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Como corrigir as distorções na disputa pelos talentos

      
Por Ricardo Balthazar De São Paulo

Todos os anos, centenas de estudantes de economia interessados em fazer carreira acadêmica definem seu futuro ao participar de um exame organizado pela Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia (Anpec). Cada um indica as escolas onde gostaria de fazer o mestrado e se submete a uma bateria de provas. Os melhores recebem depois ofertas para ocupar as vagas existentes nas universidades.

Parece simples, mas na prática o sistema é muito imperfeito. Ele provoca uma competição acirrada entre as principais escolas pelos alunos mais talentosos, gerando custos altos e desnecessários. Muitas universidades têm dificuldades para preencher suas vagas de forma satisfatória e alguns estudantes optam por escolas de segunda linha por falta de informação sobre vagas disponíveis em lugares mais atrãntes.

Faz tempo que é assim e muitos participantes do sistema acham intrigante que uma situação como essa persista por tantos anos, apesar das confusões que cria. Depois de passar um bom tempo debruçada sobre a questão com um aluno, a professora Marilda Sotomayor, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP), acredita ter encontrado uma solução para o problema.

? um caso clássico no campo de estudos em que ela se especializou, a teoria dos jogos. O processo de seleção dos estudantes de economia funciona como um mercado em que a desinformação prejudica as escolhas dos participantes e causa distorções. ? possível organizar esse mercado de maneira muito mais racional e eficiente, afirma Marilda.

Ao se inscrever no exame da Anpec, cada aluno pode indicar até seis instituições onde gostaria de estudar. As regras não permitem que uma ordem de preferência seja estabelecida, mas essas listas ajudam as universidades a saber quais candidatos têm algum interesse nelas. Assim, elas não precisam perder tempo correndo atrás de alunos que não querem escutar suas propostas.

Conhecidos os resultados do exame e as listas dos estudantes, as escolas procuram os alunos com as melhores notas para preencher suas vagas. Investigando o que ocorreu nos últimos seis anos, Felipe Bardella, que apresentou uma dissertação de mestrado sobre o tema sob orientação de Marilda no ano passado, descobriu a existência de um padrão na divisão dos alunos entre as instituições ligadas à Anpec.

Segundo ele, a Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio, a Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio e a USP quase sempre ficam com os 50 melhores alunos. O pelotão seguinte na classificação do exame, com aproximadamente 70 candidatos, consegue vagas em outras escolas de bom nível, como a Universidade Federal do Rio (UFRJ) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Quanto aos demais, alguns vão parar em instituições menos procuradas afastadas do Rio e de São Paulo e a maioria fica sem ter onde estudar. Muitos alunos sãm frustrados desse processo. No ano passado, 1.165 estudantes fizeram as provas da Anpec, realizadas entre junho e julho. As 27 instituições que participaram do exame ofereciam 466 vagas.

Embora o sistema pareça funcionar bem, é só aparência. Dois anos atrás, um dos alunos que se saiu melhor nas provas aceitou uma oferta para estudar na USP e mudou de idéia pouco depois, ao receber da PUC do Rio a promessa de que teria uma ajuda de custos de R$ 300 além da bolsa de estudos que a USP também oferecia. O garoto foi embora e a USP teve dificuldades para encontrar um substituto do mesmo nível.

Além do desgaste emocional que esse tipo de situação cria, há os custos. Segundo Marilda, a USP gasta cerca de R$ 15 mil por ano com o processo de seleção de alunos para seus dois cursos de mestrado, incluindo despesas com reuniões, viagens e telefone. ? dinheiro suficiente para pagar por um ano uma bolsa de estudos para um novo aluno, diz ela.

Para escolas menos concorridas, há outras complicações. Como cada aluno só pode indicar seis opções, é impossível para elas ter uma noção exata da demanda que poderiam atender. Muitos alunos aceitariam suas ofertas na falta de coisa melhor, mas o telefone nunca toca, porque elas não sabem do interesse. O resultado é que essas universidades não preenchem as vagas que têm e candidatos que se interessavam por elas ficam em casa.

Marilda acredita que a solução é adotar um sistema que centralize a distribuição dos alunos entre as escolas da Anpec. A seleção seria feita por um programa de computador desenhado com o objetivo de combinar as preferências manifestadas pelos estudantes e pelas universidades da maneira mais racional possível, com base em critérios anunciados com clareza antes do exame.

Cada aluno apresentaria uma relação com as escolas onde gostaria de estudar, sem limites como hoje, e estabelecendo uma ordem de preferência. As universidades definiriam seus critérios, indicando que só aceitariam os primeiros 150 colocados no exame, por exemplo. O computador faria o resto, processando todas essas informações até encontrar a combinação mais adequada.

Haveria várias combinações possíveis e o ideal seria programar o sistema para definir aquela mais conveniente para os alunos, diz Marilda. Divulgados os resultados, ninguém poderia mudar de idéia. Só ficariam sem lugar para estudar candidatos com desempenho fraco demais para interessar às escolas, e só ficariam com as salas de aulas vazias as universidades incapazes de atrair alunos com seu perfil.

O modelo proposto por Marilda é conhecido entre especialistas. Ele é baseado num algoritmo desenvolvido na década de 60 por dois americanos, o matemático David Gale e o economista Lloyd Shapley. Um sistema semelhante é usado há muitos anos nos Estados Unidos para definir os hospitais em que os médicos complementam seus estudos e trabalham como residentes, depois que terminam a faculdade.

O curioso é que a Anpec já tentou fazer as coisas assim uma vez, e o resultado foi desastroso. Inspirados por um dos primeiros trabalhos que Marilda publicou sobre o tema, os responsáveis pela Anpec adotaram o modelo em 1997. As universidades perceberam que algo estranho acontecera assim que o computador apresentou os resultados da seleção.

Escolas afastadas dos centros mais importantes receberam alunos muito mais qualificados do que esperavam. Elas tiveram a impressão de que o novo sistema era milagroso, conta Marilda. Instituições como a EPGE e a PUC do Rio receberam candidatos inaceitáveis para os seus padrões. Essas ficaram insatisfeitas com o resultado da mudança e reclamaram, diz a professora.

Estabelecida a confusão, descobriu-se que o programa de computador usado pela Anpec tinha erros e não reproduzia direito o algoritmo de Gale e Shapley. Percebeu-se também que várias instituições se deram mal porque haviam indicado suas preferências incorretamente. Elas achavam que assim poderiam manipular o processo e obter um resultado mais favorável.

A Anpec fez as correções necessárias, mas foi tudo tão caótico que as universidades desistiram do algoritmo em 1998 e preferiram voltar ao arroz com feijão. Marilda acha que as coisas funcionariam melhor se o novo modelo fosse adotado primeiro em caráter experimental, para que todos aprendessem a usá-lo e fosse possível comparar os resultados sugeridos pelo algoritmo com aquele produzido pelo vale-tudo praticado atualmente.

Mas ficou difícil levar a idéia adiante, e não só por causa do medo de repetir os erros cometidos em 1997. As instituições mais prejudicadas são pouco influentes na Anpec e as escolas de primeira linha em geral estão satisfeitas com o sistema atual, apesar dos custos envolvidos. Os alunos e as universidades aprenderam a jogar com as regras em vigor e por isso resistem à idéia de mudança, explica Marilda.

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