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A tendência é que não se pare de estudar

      
Léa Cristina e Luciana Calaza

Estar sempre estudando não garante um bom emprego. Quem pára de estudar, entretanto, corre sério risco de perder a vez no mercado. Quem diz isso é o economista Francisco Barone, coordenador do Small, Programa de Pequenos Negócios, Empreendedorismo e Micro Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Sem papas na língua, Barone deixa claro que vender a educação continuada como sinônimo de sucesso profissional é um engodo. Mas ressalta a importância da qualificação, num mercado em que a concorrência é total. No caso do pequeno empreendedor, lamenta que o setor ainda não tenha desenvolvido a cultura de se reciclar. E, contrariando psicólogos, se diz favorável ao ensino do empreendedorismo desde a escola primária: num mundo em que o emprego formal vem desaparecendo, é preciso preparar o indivíduo desde cedo.

Por que, depois de 60 anos pesquisando e ensinando administração pública e de grandes empresas, a Fundação Getúlio Vargas resolveu criar o Small, um programa voltado para pequenos empresários? FRANCISCO BARONE: Havia certo canibalismo entre os cursos. Os pequenos empresários faziam o de gestão empresarial, enquanto trainees e novos gerentes cursavam gestão de pequenas empresas. Com a criação do Small, um programa específico, ficou mais fácil homogeneizar as turmas.

Há uma corrente que defende a heterogeneidade das turmas, por exemplo, de MBA. Dizem que a troca de experiências é fundamental para o aprendizado em sala... BARONE: Acho importante a heterogeneidade entre os participantes. ? até saudável que os alunos venham de áreas diferentes. Mas eles precisam ser unidos por interesses. Se a disparidade for muito grande, o resultado não será tão satisfatório como quando você estratifica. Temos pessoas diferentes - o dono de franquia, o jovem empreendedor e o executivo sênior que abrirá um negócio na aposentadoria - mas que são unidas por um interesse comum: o pequeno negócio.

Isso quer dizer que o pequeno empreendedor deve procurar um curso voltado à gestão de pequenos negócios? BARONE: Dependerá do grau de maturidade dele. Uma pesquisa do Sebrã, relativa às causas da mortalidade do pequeno negócio, mostra que o principal deles é a má gestão financeira. Então, se você é um empresário amadurecido, deve buscar especialização numa área que é o seu ponto fraco. Ou um curso que trate especificamente de uma área da sua empresa. Mas, se você é um novo empreendedor ou tenta entrar num novo segmento, deve buscar interagir com marketing, finanças, logística, contabilidade. Essa visão mais integrada te dará subsídio para administrar sua empresa de forma mais eficaz.

Mas a Ebape não abre mais turmas do MBA de gestão de pequenos negócios e empreendedorismo... BARONE: Na FGV, os MBAs e as consultorias são responsáveis pelo sustento da pesquisa e dos programas de mestrado e doutorado. Esse curso de gestão de pequenos negócios tinha baixa demanda, porque o pequeno empresário não tem a cultura de investir em qualificação. Algumas vezes, o empresário até quer investir em formação, mas não tem dinheiro. Esse curso era 30% mais barato que os demais, mas ainda estava acima das possibilidades dos alunos. Assim, em 2004, começamos a oferecer o curso de pequenos negócios só para grupos fechados.

Ainda sobre a opção entre um curso generalista ou um específico, vale o mesmo raciocínio para executivos de grandes empresas? BARONE: Sim. Se o profissional está alocado numa área de marketing ou de finanças de uma grande empresa, ele precisa se especializar, tentar ser o melhor na sua área.

Mas a palavra da vez não é multidisciplinaridade? BARONE: Um MBA de marketing, por exemplo, tem em sua grade aulas de finanças, de administração de conflitos. O ciclo básico é praticamente comum a todos os cursos da área de negócios. ? claro que o profissional tem que ter uma visão holística, ser multidisciplinar, mas se ele não for muito bom naquilo que faz, se for apenas mediano, vai perder colocação. Não dá para ser bom em tudo, mas é preciso ser muito bom em alguma coisa. Por isso, os jovens estão ingressando em mestrados: eles querem ser especialistas.

Há uma corrente de estudiosos que diz que ter noções de psicologia para entender melhor o consumidor passou a ser um requisito de mercado. O senhor concorda? BARONE: Sim, e na maioria dos cursos, dentro dos estudos sobre marketing, há aulas sobre o comportamento dos consumidores.

O que faz um empreendedor ter sucesso: ter dom ou conhecimento acadêmico? BARONE: Há aqueles que desde crianças já colhiam flores para vender, isto é, nasceram com o dom de empreender. Mas acho diferente de dizer que o líder já nasce feito. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, foi construído durante 20 anos para chegar a ser líder do país. Da mesma forma, se uma pessoa não é naturalmente empreendedora, ela pode ser construída como tal ao adquirir conhecimento acadêmico. E se uma pessoa que tem o dom puder conciliar sua experiência com a qualificação, melhor ainda. Nos Estados Unidos, as crianças, desde o primário, têm em seu conteúdo programático disciplinas relacionadas ao empreendedorismo, que ensinam que cada um é o senhor de seu futuro. Acho isso interessantíssimo.

Muitos psicólogos criticam este tipo de ensino. Dizem que a criança corre o risco de amadurecer cedo demais... BARONE: Neste mundo globalizado, em que o emprego formal vem desaparecendo, se você não preparar o indivíduo para o mercado desde cedo, ele terá uma grande desvantagem em relação aos demais.

Fazer somente um curso de pós-graduação é pouco? BARONE: Falando como instituição de ensino, quanto mais os profissionais buscarem qualificação, melhor para nós ( risos ). Mas, na verdade, a tendência é que o indivíduo nunca mais pare de estudar. Só o aperfeiçoamento vai ajudá-lo a permanecer competitivo no mercado de trabalho. Seja somente por causa do título, que vai contar pontos em seleções, ou, melhor, pela aquisição de conhecimento. Um funcionário público que tem mestrado, doutorado, mesmo que não aprenda nada, não contribua com nada, tem aumento salarial. Por outro lado, se um profissional mostra conhecimento numa área, ímpeto de melhorar os processos, mais destaque vai ter e, conseqüentemente, mais projeção, promoções, viagens. Ao continuar estudando, o profissional tem uma boa chance de se manter competitivo. Mas estamos falando de ter uma boa possibilidade: vender a educação continuada como garantia de sucesso profissional é um engodo.

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