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Notícias

O terror depois do 11 de Setembro de 2001

      


Terror, política e História

Por Carlos Brazil

Passados três anos dos ataques terroristas que vitimaram cerca de três mil pessoas nos Estados Unidos, chegamos a mais um 11 de setembro sem que o mundo vislumbre uma solução para os conflitos que alimentam ódios que servem como mote do terror internacional. A "Guerra contra o Terror", decretada pelo governo norte-americano do presidente George W. Bush após os ataques às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e ao Pentágono, em Washington, parece ter provocado, ao contrário do que seria esperado, mais conflito e desentendimento.

"Esse processo (de ampliação das tensões internacionais) vem se agravando desde o 11 de setembro de 2001. Nesse sistema há uma nova configuração da ordem internacional pós-Guerra Fria e também a partir da nova estratégia de Segurança Nacional norte-americana que foi anunciada em setembro de 2002 (para combater o terrorismo). Essa nova estratégia de Segurança Nacional, que garante aos Estados Unidos a prerrogativa dos ataques preventivos, na verdade, trouxe muito mais confusão ao cenário internacional do que uma tentativa de organização ao caos que se viu ao fim da Guerra Fria", afirma o pesquisador e docente do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Luís Alexandre Fuccille.

Após 11 de setembro de 2001, criou-se, assim, no cenário internacional protagonizado pelos EUA uma nova noção de ameaça. "Tínhamos as velhas ameaças (representadas pela bipolaridade mundial, com a divisão entre países capitalistas e comunistas), as novas ameaças (envolvendo o narcotráfico, a migração, a pobreza e as ameaças ao meio ambiente) e, a partir do 11 de Setembro, as `mais novas ameaçasï. `As mais novas ameaçasï colocavam como prioridade urgente o terrorismo", indica o professor Héctor Luis Saint-Pierre, chefe do Departamento de Educação e Relações Internacionais da UNESP-Franca (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, unidade de Franca), coordenador do GEDES-UNESP (Grupo de Estudo da Defesa e Segurança Internacional) e membro do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp.

Pois foi justamente depois de os Estados Unidos terem começado a implantar sua doutrina de "Guerra contra o Terror" - com a invasão do Afeganistão e, posteriormente, do Iraque - que um grave atentado atingiu a Espanha, em 11 de março de 2004, quando uma série de explosões em trens na capital espanhola, Madri, provocou a morte de mais de 200 pessoas e ferimentos em centenas. Vale lembrar que a Espanha do então primeiro-ministro José Maria Aznar foi aliada dos EUA na invasão ao Iraque. O ataque aos espanhóis teria sido realizado também por integrantes do grupo terrorista Al Qãda, o mesmo que teria comandado os atentados contra os EUA em 2001.

Se os EUA não tivessem invadido o Iraque com o apoio da Espanha, os atentados a Madri teriam ocorrido? Isso é difícil saber. Mas, o que é certo, é que a população espanhola entendeu que sim e, três dias após o ataque, foi às urnas e derrubou o governo de Aznar, que antes dos atentandos era apontado como favorito à vitória nas eleições gerais espanholas que ocorreram então.

Pelo menos uma personalidade brasileira também foi vítima do terror internacional dos últimos tempos. Há pouco mais de um ano, em 19 de agosto de 2003, o diplomata Sérgio Vieira de Mello, então chefe da missão da ONU (Organização das Nações Unidas) no Iraque ocupado por tropas dos EUA e de seus aliados, morreu vítima da explosão de um caminhão-bomba que destruiu o prédio da sede da organização em Bagdá, capital daquele país do Oriente Médio. No mesmo ataque, outras 21 pessoas morreram.

Eleições nos EUA

Alguns analistas da área de relações internacionais consideram que a definição das eleições presidenciais de 2 de novembro nos EUA sofrerá grande influência do cenário externo em que aquele país está inserido, principalmente após o conflito contra o Iraque. Por um lado, parcela considerável da população apóia a ação militar no Oriente Médio. No entanto, a perda de vidas de militares e cidadãos norte-americanos - totalizando mais de mil mortes desde o início da guera do Iraque, em março de 2003 - é um fator que tem pressionado o governo a rever sua posição em relação ao conflito.

O certo é que ambos os candidatos a presidente, o democrata John Kerry e o próprio Bush, mantêm em seus discursos a defesa de uma posição de que é necessária a manutenção do combate ao terror nas bases da atual "Guerra".

"Eu acho que, pelo menos no curto prazo, não experimentaremos uma guinada, uma virada radical na política exterior norte-americana (independente de quem vença as eleições norte-americanas). Com isso não estou querendo dizer que Kerry e Bush representem a mesma coisa. Acho que há diferenças importantes, significativas. Mas, talvez no aspecto central e na forma como ele tem sido apresentado à sociedade civil e aos cidadãos norte-americanos eu acredito que, no curto prazo, não haverá uma mudança muito significativa nessa estratégia tal como enunciado em setembro de 2002 (quando foi lançada oficialmente a base da nova estratégia de Segurança Nacional norte-americana)", diz Fuccille.

As mesmas perspectivas diante do resultado das eleições presidenciais norte-americanas são apresentadas pelo professor Héctor Saint-Pierre: "A impressão que dá é que o Kerry é prisioneiro da lógica republicana. Os democratas - que nunca foram mais pacifistas que os republicanos e em algumas oportunidades foram até mais eficientes nessa política do que os republicanos - têm medo de se opor ao chamado de guerra, porque nos EUA é muito forte esse clamor da guerra".

Acadêmico estudioso da questão do terror, o professor Héctor Saint-Pierre lembra que há vários tipos de terrorismo e que essa prática não é nenhuma novidade na história da humanidade.

"Antes disso (do 11 de Setembro), já havia atividades terroristas. As atividades terroristas são tão velhas quanto a guerra, tão velhas quanto a sociedade humana. Sempre houve terrorismo, houve atividades terroristas de diferentes índoles. Nos Estados Unidos, mesmo, houve magnicídios, como a morte violenta de vários presidentes. O último foi o John Kennedy, mas também houve atentados contra Ronald Reagan, por exemplo", lembra Héctor.

E ele qualifica, inclusive, as ações do governo norte-americano após 11 de Setembro como atos terroristas: "Isso mudou todo o espectro de ameaças, mas, não apenas isso, pois os EUA lançam uma campanha internacional, também um ato terrorista, deflagrando o que eles chamaram de a "Guerra contra o Terror". Isso foi no dia 13 de setembro, depois de uma situação de crise interna, de comoção nacional, Bush retoma a condução nacional chamando essa "Guerra contra o Terror" e decide cristalizar essa guerra contra o Afeganistão".

O grande problema, segundo ele, é que o governo norte-americano acabou apelando por adotar uma política de atemorização da população dos EUA. O apoio às ações militares era obtido, assim, pela imputação do medo entre a sociedade.

"Os EUA iniciam essa guerra e transformam o próprio país na principal vítima do terrorismo. A vítima do terrorismo é aquela que padece do medo que sofre do terror. O próprio governo norte-americano aterrorizou de maneira radical a sociedade norte-americana. Diferentemente do europeu, que convive, sabe que há terrorismo, e que pode ser uma vítima do terrorismo, mas sabe que não pode ficar aterrorizado porque estaria realizando o objetivo do terrorismo. Se o próprio governo aterroriza a sua sociedade, ele mesmo está realizando o objetivo a que se propõe o terrorista. Não apenas perdeu a tranqüilidade a sociedade norte-americana, como também perdeu as liberdades e a democracia pelas quais os EUA bombardeiam outras sociedades como, por exemplo, a afegã e depois a iraquiana", afirma o professor da Unesp.

Para ele, os EUA incorreram em erro levando a "Guerra contra o Terror" para o campo de batalha. "A Europa combate e mantém controlado o terrorismo, porque o terrorismo é muito difícil de ser erradicado, mas pode ser controlado com essas medidas, reconhecendo a organização, sabendo como essa organização se move, como pensa, como age, como recruta pessoal, onde consegue seu armamento etc., para antecipar a ação terrorista. E a Europa conseguiu fazer isso com bastante eficiência e êxito. O que fazem os EUA é uma guerra, e guerra se faz contra um Exército regular, contra um Exército reconhecido, e não contra um inimigo difuso, indefinido, como é o terrorismo. Não há contra quem combater em uma guerra quando ela é contra o terrorismo. O terrorismo não tem uma presença física, exceto no caso do terrorista", indica.

Novo protagonismo internacional?

Diante da supremacia que o poderio militar e econômico norte-americano representa hoje, Luís Fuccille não enxerga perspectivas de que um novo protagonismo venha a se construir no curto prazo na intermediação dos conflitos internacionais, principalmente com a deterioração da influência da ONU após seu Conselho de Segurança ter sido desautorizado pela decisão dos EUA e de seus aliados de invadirem o Iraque. No entanto, para o médio e longo prazo, pode haver um novo cenário, segundo estima.

"Os EUA, devido ao tamanho de sua economia e à possibilidade de barganha com os outros atores internacionais, conseguem de certa forma o aliciamento de novos aliados no plano internacional de forma bastante significativa, apresentando o seu mercado como uma moeda de troca nesse processo (de intermediação de conflitos internacionais). Agora, no médio e longo prazo, se pensarmos em coisa de 15, 30 anos, acho que temos mudanças importantes pela frente, principalmente com a China em um novo papel. A China talvez surja como uma alternativa de poder nesse cenário unipolar, principalmente no campo militar", avalia o pesquisador.

Sobre a situação do Brasil em relação a este quadro de conflitos internacionais, Fuccille considera que o país vem adotando uma posição diplomática bastante positiva, de condenação enfática dos atentados terroristas mas, ao mesmo tempo, de proposição de busca de soluções alternativas ao uso da "Guerra contra o Terror", como a negociação diplomática. Ele não vê também ameaças de que nosso país venha a ser alvo eventual de alguma ação terrorista internacional como as vistas nos últimos anos.

Por outro lado Fuccille alerta que, caso o cenário de tensão internacional se agrave, o Brasil pode, sim, sofrer efeitos maléficos: "Sem dúvida, essa política exterior norte-americana - e tudo isso deriva da estratégia de segurança nacional dos EUA - pode engendrar mais conflitos e tensões no plano internacional. Isso pode ter desencadeamentos diretos na economia e em outros setores, o que acaba influenciando o Brasil, que no presente momento vive essa tímida retomada do crescimento econômico que estamos assistindo".

Violência na Rússia

Apesar de ter sido motivado por um conflito interno da própria Rússia, o ataque terrorista a uma escola promovido na última semana - que provocou a morte de mais de trezentas pessoas, entre elas cerca de 150 crianças - trouxe indignação a toda a comunidade internacional, primeiro pela violência e falta de escrúpulos dos terroristas chechenos e, segundo, pela inépcia das forças oficiais russas na tentativa de resgate dos cerca de mil reféns que eram mantidos sob a mira de armas e ao alcance de explosivos. Poucos dias antes, outros dois atentados contra dois aviões russos, creditados a milicianos sepatistas chechenos, já haviam feito quase cem mortos.

Ao que parece, atos violentos alimentam e estimulam outros atos violentos. E a cada resposta violenta a outra violência, a impressão que temos é que os ódios se amplificam e as demonstrações de violência crescem na mesma proporção.

Luís Fuccille lembra que os atentados de 11 de Setembro de 2001 têm servido como álibi para alguns governos combaterem de forma mais dura e violenta seus conflitos internos. "Para muitos atores internacionais, de certa forma, foi bastante interessante (o drama vivido pelos EUA), porque a partir do 11 de Setembro de 2001 permitiu-se que esses países dessem uma resposta mais dura a problemas internos que eles vinham enfrentando, seja na Espanha com o (grupo separatista basco) ETA, seja na China com seus movimentos separatistas, seja na Rússia com a questão dos chechenos. E nós estamos vendo agora mais essa tragédia, com mais de 300 mortos. Eu acho que, infelizmente, os ataques de 11 de Setembro de 2001 abriram uma vereda que permitiu a muitos desses países atuarem de forma bastante dura, principalmente no aspecto da eliminação física de seus oponentes em vez da negociação, o que conta - ainda que não seja no cenário internacional, mas sim no interno - para um momento de crescente instabilidade", analisa.

Diante da morte de tantas vítimas na Rússia, especialmente as dezenas de crianças assassinadas, o professor Héctor Saint-Pierre comenta: "Essa é a situação mais grave do terror: quando o terror não tem limites. Mas não é que o terror agora não tenha limites, o terror nunca teve limites".

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