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Homero e a Guerra de Tróia: Três Razões para o Renovado Interesse

      

"Quantos pareceres têm havido sobre a guerra de Tróia?" - Matias Ayres, 1752.

O lançamento de nova produção hollywoodiana sobre Tróia, com direção de Wolfgang Petersen, prevista para este mês no Brasil, reacende a pergunta: Por que essa guerra - e Homero, que a descreveu - são sempre objeto de discussão?

A primeira razão diz respeito aos historiadores: trata-se da História da Grécia, berço mais antigo da civilização ocidental. A epopéia homérica (Ilíada e Odisséia) é uma obra de ficção, mas com um fundo de verdade histórica.

Homero se inspirou em uma de duas séries de acontecimentos. No primeiro, e mais provável cenário, os aqueus, invasores arianos do 2º milênio a.C., eram piratas, atacando e mesmo destruindo cidades e civilizações em todo o canto leste do Mediterrâneo.ÿ

Não teria havido uma, mas várias guerras de Tróia, na realidade mais incursões que guerras. Um autor de gênio, séculos depois, sintetizou tudo num único episódio. O outro cenário é o de uma grande cidade, Tróia, dominando o acesso por mar, para leste, situada no estratégico Estreito dos Dardanelos (Turquia atual). Os mesmos aqueus, não mais piratas, mas grandes comerciantes marítimos operando a partir de cidades organizariam então uma operação militar conjunta de todas elas contra essa ameaça à sua expansão.

Teríamos, neste caso, um conflito mais moderno, em termos de interesses comerciais. Estes os cenários históricos mais prováveis, paisagem de fundo para a ficção literária desenvolvida na Ilíada. E a Odisséia?

Esta se baseia em episódios quatro séculos mais próximos de nós: a colonização da Itália, mas não mais pelos aqueus, mas pelos gregos, a partir do século VIII a.C. Novamente, o mesmo método redutor: todos os desastres marítimos, chegada de náufragos a ilhas desconhecidas, encontros com outros navegadores, perda de rota - tudo isso na história de um único navegante, Ulisses. E de uma única viagem, a sua volta da Guerra de Tróia. Não há espaço aqui para discutir se Homero existiu. Eu acho que ele existiu: a segunda razão o explica em parte, a seguir.

Homero, segundo André Bonnard, é um exímio criador de tipos humanos: ájax, o teimoso; Aquiles, o apaixonado; Heitor, o ser racional; Ulisses, o inventor; Paris e Helena, "criaturas de Afrodite" - sem vontade própria - e por aí vão todos eles numa galeria só comparável à de Balzac, o romancista que, 2.500 anos mais tarde, se vangloriava de "fazer concorrência ao registro civil". Sendo mega-poemas, os primeiros do Ocidente, as duas obras têm a consistência de romances maduros, recheados de personagens que são coerentes do princípio ao fim da trama. E que beleza, nessas histórias. Que estilo, imagens, intensidade e repouso de emoções. Não se trata apenas de compilação de poemas esparsos, mas de criação literária. E isso é difícil de conceber sem um autor particular, temperado pela vida e experiência.

A última das razões é a trajetória da obra de Homero. Bíblia e manual de alfabetização na Grécia antiga, dela se dizia - são extraídas "lições de vida, pois Homero ensina tudo o que um homem digno desse nome deve saber". Curiosas também as reações na política. Houve chefes populares (tiranos, na Grécia) que proibiram sua leitura, por entenderem que glorificava a nobreza. O mais famoso tirano, porém, da mais famosa cidade - Psístrato de Atenas - encarregou um grupo de sábios de confrontar os diferentes manuscritos e estabelecer um texto único para o conjunto da obra. Assim, da Antiguidade até hoje, passando por Alexandre da Macedônia; os imperadores romanos Juliano e Constantino; Wolff e Goethe no século XVIII - Homero e o seu tema são motivo de interesse e acirradas discussões. Quanto, de tudo isso, estará na nova abordagem cinematográfica? Esperemos para conferir.


* José Luciano Cerqueira é Professor de História Antiga e Coordenador do Curso de Graduação em História da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Recife, maio de 2004.

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