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Hospital das Clínicas tem situação crítica

      
A medicina é aprendizado artesanal que se faz aos poucos, de maneira individual, no contato estreito com as pessoas e na observação atenta do paciente. Muito além do conhecimento técnico, o elo médico-paciente é íntimo e exige tempo e sensibilidade. Nos dias de hoje, poucos médicos e estudantes soterrados pelo peso da rotina hospitalar se dão conta disso, sobretudo se o local de trabalho não apresenta condições para tanto. No Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes), pertencente à Universidade Federal da Bahia (Ufba), os estudantes de medicina poucas vezes podem desfrutar de um conhecimento mais rico e individual por meio da observação. O hospital encontra-se em estado caótico, sem estrutura para abrigar tantos pacientes, com enfermarias e UTI fechadas, que só contribuem para prejudicar a formação dos futuros médicos.

A Congregação da Faculdade de Medicina (Famed) já anunciou a diminuição das vagas do curso de medicina da Ufba, com número a ser definido ainda no dia 22. Uma das razões apontadas pela Famed, sem dúvida, é a falta de condições para que os estudantes realizem a prática da medicina nos hospitais, sobretudo no Hupes. O diretor da faculdade, José Tavares, afirma que o problema do Hospital das Clínicas data de muitos anos atrás. "O hospital tem sido um problema crônico", afirma. Para ele, a falta de recursos do governo federal tem contribuído para essas deficiências, o que implica numa queda da qualidade de ensino. "No momento em que você forma mal os médicos, está colocando em risco a vida das pessoas", alerta.

No total, existem hoje três enfermarias fechadas, e a última delas já está há cerca de três meses sem funcionar. O diretor do hospital, Moysés Sadigursky, esclarece que as enfermarias estão fechadas para reforma, sem prejuízo para os pacientes, que estão sendo atendidos em outros locais. Sobre a UTI, também em desuso, o diretor conta que acabou de assumir o cargo com a promessa de resolver o problema, e que isso tem sido feito. "Estávamos com dificuldade de arrumar plantonistas, e por isso tivemos que oferecer R$400 por plantões de 12 horas. Mas essa semana já estará resolvido".

Faltam suprimentos básicos
Para José Tavares, ainda há muito mais o que resolver. Ele conta que faltam suprimentos básicos para os pacientes e estudantes, e que não entende como as enfermarias podem estar em reforma por tanto tempo. Num documento redigido à diretoria geral do hospital, sua opinião é reafirmada pelos residentes de clínica médica: "As mínimas condições de trabalho não nos são oferecidas", dizem as primeiras linhas. No texto, estão listadas as principais insatisfações dos estudantes: inúmeros aparelhos quebrados, ausência de exames e medicamentos, e até mesmo falta de sabão, papel e toalha nas enfermarias.

Para a paciente Cleonice dos Santos, 63 anos, a maior reclamação é a falta de serviços de emergência no hospital. Paciente de catarata, ela tinha a visão turva e escura e mesmo assim não pôde ser atendida. "O hospital-escola é feito para resolver problemas mais complexos. Certos casos devem ser resolvidos no posto de saúde", justifica o diretor.

Não só de falta de emergência vivem as reclamações sobre o hospital. O funcionário Nonato Costa, técnico do laboratório de análises clínicas, diz que a quantidade de vagas disponíveis no Hupes é muito pequena. "? muita gente para pouco hospital", resume. Na sala de espera do laboratório, os extensos bancos estavam completamente lotados pela manhã, e mais gente aguardava de pé com senhas na mão. Dona Angelina Dantas, 83 anos e senha 135, esperava pacientemente no banco a vez de ser chamada, sem reclamar. "Não é culpa do hospital. Deve estar faltando verba do governo", justifica. Paciente do Hupes há mais de 40 anos, Angelina já teve uma filha batizada por uma das médicas do hospital. "Adoro aqui", declara.

O atendimento ao contingente de idosos e pessoas carentes da cidade de fato tem sido feito, e os médicos e estudantes procuram se revezar. Mas a quantidade de pacientes e as condições locais acabam prejudicando o atendimento e o aprendizado dos estudantes. O professor José Tavares afirma que, assim como as aulas de música, a medicina necessita de ensino individual, e torna-se impraticável nas atuais condições do hospital. Diante disso, a Congregação da Faculdade de Medicina estuda o número de vagas a serem diminuídas no curso.

Fonte: Correio Braziliense
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