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Notícias

Provão dos doutores I

      
O cardiologista José Franchini Ramires, de 57 anos, conhece de cor e salteado os meandros da saúde no Brasil. No comando do Instituto do Coração (InCor), em São Paulo, um dos poucos hospitais públicos com qualidade comparável à dos melhores centros internacionais, Ramires é um crítico do despreparo dos médicos e da desorganização crônica do sistema brasileiro. O InCor, que atende 80% dos pacientes pelo SUS, firmou-se como rara ilha de excelência graças à Fundação Zerbini, responsável pela caça de recursos que engordam o orçamento do hospital.

O modelo de gestão virou um produto que começa a ser exportado. No próximo ano, o governo de Aruba vai inaugurar uma unidade construída à imagem e semelhança da instituição paulista. Em 2006, será a vez de Angola. Em setembro, começará a funcionar o InCor Brasília. A construção do hospital, financiada pelo Congresso, foi idéia do ex-presidente do Senado Antônio Carlos Magalhães, que perdeu o filho Luís Eduardo por infarto, em 1998. Em meio a tantas atividades, Ramires dedica-se a uma cruzada pela criação do exame de qualificação profissional para médicos.

José Franchini Ramires
Função principal
Diretor-geral do Instituto do Coração (InCor), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)

Cargo acadêmico
Professor-titular da disciplina de Cardiologia da Faculdade de Medicina da USP

Produção
Tem 343 artigos publicados em revistas científicas, 231 trabalhos apresentados em congressos internacionais

?POCA - Por que o senhor defende uma prova de qualificação para os médicos, nos moldes do exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)?
José Franchini Ramires - O Brasil tem médicos demais e a maioria é despreparada. A proliferação das faculdades não obedeceu a nenhum critério técnico. A criação de escolas médicas sempre seguiu a lógica do favorecimento a grupos, e não a da real necessidade de mão-de-obra. Há 30 anos existiam menos de 50 cursos no país. Hoje são mais de cem.

?POCA - O exame da OAB pode ser visto como instrumento que garante reserva de mercado aos profissionais já inscritos na ordem. O mesmo acontecerá com os médicos?
Ramires - Toda avaliação é polêmica. Não conheço uma que seja elogiada. Há corporativismo no exame da OAB? Depende da forma que observamos a questão. O Brasil tem 300 faculdades de Direito para 180 milhões de habitantes. Os Estados Unidos, com renda per capita maior, têm 260 milhões de habitantes e 140 escolas. Se olharmos pelo ângulo da real necessidade de profissionais, não vejo corporativismo. ? preciso selecionar quem tem condições de exercer a profissão.

?POCA - Em vez de instituir a "peneira", o mais correto não seria fechar os cursos ruins?
Ramires - Alguém me disse que criar o exame é tratar o sintoma sem atacar a causa do problema. Discordo. Há 30 anos ouço dizer que novos cursos de Medicina só seriam abertos de acordo com fundamentos técnicos, pedagógicos e populacionais. Até hoje ninguém conseguiu cumprir isso. Enquanto a causa não pode ser atacada, por que não mexer na conseqüência? Médico sem qualificação não pode ter direito ao exercício profissional.

?POCA - O Conselho Federal de Medicina aplicaria o exame?
Ramires - Pode ser o CFM, mas acho que o próprio Provão (atualmente chamado de Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) poderia ser adaptado para isso. A escola seria avaliada e também o desempenho individual do formando, para saber se ele pode exercer a profissão. Estamos atrasados 80 anos nessa discussão. Os Estados Unidos fizeram uma grande reavaliação nos anos 20 e fecharam escolas médicas. A realocação das faculdades dentro de critérios técnicos fez com que se desenvolvesse no país a elite médica que conhecemos hoje. Essa tradição de qualidade não foi construída só com dinheiro.

?POCA - Que tipo de procedimento os profissionais despreparados não conseguem realizar?
Ramires - Existem médicos que sãm da faculdade sem saber interpretar raios X ou exames de laboratório. A leitura do resultado não é feita apenas com base nos valores de referência. Se fosse assim, ninguém precisaria de médico para avaliar exames. O profissional deve ser capaz de interpretá-lo em função da realidade do paciente. Muitas das faculdades não têm hospital-escola e nem todo médico faz residência, período de autonomia orientada que é fundamental.

?POCA - Por que a saúde continua péssima no Brasil?
Ramires - Vivemos em um sistema público de saúde extremamente heterogêneo, desorganizado, sem integração ou direcionamento regional. Vários governos pensaram em organizá-lo, mas nenhum conseguiu.

"Existem alunos que sãm da faculdade sem saber interpretar um exame de laboratório. Médico sem qualificação não pode ter direito ao exercício profissional "

Fonte: ?poca ? Entrevista
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