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O pomo, o joio e a GED

      
Jorge Antunes ? Mãstro, compositor e professor titular da UnB

A plantação de trigo, quando bem cuidada, é uma das mais belas paisagens que se oferecem aos olhos e aos sonhos. Os olhos se extasiam com a harmonia. Os sonhos se alimentam com a promessa do pão para todos. Mas existe uma maneira fácil de se destruir aquela harmonia e aquela promessa: basta jogar, na plantação, algumas sementes de Lolium temulentum. Esse é o nome científico da erva, da família das gramíneas, que é mais conhecida como joio ou cizânia. Essas duas palavrinhas, hoje, são mais usadas no sentido figurado. Fica sempre difícil separar o joio do trigo. Algumas sementes jogadas na bela plantação criam a cizânia.

A técnica de se cultivar cizânias vem sendo muito usada pelos três últimos governos entreguistas: os dois de FHC e o atual de Lula. A prática tem sido usada contra alguns movimentos sociais, para enfraquecê-los. Constante vítima tem sido o movimento docente. Para conseguir avanços no projeto privatista, que prevê desmonte do ensino público, gratuito, laico e de qualidade, o governo faz de tudo para destroçar a unidade da resistência acadêmica.

Em março de 1998 o governo FHC, através do fiel escudeiro Paulo Renato, jogou sementes malignas nas universidades: tentou criar o PID (Programa de Incentivo à Docência). A proposta estava incrustrada na Medida Provisória 1616 e só tinha uma intenção: a de criar a guerra fratricida entre os professores. O PID previa concessão de bolsas financeiras a uma pequena percentagem de docentes. O presente de grego seria encaminhado aos departamentos, para que os próprios professores decidissem quais, entre eles, seriam os beneficiários. A comunidade universitária detectou a tempo os objetivos finais: a cizânia intramuros, a briga de foice no escuro e a implosão da universidade. Mas os professores universitários, atentos e fraternos, se uniram, rechaçando o conluio insensato com uma greve nacional.

Lula gostou da técnica de FHC e resolveu bombardear a universidade pensando que o movimento docente já não mais se lembrava das sementes de Lolium temulentum. Mesmo assim sofisticou a tática: ao invés de tentar instalar a cizânia, preferiu plantar a discórdia no interior do movimento docente.

A inspiração deve ter vindo da mitologia grega. Peleu, rei de Ftiótida, casou-se com Tétis, deusa do mar. Todos os deuses do Olimpo estavam na cerimônia nupcial e no banquete. Apenas uma deusa não foi convidada: Eride, a Deusa da Discórdia. Para vingar-se, Eride jogou uma maçã entre as deusas Hera, Atenea e Afrodite, junto com um bilhetinho: "Para a mais bela". As três deusas começaram a disputar o pomo que, diziam, tinha sido colhido no pomar das Hespérides. Amiguinhas, se desentenderam. Cada uma, por se achar mais bela que as outras, dizia ser a destinatária do pomo enviado por Eride: era o pomo da Discórdia.

Lula gostou da idéia. Na calada da noite do dia 20 de agosto de 2004 os deuses palacianos urdiam a Medida Provisória nº 208. Tudo acontecia traiçoeiramente. Os deuses, que durante meses negociaram com o sindicato representativo dos docentes, preparavam a MP que desdizia tudo o que eles vinham dizendo na mesa de negociações. Prevendo reação forte do movimento docente, Lula foi então ao pomar do Palácio buscar algum fruto a ser incrustado na nova MP. Tinha que ser um pomo que, ao ser mordido, provocasse a discórdia entre os docentes enfraquecendo a resistência acadêmica.

A assessoria de comunicação do MEC dizia, antes da edição da Medida Provisória 208, que as três reivindicações da categoria seriam atendidas: percentual acima da inflação, diminuição da diferença entre ativos e aposentados e suspensão do caráter de produtividade da Gratificação de Estímulo à Docência.

A MP veio com propostas totalmente diversas, acentuando o caráter produtivista da GED e fixando um teto na pontuação mensal de que disporá cada universidade. Se essa norma vier a ser adotada, a disputa e a competitividade interna entre professores vai virar guerra: para um professor alcançar 175 pontos da gratificação, outro só poderá atingir 105. O espírito de equipe dos grupos de pesquisa passará a ser destroçado.

Os docentes estão estupefatos com a canalhocracia que cada vez mais se instala. O diálogo que deveria ser praticado entre o Executivo e a sociedade, cada vez mais se revela falso. A ação sorrateira está sempre presente, simultânea aos sorrisos cordatos das mesas de negociação.

A cizânia que o governo quer plantar na resistência docente já foi detectada. O pomo de Lula endereçado "ao mais produtivo" não vai ser mordido. Os eruditos da academia, que conhecem os segredos das plantações de trigo e da Guerra de Tróia já são maduros o suficiente para, fortemente unidos, fazerem uso da única arma de que dispõem: a greve.

Fonte: Correio Braziliense
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