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Misticismo brasileiro

      

Wicca, incensos, velas, runas, bruxaria, pedras, ervas, astrologia, horóscopo, esoterismo... misticismo. Todos esses assuntos encantam, de forma mais ou menos extremada, os brasileiros. Até mesmo os mais céticos já deram uma lida no horóscopo do jornal e ficaram preocupados quando os dizerem previam que "sua vida profissional passará por um turbilhão".ÿÿ

No contexto do nosso país, temos que colocar esse assunto em um campo mais amplo, que é o da religiosidade. "As pessoas identificam bruxarias, superstições ou coisa parecida com seus próprios interesses religiosos. E o que elas esperam dessas coisas? Que causem vantagens nesta vida a partir de favorecimentos de seres que existiriam em um outro mundo. Isso é acreditar em magia, acreditar que você pode melhorar sua vida aqui fazendo com que um Deus, uma divindade, uma força ou uma energia que viva no mundo não-físico interceda em seu favor aqui no mundo físico", explica o professor de Sociologia da Religião da UnB (Universidade de Brasília), Eurico Cursino.ÿ

Segundo Cursino, no país esse tipo de atração funciona tão bem porque a religiosidade brasileira é profundamente mágica. Nós esperamos que a religião seja um grande protocolo de acesso e intervenção junto aos seres do mundo não-físico e, dessa forma, desejamos que esses mesmos seres intercedam a nosso favor neste mundo.ÿ

A Wicca é uma religião (por alguns é considerada filosofia) que celebra a natureza e busca inspiração nas religiões antigas de culto à Deusa, nas celebrações dos ciclos anuais das colheitas, ao culto do Deus fertilizador da Terra e várias outras expressões primitivas com uma forte ligação com a natureza e ciclos da vida. Possui rituais, poções, festivais e magias. A secretária de 21 anos, Gislaine Palmeira da Silva, conta que começou a estudar Wicca há um ano.

"Foi uma coisa meio louca. Sempre gostei de objetos e roupas que tinham lua, sol, essas coisas sempre me fascinaram. Sempre tinha sonhos quando criança que se repetem, mulheres com longos vestidos que dançavam em círculos à minha volta enquanto eu recebia uma grande luz que vinha da lua. Uma vez passando em uma livraria vi um livro que parecia meu sonho e só guardei a palavra ïWicca`, daí comecei a ler sobre", explica Gislaine.

Nos rituais Wicca são usados velas, incensos, pedras, ervas, túnicas, caldeirão, entre outros artefatos. Segundo ela, as magias e poções têm como maior objetivo colocar o homem em contato com a natureza e assim proporcionar o auto-conhecimento, harmonia e a compreensão dos poderes da natureza e não manipular ou fazer mal as pessoas. "Ao fazer uma magia, a pessoa deve ter consciência de que tudo que ela fizer, voltará com uma força três vezes maior", ressalta.

"Os brasileiros acreditam nisso, profundamente, de forma mais ou menos explícita. Atenção, não confundir isso com uma crença que as pessoas vão confessar. ? algo que não aparece no censo, mas aparece, por exemplo, nas bilheterias do Harry Potter. Aparece na atração que a coisa exerce, no fascínio, no enorme comércio de subprodutos ligados ao filme", ressalta Cursino.

Para Gislaine, estudar Wicca fez com que ela ficasse muito mais espiritualizada. "A visão sobre tudo muda: sobre a vida, o mundo e a morte. Tudo é um ciclo e a morte é um recomeço. Aprendi a valorizar muito mais a natureza e os seres vivos e a entender que tudo tem seu equilíbrio. A Wicca me proporcionou o auto-conhecimento, o crescimento pessoal e espiritual", relembra.

No Brasil, a religião institucionalizada não tem muita ascendência sobre as pessoas, a Igreja é fraca, por isso, a religiosidade das pessoas fica como que com uma espécie de espaço a ser ocupado. Por isso que vemos tanta dinâmica religiosa nos últimos tempos: religiões crescendo, pessoas mudando de crença, associando determinadas religiões à outras, ou seja, fazendo uma salada religiosa. "Se você tiver metido em uma igreja ou ordem que tenha alguma ascendência sobre você, a tendência é não reconhecer força religiosa em nada que não tenha sido chancelado pela sua própria igreja. Mas como a maior parte das pessoas é trânsfuga, está por aí vagando, aí fica fácil, qualquer aventureiro lança mão", analisa o professor. "E aí quanto mais melhor. O que vem de uma fonte mais propriamente religiosa, como uma igreja ou ceita e o que vem do comércio internacional como o Harry Potter não tem muita diferença. Eu estou carente de magia e como não tem doutrina ou teoria sobre qual é a magia certa qual é a errada imperando na minha cabeça, eu vou pelo quanto mais, melhor".

Para Gislaine, Harry Potter distorce a bruxaria sim, mas os wiccans (seguidores da Wicca) não o odeiam. "A Wicca pratica justamente o amor e o respeito entre o homem e todos os outros seres vivos. A magia é usada para o bem, proteção, crescimento espiritual e não o contrário", explica.ÿ

E essa mania de combinar religião com misticismo e formar uma crença misturada faz parte da cultura do brasileiro. Para ser assim, basta ter nascido em algum lugar do Caburaí ao Chuí. "Talvez a gente tenha outras formas de pensar, laicas, racionalizadas, mas é impossível não ser, pelo menos, atraído. Mesmo o mais cético tenderá a olhar com um ïrabinho de olho` porque é da nossa constituição cultural. ? claro que a escolarização científica funciona como uma espécie de desalojador da cultura mágica, mas que ela está lá, está lá", finaliza Cursino.

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