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Advogados bons de negócios

      
Mais de 70 000 profissionais do direito se formam por ano no Brasil -- mas poucos estão preparados para atuar na área empresarial. Um novo curso de graduação pretende preencher essa lacuna.

O advogado carioca Francisco Müssnich, sócio do Barbosa, Müssnich e Aragão, uma das maiores bancas de direito empresarial do país, enfrenta o mesmo problema todos os anos -- encontrar jovens advogados para seu escritório. Embora cerca de 70 000 bacharéis em direito recebam o diploma anualmente, achar recém-formados prontos para atuar no complexo mundo dos negócios é tarefa difícil. "Mesmo nas melhores faculdades o aluno aprende um monte de generalidades e não sabe o que acontece nas empresas", afirma Müssnich. Caçar talentos no início do 3o ano de curso e treiná-los exaustivamente foi a solução encontrada. O escritório dá cursos básicos sobre assuntos como direito societário, crucial no dia-a-dia das companhias. "Se não fizermos assim, o aluno sai da faculdade totalmente cru para atuar com direito empresarial", afirma Müssnich.

O tributarista Ary Oswaldo Mattos Filho, diretor da escola de direito da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV), que dá cursos de especialização em direito empresarial, nunca se conformou com essa situação. Ele encomendou a uma consultoria uma pesquisa em bancos, escritórios de advocacia e empresas de headhunting que apontasse o que faltava nos recém-formados. "O resultado mostrou que havia um nicho de mercado não atendido mesmo pelas boas faculdades", afirma Mattos Filho. Da pesquisa veio a decisão da FGV de criar o primeiro curso de graduação em direito com ênfase em questões cruciais para os negócios, como fusões, aquisições, reestruturação de empresas e comércio exterior. A proposta é formar advogados que dominem as ferramentas jurídicas e econômicas necessárias para atuar em algumas das questões mais importantes do direito empresarial. As inscrições para 2005 começam no fim de setembro.

Cursos de direito com foco definido são raros no Brasil, mas comuns nos Estados Unidos. A New York University, por exemplo, dá ênfase à formação de especialistas em mercado financeiro, enquanto a Universidade de Chicago prioriza a teoria econômica. O curso da FGV vem ocupar um espaço que, até agora, vinha sendo preenchido por cursos de especialização e pós-graduação. "Há um descompasso entre a realidade das empresas e os cursos de graduação em direito", diz Jairo Saddi, coordenador do Ibmec Law, a escola de direito do Ibmec. As bancas de advocacia e as empresas recorrem a formas alternativas de treinar seus advogados. Cerca de 80% dos alunos dos cursos de direito societário e de mercado financeiro do Ibmec têm as mensalidades pagas pelas empresas em que trabalham.

Pode parecer paradoxal que faltem advogados num país onde, na última década, houve um crescimento vertiginoso no número de cursos de direito -- de pouco mais de 200 para cerca de 800 -- e a quantidade de formandos por ano dobrou. A qualidade média do ensino, no entanto, não parece das melhores. No último exame da Ordem dos Advogados do Brasil Secção São Paulo (OAB-SP), 87% dos bacharéis foram reprovados.

A FGV pretende propor um curso totalmente diferenciado. Além do currículo normal de direito, a instituição oferecerá cadeiras de sua faculdade de administração, como contabilidade, microeconomia e macroeconomia. Os alunos terão um ano de inglês jurídico, essencial para negociações internacionais, e aulas sobre mercado de capitais, direito societário e reorganização de empresas, entre outras disciplinas especiais. "Teremos aulas de técnicas de negociação e métodos alternativos de resolução de conflitos", diz Mattos Filho. O objetivo é fazer com que os alunos conheçam formas de resolver conflitos antes que se transformem em processos intermináveis na Justiça. "Os alunos de cursos tradicionais são orientados a resolver tudo nos tribunais", diz Luiz Flávio Borges D'Urso, presidente da OAB-SP. "Isso torna a Justiça mais lenta do que já é."

Os três primeiros anos da FGV serão em período integral. Metade do tempo será em oficinas nas quais os alunos simularão situações reais, como casos discutidos na Organização Mundial do Comércio ou a redação de um contrato, avaliada por um profissional. "O aluno aprende muito pouco na aula clássica, em que o professor fala sozinho", afirma Mattos Filho.

O vestibular lembra o processo de seleção de trainees em uma empresa. Primeiro, os candidatos farão uma prova escrita, sem questões de múltipla escolha. Cerca de 400 alunos passarão para a segunda fase -- uma prova oral com dinâmica de grupo. Os candidatos terão de defender um tema polêmico, como a pena de morte. O rigor será mantido durante todo o curso, e os alunos reprovados serão expulsos da faculdade. Todo esse capricho terá seu preço. Os 50 alunos de cada turma pagarão uma mensalidade de 2 000 reais -- quase o dobro da média de uma boa escola. Haverá bolsas caso o escolhido não consiga custear o próprio curso. Os executivos do Ibmec vão observar o desempenho da FGV e já planejam, até 2007, lançar seu curso de graduação também voltado para a formação de advogados de negócios.

O que eles precisam saber
Advogados empresariais devem desenvolver conhecimentos específicos. Veja algumas dessas habilidades e para que são necessárias
Conhecimento Utilização
Reorganização de empresas Evitar a liquidação de companhias em crise financeira
Valores Mobiliários e financiamentos Assessorar empresas que precisam levantar capital no mercado
Inglês jurídico Atuação em questões internacionais e negociações com advogados estrangeiros
Micro e macroeconomia e contabilidade Entender o funcionamento básico de uma empresa e da economia
Fonte: FGV

Fonte: Exame
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