text.compare.title

text.compare.empty.header

Notícias

? preciso mudar a universidade

      
O setor elétrico nacional comemorou um caso de sucesso de gestão integrada, inédita no país. Graças ao esforço dos agentes envolvidos, foi traçada uma estratégia de operação que garantiu a administração dos escassos recursos hídricos da Bacia do Paraíba do Sul. Era preciso assegurar o fornecimento de energia elétrica sem causar prejuízos ambientais ou a atividades comerciais.

Este caso provoca reflexões acerca da rotina de um gestor público, especialmente na área de educação. Apesar das evidentes diferenças entre os setores, há um ponto comum: a necessidade de gerir a escassez, garantindo a continuidade da oferta de serviços. Trata-se de um desafio imensurável, que precisa ser enfrentado com responsabilidade social e doses maciças de criatividade.

No momento atual, em que se discute uma reforma do ensino superior brasileiro, é importante salientar o papel da universidade como instituição estratégica ao desenvolvimento do país, de modo que se criem as condições para que cumpra essa função.

O tripé ensino/pesquisa/extensão sustenta o objetivo maior da universidade: a busca de alternativas à superação dos graves problemas da nossa sociedade.

A academia deve contribuir, científica e tecnologicamente, para a produção de conhecimento e a formação de cidadãos profissionais competentes, críticos e eticamente comprometidos.

Para isso, são necessários dois níveis de gestão: um externo, que envolve Executivo e Legislativo; outro interno, englobando várias instâncias acadêmicas da instituição. Em ambos, a autonomia universitária, assegurada pelos artigos 207 da Constituição federal e 309 da Constituição estadual, deve ser exercida de fato. Esse direito precisa ser traduzido em autonomia não só administrativa e acadêmica, como também, financeira e patrimonial.

A gestão financeira requer, além da aprovação de um orçamento compatível com a missão universitária, a execução desses recursos financeiros e a garantia de seu repasse.

Quando tal autonomia é absolutamente relativa, o gestor enfrenta um cenário de grandes desafios, muito similar ao superado pelo setor elétrico. A gestão da escassez e a diversidade de atores e interesses formam um quadro complexo, com múltiplas variáveis - algumas controláveis, outras não.

A autonomia universitária não é uma benesse conferida aos que decidem dedicar toda uma vida ao progresso da Ciência; é elemento essencial para que tal função seja cumprida com a liberdade necessária e a responsabilidade indispensável à sua natureza.

Os recentes episódios ocorridos na Universidade Federal da Bahia (UFBA), na Universidade de São Paulo (USP), no Conselho Nacional de Educação e, infelizmente, também na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em que servidores, insatisfeitos com as condições de trabalho, usam a estratégia da ocupação para se manifestar - são exemplos de variáveis normalmente incontroláveis, na medida em que o atendimento às reivindicações não cabe ao gestor da instituição, mas ao Estado.

Frente ao imponderável, qualquer decisão do gestor adquire repercussões avaliadas positiva ou negativamente, de acordo com o ponto de vista da comunidade envolvida.

Ainda assim, é ao gestor que compete, em última instância, honrar os compromissos da instituição com a sociedade. Mas não será possível fazê-lo, se continuarmos a conviver com a ausência de políticas de incremento e com uma estrutura de fomento que privilegia o individual em detrimento do institucional. As alternativas clássicas dos gestores têm sido a busca do autofinanciamento e a adoção de uma política de captação de recursos via fundações, numa lógica de mercado que exime o Estado de seu papel.

Para comemorar um caso de sucesso na educação superior, é preciso que tenhamos energia suficiente para traçar uma estratégia de gestão integrada, em que cada participante assuma o seu papel de co-responsável pelo compromisso público da universidade com nosso país.

Nival Nunes de Almeida é reitor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Fonte: O Globo
  • Fonte:

Tags:

Aviso de cookies: Nós usamos cookies próprios e de terceiros para melhorar os nossos serviços , para análise estatística e para mostrar publicidade. Se você continuar a navegar considerar a aceitação de seu uso nos termos estabelecidos nos Política de Cookies.