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Trabalhadores rurais buscam o diploma de curso superior

      
Adriana Jacob A missão é antiga: compreender e transformar a realidade através da educação. As armas é que são novas, ao menos para os integrantes de movimentos sociais e sindicais do campo da Bahia. Daqui a três anos, 120 assentados e a acampados realizarão um sonho almejado por milhões de brasileiros: receber o diploma de nível superior. O grupo ingressou no começo de 2005 em um curso moldado para a sua realidade: pedagogia da terra. A iniciativa tornou-se possível através de uma parceria com a Universidade do Estado da Bahia (Uneb), através do Programa Nacional de Reforma Agrária (Pronera), e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Em 2006, os trabalhadores rurais poderão concorrer às vagas de outro curso superior, desta vez o de letras. O projeto, já aprovado pela Coordenação Pedagógica Nacional, precisa agora do aval do Conselho Universitário da Uneb.

Os movimentos começaram a perceber que não bastava apenas alfabetizar e ter a terra. Se você não tiver instrução de como trabalhar a terra e educar as crianças, no futuro haverá novos sem-terrinha. Daí a importância de uma educação que não seja no campo, mas do campo, ressalta a professora e coordenadora do Pronera na Uneb, Gelcivânia Mota Silva. O curso é o 12o de nível superior oferecido no país, e o primeiro na Bahia, para integrantes de movimentos ligados à terra. A graduação em pedagogia da terra surgiu a partir de uma demanda dos próprios assentados, ao perceber que muitos colegas que concluíam o nível médio deixavam o movimento, devido à falta de perspectivas profissionais.

São duas turmas de 60 alunos cada uma. A primeira é formada por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), com aulas no município de Prado. A segunda, com aulas em Bom Jesus da Lapa, é composta por trabalhadores da Coordenação Estadual dos Trabalhadores Assentados, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura, do Movimento de Luta pela Terra e da Federação de Apoio aos Trabalhadores da Região do Sisal. Todos os estudantes tiveram que preencher requisitos básicos para ingressar no curso: ser assentado (ou filho de um assentado) do movimento e ter concluído o nível médio, além de ser aprovado no vestibular da instituição. As provas para pedagogia da terra foram elaboradas especialmente para o curso, com questões ligadas à realidade dos candidatos. Trezentos candidatos concorreram às 120 vagas.

Foco - Nossa expectativa é que esses estudantes, quando terminarem o curso, venham compartilhar esse conhecimento aqui; é formar pessoas que nos dêem um retorno, afirma a coordenadora do Coletivo de Educação da Regional Recôncavo do MST, Antônia Souza. O programa do curso focaliza quatro pontos fundamentais para os trabalhadores que lidam com a terra: a educação ambiental, a agricultura orgânica e sustentável, a valorização da terra e o processo de formação de indivíduos críticos, capazes de perceber e compreender as desigualdades sociais.

Nosso grande objetivo é formar educadores que sejam capazes de desenvolver, nos assentamentos, uma educação do campo, possibilitando que as crianças sejam educadas nessa perspectiva diferente, explica a coordenadora do Pronera. Em outras palavras, mostrar ao estudante como ele pode viver no campo, sem ter que migrar para as grandes cidades, de forma a colaborar, de forma positiva, com a alteração da realidade daquelas pessoas. ? justamente esse o objetivo de uma das integrantes da primeira turma do curso na Bahia, Artaíza Silva Costa, 26 anos. O MST está me ajudando a alcançar meu sonho de ter o diploma de nível superior, então, quando eu me formar, quero ser útil de alguma forma, lecionar em outros assentamentos, aplicar tudo o que estou aprendendo, diz.

Curso é adequado à realidade dos alunos Entrar na faculdade, para mim, foi uma glória! Está sendo maravilhoso. A gente aprende a teoria e a prática; não ficamos só na sala de aula, como os alunos da cidade, compara Artaíza Silva Costa, aluna da graduação em pedagogia da terra. Além do vestibular específico, o curso também possui um programa diferenciado. As aulas, a cada semestre, são realizadas durante 60 dias intensivos. O restante da carga horária é composta por atividades na comunidade, acompanhadas de perto por monitores de diversas áreas profissionais e pedagogos. A idéia é adequar o curso à realidade dos alunos e evitar o abandono das aulas.

Tivemos uma grande preocupação com a qualidade, tanto na seleção, quanto no desenvolvimento do curso, para que ele tivesse o mesmo rigor das outras graduações, enfatiza Gelcivânia Mota Silva, coordenadora do Pronera na Uneb. A elaboração das provas do vestibular, por exemplo, foi feita pela mesma comissão que elabora o vestibular geral da Uneb. Inicialmente, enfrentamos uma certa resistência por parte de alguns professores, assim como está acontecendo na Universidade de São Paulo (que está tentando implantar o mesmo curso). Por isso, temos essa forte preocupação com a qualidade. O resultado tem sido muito positivo: existem alunos tão bons ou melhores dos que o que vemos em outros cursos da instituição. Acho que teremos bons pedagogos, avalia. Em 2006, entretanto, não haverá novas turmas da graduação em pedagogia da terra. Queremos amadurecer melhor a experiência, avaliando esta turma, para depois implementar novas turmas, explica a professora.

Gelcivânia classifica os cursos destinados a integrantes de movimentos sociais ligados à terra como políticas de ações afirmativas. São pessoas que não estavam na universidade porque tiveram seu direito usurpado. Historicamente, no Brasil, não tivemos uma educação diferenciada para quem vive no campo, explica. A iniciativa deu oportunidade a estudantes como a própria Artaíza, que já havia tentado prestado duas vezes, sem sucesso, o vestibular para pedagogia. Assídua, ela faz questão de enviar pelo correio todos os trabalhos exigidos no prazo certo. Por enquanto, não tirei nenhuma nota baixa, comemora, prestes a ingressar, no início de 2006, no terceiro semestre da graduação.

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