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Provão dos doutores II

      
?POCA - Como o senhor avalia o desempenho do ministro Humberto Costa?
Ramires - O ministro Humberto Costa só apaga incêndios. Ele e os outros que o antecederam. Como o sistema é cheio de problemas, perdem mais tempo administrando crises que implantando ações de longo prazo. Humberto Costa é o ministro hoje. Daqui a algum tempo virá outro e vai continuar tudo igual. O que fez o ministro José Serra? Pegou algumas bandeiras como os genéricos e as drogas anti-HIV, mas não reorganizou o sistema.

?POCA - A situação piorou na gestão Humberto Costa?
Ramires - Não mudou nada. A descoberta dos vampiros até que foi uma boa contribuição. Parte de possíveis esquemas de corrupção está sendo desmascarada. Se existirem outros, precisam vir a público também. ? necessário desmontar essas máquinas que sugam o dinheiro público.
?POCA - Se nenhum ministro consegue arrumar a casa, quer dizer que o sistema não tem solução?
Ramires - Solução tem, mas ela não está só nas mãos do ministro. A mudança depende de todos nós, da sociedade, dos partidos políticos. O sistema de saúde não pode ficar à mercê de momentos ideológicos. Nenhum partido é eterno no governo. Se cada gestão tiver uma concepção diferente do que deve ser o sistema de saúde, vira uma avacalhação total.

?POCA - No âmbito federal, faltam recursos para a saúde ou o problema é mau gerenciamento?
Ramires - Existe falta de recursos, mas não do tamanho que se imagina. Se a gestão for adequada, organizada, no final a perda vai ser menor do que é hoje. Qual a principal queixa de todo governante, seja presidente, seja governador? "Todo dinheiro que dou à saúde é pouco." Os governantes têm medo da saúde porque ela é um buraco. Lembra uma caixa-d'água cheia de furos. Por mais que encham, está sempre vazia.

?POCA - Qual é o escoadouro do dinheiro da saúde?
Ramires - A desorganização engole os recursos. Cada município recebe verbas do governo estadual ou federal para cuidar de seus pacientes. Mas muitos doentes são atendidos na capital e as cidades de origem não repassam os recursos aos hospitais. Cerca de 40% das pessoas recebidas no InCor são de outros Estados. Freqüentemente ultrapassamos os limites determinados pelo SUS. Quem paga a conta? De tempos em tempos, recorremos ao tesouro estadual. ? um rombo para São Paulo. Quando pedimos o dinheiro ao governo federal, o problema é o mesmo. Imagine que a União tivesse R$ 1 para atender aquele paciente, o município do cidadão reteve o dinheiro e nós fomos a Brasília cobrar outro R$ 1 pelo procedimento. O tratamento do paciente custou o dobro ao governo. O buraco está criado.

?POCA - Quais as conseqüências de tanta desorganização?
Ramires - Como os serviços de saúde não são integrados, o paciente sempre reinicia o tratamento em locais diferentes. O doente vai a um hospital e passa por consultas, exames e recebe remédios. Se acha que não foi bem atendido ou se a instituição deixa de fornecer os medicamentos, ele muda de hospital. Como não há um sistema integrado com o histórico dos pacientes, tudo o que foi feito é repetido. E às vezes o paciente quer apenas o remédio. Mas só podemos entregá-lo se ele passar pela consulta e pelos exames. ? outra forma de desperdício.

?POCA - O ministro da Saúde precisa ser médico?
Ramires - Não precisa ser médico, tanto que Serra é economista. Nós, médicos, nos vingamos dos economistas quando Antônio Palocci, que é médico, virou ministro da Fazenda (risos). O importante na Saúde é que o sujeito tenha uma boa visão das políticas da área e esteja cercado de gente competente. Do contrário, cada pessoa que assume inventa uma coisa: policlínicas, Farmácia Popular... São tantos escapes, tantas coisas penduradas no sistema, e ele continua desorganizado.

?POCA - Qual sua opinião sobre o programa Farmácia Popular?
Ramires - Tenho restrições por um simples motivo: se lutamos tanto pelos genéricos e eles já estão disponíveis a preços mais baixos, por que o governo precisa criar fábricas de remédio? Manter essa indústria, fiscalizar seu funcionamento e a compra de insumos, custa muito caro. Se a idéia é baixar ainda mais o preço dos medicamentos, por que o governo não cria uma política de subsídios como existe na Europa? ? só fazer uma grande concorrência pública para genéricos, comprar milhões de comprimidos e subsidiar parte disso para fornecê-los gratuitamente a determinadas faixas da população. E não abrir farmácias para vender medicamentos.

?POCA - Os remédios do programa Farmácia Popular são bons?
Ramires - A qualidade deles é altamente discutível. Não é de hoje que os medicamentos genéricos pagam o pato pela má qualidade dos remédios similares. Enquanto os genéricos passam por estudos rigorosos que garantem que eles são uma cópia exata dos medicamentos de marca, os similares não oferecem essa garantia. Cada vez que um similar é retirado do mercado ou acusado de não fazer efeito, todo o mundo confunde esses produtos com as cópias bem feitas e sai dizendo que os genéricos não prestam. Isso vai acontecer também com os remédios do Farmácia Popular. · medida que forem desacreditados por não demonstrar qualidade, os genéricos vão pagar o pato novamente.

"A qualidade (dos remédios do Farmácia Popular) é altamente discutível. (...) Muitos deles não são submetidos aos mesmos estudos pelos quais os genéricos são obrigados a passar"
?POCA - Os remédios do Farmácia Popular não passam por exames que comprovam que são uma cópia exata dos medicamentos de marca?
Ramires - Muitos não são submetidos aos mesmos estudos - chamados de bioequivalência e biodisponibilidade - pelos quais os genéricos são obrigados a passar. O pior é a fiscalização das linhas de produção. Uma coisa é aprovar o primeiro lote. Outra, muito mais difícil, é manter a qualidade nos lotes seguintes. Isso é tão complexo que as indústrias farmacêuticas montam departamentos só para isso. E todos nós sabemos que falta de fiscalização é um problema crônico no Brasil.

?POCA - Quem tem razão na briga dos planos de saúde com os médicos?
Ramires - Cada lado tem suas razões. Não há dúvida de que a remuneração dos médicos precisa melhorar. Uma das principais queixas dos planos de saúde é que há um gasto exagerado com exames. Médicos despreparados pedem avaliações desnecessárias. Se a prova de qualificação profissional fosse instituída, esse problema seria amenizado. ? preciso lembrar que os próprios planos de saúde incentivam o desperdício. Quando pagam R$ 20 por consulta, não podem esperar que o médico passe uma hora ouvindo a história do paciente e examinando-o. Quem trabalha por tão pouco fica dez minutos com o doente e pede um monte de exames.

?POCA - Por que o InCor decidiu inaugurar uma unidade em Brasília?
Ramires - Houve uma solicitação da Câmara dos Deputados e do Senado, que investiram R$ 100 milhões na instalação do hospital. Com 120 leitos, o InCor Brasília ocupa três andares do Hospital das Forças Armadas e outros quatro em um prédio próprio. Segue o modelo do de São Paulo, com o mesmo tipo de assistência médica, ensino e pesquisa. Médicos da nossa equipe foram transferidos para lá.

?POCA - Então os políticos não precisarão mais viajar a São Paulo para cuidar do coração?
Ramires - Nem só os políticos serão beneficiados. Quando analisamos quem são os moradores de Brasília que recebemos hoje no InCor São Paulo vemos que, a cada cem pacientes, apenas dois são políticos. No InCor Brasília, cerca de 80% do atendimento será realizado pelo SUS. Os doentes do Centro-Oeste e do Norte que hoje precisam viajar a São Paulo poderão ser atendidos no Distrito Federal.

Fonte: ?poca
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