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O misticismo em Harry Potter

      

Dizer que o mundo mudou não assusta a mais ninguém. ? preciso, no entanto, avaliar até que ponto essas mudanças aconteceram. Muito mais do que falar em avanços tecnológicos, é preciso destacar também as transformações nos valores. Parte destas transformações se reflete na crescente busca das pessoas por elementos místicos, sobrenaturais. Estes chegam para ocupar lugares anteriormente ocupados pelo compromisso com as religiões tradicionais.

"O fenômeno do esoterismo está inserido em um contexto que se estabeleceu nos nossos tempos que é, exatamente, o retorno da busca pelo sagrado. Passamos por um período histórico de se acreditar nos valores, naquilo que o homem poderia fazer, para, em seguida, entrar em um período de grande desilusão", relata o professor do curso de Teologia da PUC Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), Abimar Oliveira de Morãs. "? evidente que todos os progressos, que são verdadeiros, nos conduziram, por outro lado, para um mundo pior, sob certos aspectos."

A mudança no perfil da sociedade trouxe uma nova realidade também para os mercados consumidores. Isso porque, cada vez mais, as pessoas se preocupam em suprir suas necessidades. Muitas delas, no entanto, não aceitam se ater às regras impostas pelas religiões. Muitas vezes - e é preciso deixar claro que isso NÇO VALE para todos os casos - a crença em elementos místicos e esotéricos atende a apelos comerciais, tornando-se algo apenas superficial.

"? impressionante como, por um lado, as pessoas cada vez mais se entregam à não-religião. Elas querem ser, entre aspas, ïpensadores livres`. Libertos de qualquer amarra, de qualquer referencial ou princípio ético e até mesmo simbólico", relata a professora da FTSA (Faculdade de Teologia Sul-americana), Gabriele Greggersen. "Por outro lado, estas mesmas pessoas estão sedentas por algo que ocupe esse lugar. Alguns filósofos alemães classificam isso como ïsubstituto`."

Na atual situação, livros como Harry Potter, embora não ofereçam nenhum tipo de religião ou crença, ganham espaço por seus relatos místicos, preenchendo esse espaço. "Nesse contexto, uma proposta como a do Harry Potter vai encontrar grande sucesso porque ela segue nesta direção. Ela aponta o contato com o sagrado, a vitória do bem contra o mal. Além disso, há o fato de ser um personagem que se identifica com as novas gerações", explica Morãs.

Aparentemente, não há nada em Harry Potter que seja direcionado à pessoas já iniciadas no esoterismo, ou mesmo na magia. Pelo contrário. O livro mistura elementos de feitiçaria com outros esotéricos e, até mesmo pelo fato de ser uma ficção, muita fantasia. No entanto, neste quesito, não são livros bobos. A maneira como o bem confronta o mal e as "magias" são utilizadas (para combate, vingança, etc), diz mais respeito a adultos do que a crianças - em princípio, o público-alvo.

"Na saga de Harry Potter, isso acontece, sem dúvida, porque ele apela não só para um imaginário religioso, mas também para um imaginário infantil-religioso", explica Gabriele. Para ela, o contexto pueril dos estudos, do namoro, não passa de uma máscara para o centro da história. "O adulto se projeta nas crianças. Trata-se de um fenômeno de projeção que é, de certa forma, maquiado pela ingenuidade dos demais elementos que rodeiam o personagem. Já que não se é criança de verdade, vamos fingir que somos crianças, pueris, criando um clima de infantilidade tola", diz.

Para Morãs, o principal problema é a individualidade motivada neste tipo de crença. De acordo com ele, esse não pode ser o único fator na busca pela religiosidade. "A busca pelo sagrado é algo muito individualista. Ela vai na linha da realização pessoal e, se por um lado é importante, ela não é, e não pode ser, a única dimensão da religiosidade. Ela tem que abrir para uma experiência comunitária, para a solidariedade", diz.

Para finalizar, ele explica que o esoterismo, em alguns casos, segue por essa linha da individualidade. "Um certo tipo de esoterismo não aponta para essas dimensões, se limitando à região da individualidade. E é esse envolvimento superficial, descompromissado, que você também encontra em livros como Harry Potter", explica. "O pano de fundo do Harry Potter é um mundo imaginário. Isso, conscientemente ou não, mexe com o indivíduo. ? o mundo do faz-de-conta. Até a própria vitória sobre o mal, é algo virtual, não é real. ? literatura, a gente não conhece, não toca."

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