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Mulheres ganham poder na academia

      
Andrea Giardino De São Paulo

A escolha da professora Suely Vilela, 51 anos, semana passada, para comandar a mais importante instituição de ensino superior do país e da América Latina, a Universidade de São Paulo (USP) - que pela primeira vez em sua história tem uma mulher no posto máximo -, representa um importante avanço do sexo feminino no mundo acadêmico. Até hoje poucas mulheres chegaram ao topo das universidades brasileiras. Entretanto, este cenário começa a mudar. Cada vez mais elas ganham espaço e ocupam cargos de chefia.

Na própria USP, das 36 unidades de ensino e pesquisa, metade é dirigida por mulheres. Nos órgãos centrais, a proporção é de nove diretores homens para quatro mulheres. Enquanto nas pró-reitorias, há um equilíbrio de dois para dois. Já na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), o número de mulheres na direção, coordenação de cursos e chefia de departamentos é bem maior do que o de homens. São 108 para 75, respectivamente.

Quando se observa níveis hierárquicos mais baixos da estrutura acadêmica, a invasão das mulheres é impressionante. Dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) referentes ao período de 1996 e 2003 , mostram que a presença feminina supera a masculina em quase todos os níveis de ensino, principalmente, nas universidades. O último levantamento do órgão constatou que as mulheres tornaram-se maioria nos cursos de graduação da rede pública e privada, respondendo por 56% das matrículas de 2003.

No corpo docente, apesar de existir um desequilíbrio entre homens e mulheres nos quadros da graduação, há um aumento expressivo da participação feminina. O número de professoras saltou de 53.466, em 1996, para 116.221, em 2003, um crescimento de 102,2% . Enquanto o número de professores subiu 67,9%, passando de 90.854 para 152.595. Vivemos um momento de conquistas. As mulheres predominam na graduação e nos cursos de pós-graduação, além de terem mais títulos de mestrado e doutorado, observa Suely.

Estudo do Inep comprova o que a nova reitora da USP afirma. O Brasil formou mais mestres e doutores mulheres (18.160) do que homens (17.509) entre 1996 e 2003. Daqui para frente veremos as mulheres alcançando mais postos de chefia, prevê. Antes de Suely, outra mulher havia se candidatado ao cargo máximo da USP, mas sem sucesso. Em 1997, a professora Myriam Krasilchik, da Faculdade de Educação, integrou a lista tríplice, levada ao governador do Estado, a quem cabe escolher o dirigente da instituição, perdendo o pleito para Jacques Marcovitch. Nâo acho que exista preconceito contra o sexo feminino no ambiente acadêmico. A realidade é que poucas mulheres tiveram a coragem de concorrer à reitoria, acredita Suely.

Para Claudio Felisoni, presidente da FIA (Fundação Instituto de Administração), a tendência é que as mulheres se aproximem das áreas de decisão nos próximos anos. ? o reflexo do crescimento da força de trabalho feminina que também vem assumindo posições de destaque no comando das organizações, analisa. Na FIA, uma mulher acaba de ser promovida a diretora. No quadro de coordenadores, os homens ainda são maioria, em um total de 47 para oito mulheres. No nível de gerência, a situação é de equilíbrio, com quatro homens e quatro mulheres.

Felisoni ressalta que a questão da participação das mulheres na universidade está muito mais ligada a situação social em que elas se encontram do que preconceito. A maioria ingressou tardiamente na universidade, o que explica essa ausência na disputa por cargos do alto escalão, explica. Registros apontam que as mulheres entraram na vida acadêmica no início da década de 60, época marcada por conquistas femininas bastante expressivas.

As primeiras a alcançarem cargos de chefias entraram para a história do mundo acadêmico, quebrando paradigmas. Alice Canabrava foi uma delas. Em 1954, foi eleita diretora da Faculdade de Economia e Administração da USP, na época chamada de Faculdade de Ciências Econômicas. Chegou ao posto em um período conturbado, com disputas entre professores catedráticos. Momentos de tensão e turbulência também foram marca da gestão de Nadir Kfouri, primeira reitora da PUC-SP.

Em 1977, enfrentou o coronel Erasmo Dias, secretário de Segurança Pública, que comandou a invasão da Polícia Militar no prédio da faculdade. Ficou conhecida ainda por participar do processo que instituía eleições diretas na PUC para a escolha dos reitores. Doze anos mais tarde, foi a vez da então professora Leila Bárbara assumir o posto máximo da universidade, sendo a segunda mulher a conseguir o feito. Enfrentamos um período difícil, revela. Embora afirme não ter sofrido qualquer tipo de discriminação, reconhece que o meio acadêmico é mais complicado para o sexo feminino. Não há preconceitos explícitos, mas a mulher tem sua vida privada vasculhada, ao contrário dos homens.

Atualmente, a PUC-SP tem duas mulheres no comando, a reitora Maura Pardini Bicudo Véras e a vice-reitora acadêmica Bader Burihan Sawaia. Diante desse rápido avanço, as atuais diferenças na composição dos quadros acadêmicos prometem diminuir em um futuro bem próximo, aposta Leila. Na PUC isso já é realidade, com 50,16% dos docentes do sexo feminino, totalizando 929 professoras. E em seu quadro de funcionários da área administrativa, 61,52% são mulheres.

A vitória de Suley Vilela pode representar uma nova fase nas universidades brasileiras, em que a presença feminina contribuirá não apenas por suas habilidades e títulos, mas também por sua bagagem acadêmica. Suely é um exemplo disso. Nascida em Ilicínea, interior de Minas Gerais, entrou na USP nos anos 70. Foi cursar farmácia bioquímica em Ribeirão Preto, unidade onde foi eleita diretora em 1998.

Fez mestrado, doutorado, pós-doutorado, livre-docência e, em 1996, tornou-se professora titular do departamento de análises clínicas, toxicológicas e bromatológicas. Aos 51 anos, com um filho, Suely ficou conhecida por combater os cursos pagos de pós-graduação, como MBAs e especializações. Ela tirou o status que tinham, transferindo-os para a categoria de curso de extensão.

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