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O homem de US$ 3,5 bilhões

      

Por Marcos de Moura e Souza

O homem que determina como e em quais países o Banco Mundial deve investir seus bilhões de dólares nas áreas de educação, saúde e promoção social é um professor francês de 50 e poucos anos, de fala calma e discurso direto. Jean-Louis Sarbib, vice-presidente do Banco Mundial para a área de Desenvolvimento Humano, esteve no Brasil para participar do encontro, em Porto Alegre (RS), da Internacional da Educação - entidade que reúne professores de diversos países.

Sarbib administra um setor prestigiado do banco. No ano passado, sua pasta recebeu nada menos que 19% do orçamento da instituição (US$ 18,5 bilhões): ou seja, US$ 3,5 bilhões. Funcionário do banco desde 1980, ele acredita que há, muitas vezes, uma visão equivocada sobre o papel que a instituição desempenha nas políticas educacionais de países pobres ou em desenvolvimento, como o Brasil. "Há muito mal-entendido ao redor do mundo", diz ele sobre a linha de políticas do banco para questões sociais.ÿ

Muitos analistas dizem que as ações orientadas pelo Banco Mundial, especialmente na área de educação, têm levado a resultados no mínimo questionáveis. Sarbib, porém, reconhece que de uns tempos para cá o banco passou a olhar não apenas os balanços que, por exemplo, apontam quantas crianças estão na escola, mas também a avaliar a qualidade do ensino ofertado. "A verdadeira questão não é gastar, mas gastar bem", coloca.ÿ

No Brasil, o Banco Mundial financia dois grandes projetos de educação, o Fundo Escola 2 e o Fundo Escola 3, e, recentemente, foi convidado pelo MEC para ajudar nas discussões sobre a reforma universitária. Sarbib falou à Educação sentado em um dos bancos do saguão de embarque do ãroporto de Congonhas, em São Paulo, enquanto esperava seu vôo para Brasília, onde tinha um encontro com o ministro Tarso Genro, antes de seguir para Porto Alegre.ÿ

A entrevista foi acompanhada pela coordenadora setorial de desenvolvimento humano para o Brasil, Madalena dos Santos, que dias depois voltou a falar com a revista e fez um breve balanço da viagem do executivo do banco pelo Brasil, reproduzido neste espaço.

Revista Educação - Um dos temas polêmicos em educação é a abertura ou não do ensino superior para investimentos externos privados. Essa é uma bandeira defendida por alguns países desenvolvidos, entre eles os Estados Unidos. Os críticos sustentam que educação é um serviço público, até mesmo estratégico, e que não deve receber recursos externos. Qual é a posição do Banco Mundial?
Jean-Louis Sarbib - O Banco Mundial considera que educação é um serviço público que deve ser oferecido a todos e deve ser custeado pelo governo, em particular a educação primária. Agora, como o serviço da educação é oferecido, uma vez financiado pelo governo, cada Estado deve decidir. Para a educação universitária, a história pode ser diferente. E há muitos exemplos distintos pelo mundo. Por exemplo, se você olhar a situação no leste asiático, na Coréia ou em lugares como a Malásia, o governo escolheu direcionar seus recursos para a educação primária e secundária e encorajou o setor privado a custear a educação universitária. Parece que, em condições específicas no leste asiático, isso está funcionando muito bem. O que é importante para nós do Banco Mundial é que cada país tenha uma política de educação que sirva aos objetivos de desenvolvimento do país. O que funciona no Brasil pode não funcionar na Argentina, o que funciona em um pequeno país da áfrica pode não funcionar para um grande país da ásia. Ou seja, cada país tem de encontrar suas soluções.

Revista Educação - Do seu ponto de vista, como as políticas apoiadas pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial têm afetado as políticas educacionais em países em desenvolvimento, como o Brasil, e em países subdesenvolvidos?
Jean-Louis Sarbib - ? muito claro para o Banco Mundial que, como nós acreditamos que educação é um serviço público, os gastos do governo devem refletir a prioridade com a educação. Assim, em muitas das ações que já adotamos em nossas políticas, nós insistimos que a alocação de recursos para a educação fosse pelo menos preservada e, em alguns casos, aumentada. Há muito mal-entendido ao redor do mundo, pessoas que acreditam que o Banco Mundial está pedindo para que os gastos com educação sejam cortados.

Revista Educação - E não é isso?
Jean-Louis Sarbib - Na verdade, é bem o contrário. O Banco Mundial pediu que investimentos em educação e em saúde fossem aumentados. A verdadeira questão não é gastar o bastante, mas gastar bem. Isso significa que os investimentos realmente beneficiem as crianças, os estudantes, que estão sendo distribuídos de maneira equilibrada entre salários dos professores e os materiais e equipamentos que o docente necessita. Então, acho que é muito importante observar a qualidade dos investimentos em educação, mas também a qualidade do ensino. Não é o bastante ter todas as crianças na escola se elas não aprendem como deveriam. Portanto, acredito que a reforma nas políticas do Banco Mundial levou a uma melhora, não apenas na análise da quantidade de recursos que são alocados na educação, mas também na análise da qualidade dos investimentos - e quão bem e eficientemente eles estão sendo usados.

Revista Educação - O Brasil tem investido com qualidade nos últimos anos?
Jean-Louis Sarbib - Eu estou no Brasil há apenas 24 horas e acho que seria muito arrogante se fizesse um julgamento. Mas, de modo geral, acho que o que se pode ver e o que os meus colegas que trabalham aqui me dizem é que o Brasil está dando muita atenção para a educação. Que houve um grande progresso no que diz respeito à quantidade, ao número de crianças indo à escola. E que a educação fundamental chegou a quase 100%. O problema agora será o que essas crianças estão aprendendo. Será uma questão sobre a qualidade. Além disso, quanto mais alunos você tem terminando o ensino fundamental, mais a pressão aumenta sobre o ensino médio e depois sobre as universidades. Por isso, é muito importante ter uma visão holística do sistema de educacional. Uma coisa muito boa aqui é que os três níveis de educação estão sob o mesmo ministério, porque isso permite uma visão integral do sistema educacional. Em muitos países há ministros que cobrem educação fundamental e média e onde educação superior e pesquisa científica estão sob outro ministério. Já conheci países onde há um ministro para educação fundamental, outro para média e outro para ensino superior. Isso realmente não funciona.

Revista Educação - Qual o principal foco do Banco Mundial na área de educação, hoje?
Jean-Louis Sarbib - Há duas coisas: a primeira é ajudar os países em desenvolvimento a alcançar as Metas de Desenvolvimento do Milênio. Em especial uma cujo prazo termina no ano que vem e que diz respeito à igualdade de gêneros entre meninos e meninas e que, infelizmente, nós talvez não consigamos atingir. A outra meta é garantir que todas as crianças estejam na escola fundamental até 2015. O segundo e igualmente grande esforço do Banco Mundial é garantir que educação de qualidade esteja sendo oferecida.

Revista Educação - Como oferecer essa garantia?
Jean-Louis Sarbib - Nesse ponto, o que é absolutamente fundamental é o desempenho dos professores. Treinar os professores antes e depois de eles começarem a ensinar é absolutamente essencial. Nós estamos também olhando para o ensino médio e para o ensino superior porque é muito claro que um país como o Brasil, por exemplo, vai cada vez depender da habilidade de usar o conhecimento para continuar competitivo. Eu sei que um dos três pilares do plano plurianual daqui é ter um Brasil mais competitivo, igualitário e sustentável. E, não importa o que se faça, você precisará ter a educação no centro. Para ser mais competitivo é preciso ter universidades e escolas de ensino médio que formem pessoas capazes de competir com outras que são preparadas nos Estados Unidos, na Europa, na China. Para isso é preciso ter uma escola média de alta performance. Se você não dá as bases para as crianças aprenderem, mesmo antes de elas começarem a ir para escola no início do desenvolvimento da infância, então você não vai colher todos os benefícios dos investimentos feitos em educação.

Revista Educação - Em outros países os governantes têm dado mais atenção à educação?
Jean-Louis Sarbib - Para ser sincero, eu vejo que os políticos têm horizontes a curto prazo. E o que podemos ver no curto prazo, entre uma eleição e outra, é se mais crianças estão freqüentando a escola. Para muitas pessoas, a coisa mais fácil de medir é a quantidade. Esse é o padrão de desempenho que todo mundo presta a atenção. Qualidade é muito mais difícil de medir e analisar, mas é a maneira de ver se a batalha foi vencida ou perdida.

Revista Educação - O senhor acabou de participar da Conferência sobre Aids em Bangcoc e assim que chegou ao Brasil foi conhecer o Centro de Referência e Treinamento em Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids, de São Paulo (SP). Qual sua impressão sobre o que o Brasil está fazendo?
Jean-Louis Sarbib - O que me impressionou muito - e era algo que eu já sabia e que agora pude confirmar - é o esforço que o Brasil fez para lutar contra o HIV, o vírus causador da Aids. Eu visitei o centro de tratamento hoje e fiquei muito impressionado com a qualidade das análises e com a abrangência dos tratamentos e da prevenção. Está muito claro para mim que muito do que o Brasil tem feito, e feito de maneira correta, nós precisamos aprender. E tentar usar essa experiência, adaptando-a a diversas partes do mundo que estão apenas começando a lutar de forma mais ampla contra o vírus HIV.

Entrevista com Madalena dos Santos:

Revista Educação - Qual foi o teor da conversa entre Sarbib e o ministro da Educação, Tarso Genro?
Madalena dos Santos - O ministro reiterou a necessidade de apoio do banco para que o Brasil pudesse enfrentar as grandes prioridades atuais: o combate ao analfabetismo, o financiamento da educação básica. Entre as prioridades também está a questão da qualidade da educação básica - para a qual solicitou especificamente apoio do banco para a melhoria da qualificação dos professores - e a reforma do ensino superior.

Revista Educação - Qual é o papel que o banco está desempenhando na reforma universitária?
Madalena dos Santos - O banco está preparando um seminário que será realizado em setembro na Universidade de Georgetown no Centro de Estudos Latinos Americanos (EUA), do qual participarão a delegação do Brasil e de outros países para debater o tema, mas também aproveitaremos a visita para discutir outros temas ligados à qualidade do ensino básico, além da reforma universitária.

Revista Educação - Quais são os investimentos atuais do banco nas áreas sociais no Brasil?
Madalena dos Santos - O investimento em desenvolvimento humano do Banco no Brasil envolve 10 projetos, totalizando US$ 1,44 bilhão - representa um terço do programa do banco no Brasil, 28% do total da América Latina e 16% do investimento mundial do banco nessa área.

Revista Educação - Além de debater sobre educação do fórum em Porto Alegre, Sarbib visitou alguns projetos sociais na cidade?ÿ
Madalena dos Santos - Ele visitou programas na área de saúde e educação. Especificamente no caso de educação, visitou o programa que tem a participação do Banco Mundial através do Fundo do Milênio para Educação Infantil. A experiência que conta com a parceria da Unesco e da Fundação Mauricio Sirotsky de Porto Alegre (RS) tem inúmeros outros parceiros privados e está provocando um impacto no apoio e qualificação dos programas de educação infantil da periferia das cidades. Trata-se de uma primeira fase que deverá ser ampliada para estados mais pobres do Brasil além de Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

* Entrevista originalmente publicada pela edição número 89 da revista Educação

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