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A farsa cruel de um ponto de exclamação

      
A greve continua! Assim terminava o comunicado expedido na segunda-feira passada pelo comando de greve do Andes ? o Sindicato Nacional dos Docentes de Ensino Superior ?, dando conta das últimas notícias do movimento deflagrado já lá iam mais de oitenta dias nas universidades federais. O ponto de exclamação ao fim da frase dizia mais de suas intenções do que as palavras. Caso estivesse escrito A greve continua, sem ponto de exclamação, se trataria de uma informação, não mais que isso, aos associados. O ponto de exclamação mudava tudo. Conferia à frase épicos tons de heroísmo, de ardor pela causa, de brado retumbante. Não, a questão não era apenas que a greve continuava. Era que a greve continua!

O ponto de exclamação, até pela forma, representava uma espada desembainhada contra o inimigo. En garde! Era um convite à arremetida contra o tirano, o opressor, o infiel. Ele vai ver só! Quem vai ver? Quando há greve numa fábrica, quem vai ver só é o patrão, que sentirá seus efeitos no bolso. Numa greve em universidade, com perdão para repisar no óbvio, são os alunos. ? contra eles, ao fim e ao cabo, que se produzem seus resultados. O ponto de exclamação do Andes era uma espada espetada contra a barriga da estudantada.

O Andes, em temporada de euforia cívica, informou que patrocinou dezesseis greves nas universidades federais desde 1980, perfazendo 978 dias de paralisação. Santo Deus, que proeza! ? e lá vai outro ponto de exclamação, que é isso que o Andes julga merecer com tal performance. O jornal O Globo fez algumas singelas continhas e chegou a conclusões não tão lisonjeiras para o sindicato dos docentes. Os 978 dias equivalem a dois anos e oito meses. Descontados os fins de semana, e levando em conta que o ano letivo tem 200 dias úteis, chega-se a três anos e meio sem aulas. Mais seis meses e se completariam os quatro anos equivalentes a bom número de cursos de graduação. Claro, há as famosas reposições. Mas, até acontecerem, já quebraram o ritmo que, como em qualquer atividade, é fundamental para os bons resultados. E, quando acontecem, é em meio aos atropelos do Natal ou do Ano-Novo, às preguiças do verão ou do Carnaval, quando as cabeças não estão na melhor forma para os rigores do estudo.

O deputado Paulo Delgado (PT-MG), alertado pela reportagem do Globo, iniciou, como presidente da Comissão de Educação e Cultura da Câmara, um movimento para regulamentar o direito de greve nas universidades públicas. A providência, tal qual a famosa reforma política, inclui-se entre as que cãm de podres, de tão necessárias para desentravar o país, mas que, por contrariar interesses corporativos, são sempre jogadas para as calendas gregas. Há um abuso do direito de greve, diz Delgado. A presidente do Andes, Marina Barbosa, reage: O direito de greve está previsto na Constituição. Qualquer regulamentação restringirá esse direito. Eis um modo enviesado de ler a Constituição. Ali está escrito (artigo 37, VII) que o direito de greve dos funcionários públicos será exercido nos termos e nos limites definidos em lei específica. Opor obstâculos à materialização da lei específica é desrespeitar o texto constitucional.

Para citar um exemplo, só um, de como o espeto do Andes encosta na barriga dos estudantes, atente-se para uma decisão tomada pelo comando de greve da Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba. Comunicaram os grevistas na quarta-feira passada que não corrigirão as provas da primeira etapa do vestibular de 2006. Com isso, e enquanto durar a greve, não poderá ser realizada a segunda etapa. Sabe-se o que significa para um jovem o ano do vestibular ? muito trabalho, tensões, angústias. Os grevistas de Campina Grande resolveram adicionar a esse amargo coquetel a incerteza em torno de quando ? e se ? as provas serão realizadas.

? preciso atualizar a agenda da indignação, afirma o deputado Paulo Delgado. A greve continua! é irmã gêmea de A luta continua!. Que por sua vez é prima de O povo unido jamais será vencido! e cunhada de Abaixo a ditadura!. Pertencem todas a uma família de slogans apropriados ao combate contra os regimes castradores de direitos e opressores do povo. Tiveram seu papel durante o regime militar. Na democracia, merecem ser usados com cuidado. Quando menos, o cuidado de verificar se o direito de um ? o de greve, da parte do docente ? não fere o do outro ? o de ter aulas, da parte do estudante.

A greve nas universidades federais, desgastada como costuma acontecer com esses movimentos que se esticam sem rumo e sem nexo, ameaçava morrer de morte natural no fim da semana passada. Ao completar 88 dias, na sexta-feira, tinha chance de escapar (por pouco) do terrível anátema lançado pelo senador Cristovam Buarque, o primeiro dos três ministros da Educação do governo Lula. Uma greve que ultrapassa os 100 dias mostra que a universidade não é mais necessária, da forma como está estruturada, disse ele ao Globo. Imagine um banco parado por 100 dias.

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