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Era medieval no nordeste

      
O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, é uma peça clássica do teatro brasileiro. Quando se fala em clássico muitos podem imaginar uma obra velha, cheirando a naftalina, cheia de teias de aranhas, lagartixas e outros bichos. Mas uma obra de arte é (ou se torna) clássica precisamente pela sua capacidade de permanecer eternamente viva, atual e moderna. A prova de que é clássica está no fato de ser o texto de teatro brasileiro brindado com o maior número de montagens. Além disso, virou minissérie de televisão e ganhou uma versão para o cinema, ambas dirigidas por Guel Arrãs.

A trama da peça é permeada de peripécias mirabolantes. O herói ou o anti-herói da peça, o amarelinho João Grilo, se mete e, ao mesmo tempo, envolve todo mundo em infinitas trapalhadas, que começam em uma cidadezinha do interior e continuam depois da morte, nos limites do purgatório e do inferno. João Grilo é um herói típico da linhagem picaresca da literatura de cordel nordestina, da mesma família espiritual de Cancão de Fogo e Zé do Telhado, personagens que dão nó até em pingo dágua.

Em O Auto da Compadecida, Ariano Suassuna consegue realizar uma magnífica síntese de duas tradições: a dos autos da era medieval e a da literatura picaresca espanhola. Na era medieval, a cultura era indissociável da religião, mesmo porque a Igreja controlava tudo com mão de ferro. A Igreja cultivava os autos dramáticos de devoção aos santos para doutrinar e tolerava os autos cômicos para divertir o povo. A tradição da literatura picaresca espanhola vem da cultura popular e chega ao ápice no Dom Quixote, de Cervantes. O pícaro é o personagem astuto, esperto, sagaz, velhaco, que quer enganar os homens, deus e o diabo, e ainda pedir o troco.

Como se vê é uma tradição cultural riquíssima que veio parar no nordeste brasileiro e se encarnou na pele do nosso João Grilo, em O Auto da Compadecida. Esta passagem da narrativa do plano da vida na terra para o do purgatório, do inferno e do céu, é típica da cultura medieval. Ela está presente na Divina Comédia, poema de Dante, a obra prima da cultura medieval. Só que, como sempre, as classes populares deram uma versão mais divertida e esculhambada desta passagem para o outro lado da vida.

Ao escrever O Auto da Compadecida, o cabra paraibano Ariano Suassuna buscou inspiração precisamente nos folhetos de cordel ouvidos e lidos nos tempos da infância e, ao mesmo tempo, estabeleceu ou reestabeleceu conexões com essas fontes da tradição medieval e picaresca, da Divina Comédia, de Dante, e do Dom Quixote, de Cervantes, dois dos seus autores preferidos. ? uma obra, a um só tempo, popular e erudita. Por isso é leitura obrigatória para os candidatos da primeira etapa do Programa de Avaliação Seriada (PAS).

Fonte: Correio Braziliense
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