas pelos bandidos juvenis. A onipresença de uma televisão pouco responsável está na origem de inúmeros comportamentos patológicos.

A exclusão social está na outra ponta do problema. O presidente Lula, com razão, está empenhado na implantação do Fome Zero. Mas o que o Brasil precisa com urgência é de um Desemprego Zero. Uma juventude sem trabalho, sem esperança e sem futuro é presa fácil do crime organizado. As esquinas das nossas cidades testemunham, diariamente, um chocante desfile da exclusão. Lembro-me de um episódio exemplar. Na saída do Parque do Ibirapuera, Zona Sul de São Paulo, uma dondoca, papel higiênico em punho, limpava o bumbum de seu pequeno poodle branco. Caído num canto, rosto precocemente envelhecido, um menino estendia a mão. Era um grito de fome e tristeza que se perdia no vazio da indiferença. O grito, cedo ou tarde, se transforma em revolta e ódio. Nada contra o poodle. Mas tudo a favor da criança. Uma legião de jovens criminosos, nascidos no perigoso campo da exclusão, começa a mostrar a sua face anti-social.

A crise da família está também na raiz do problema. Como salientou Mark Stein, colunista da revista britânica The Spectator, se a crescente falange de adolescentes assassinos deixa algo claro, é o fato de que cada vez mais pais não conhecem os próprios filhos. Não é difícil imaginar em que ambiente afetivo e social terão crescido os integrantes da gangue assassina. Na falta de carinho, as crianças carentes crescem sem referenciais morais. Sua resposta é uma explosiva combinação de revolta e crueldade.

A sociedade não tem culpa da falência do Estado, da sua gritante incapacidade de resolver os imensos desacertos sociais. O governo tem o dever de garantir a segurança e não pode invocar a crise social como justificativa para apatias e omissões. Por sinal, em que pé está a construção da penitenciária federal de segurança máxima? A pergunta é pertinente. Afinal, a promessa de encontrar um local para albergar Fernandinho Beira-Mar e outros delinqüentes federais foi feita e reiterada pelo ministro da Justiça. Curiosamente, não se tocou mais no assunto. Os bandidos juvenis são criminosos. Freqüentemente mais violentos que os adultos. Matam. Estupram. Roubam. Precisam ser retirados do convívio social.

? preciso enfrentar a curto prazo o problema da delinqüência infanto-juvenil. ? absurdo, por exemplo, que um menor, autor de crime hediondo, não possa permanecer mais de três anos em regime de internato. O governador Geraldo Alckmin deverá apresentar ao presidente da Câmara, João Paulo Cunha, um projeto prevendo aumento do tempo de privação da liberdade para menores infratores para até dez anos. ? um bom começo. Impõe-se, de fato, a revisão do Estatuto da Criança e do Adolescente para torná-lo mais adequado à realidade. Mas é preciso ir às causas profundas da delinqüência. Ou encaramos tudo isso de frente, ou seremos tragados por uma onda de violência jamais vista.

Fonte: A Tarde
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