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Compra da Amazônia é sensacionalismo

      
Por Lilian Burgardt

"Apontar a iniciativa do empresário sueco, Johan Eliasch, que comprou um pedaço de terra na Amazônia como tendência, não é só um equívoco como uma inverdade", dispara o diretor do Programa Nacional de Florestas do Ministério do Meio Ambiente, Tasso Azevedo. Durante entrevista concedida ao Universia, o especialista afirma que o retrato sensacionalista pintado pela imprensa está longe de ser uma realidade e faz uma triste constatação: existem, sim, uma legião de brasileiros querendo vender a Amazônia e não uma leva de estrangeiros dispostos à comprá-la.

Confira, abaixo, a íntegra da entrevista:

Universia - Qual sua opinião sobre a a iniciativa do empresário sueco, Johan Eliasch, que comprou um porção de terra na Amazônia? Quais as conseqüências dessa atitude para o futuro da floresta?

Tasso Azevedo - Em primeiro lugar, há um equívoco quando se diz que este comportamento é uma tendência. Não é uma tendência, mas sim, um ato isolado se comparado à realidade da Amazônia. São pouquíssimos casos que acontecem. Na verdade, dá para contar nos dedos os estrangeiros que têm esssas idéias. O que realmente acontece é muito brasileiro querendo vender terras que não podem ser comercializadas.

Quanto à atitude do empresário, não desprezo, mas tampouco concordo. E não é pela questão da compra em si, já que o território arrendado por ele faz parte dos 25% que podem ser comercializados, dentro da lei, na Amazônia. A grande polêmica é que ele não comprou um pedaço de terra que estava sendo desmatado, mas uma área que já tinha um projeto de manejo de florestas certificado. Então, o fato dele comprar a área não muda seu status de conservação. ? incorreto dizer que ele comprou para salvar, já que o local vinha sendo cuidado com trabalho certificado. O máximo que ele vai fazer é parar as atividades de manejo sob o discurso de "preservar". Algo que, neste caso específico, é contraproducente.

Universia - E ele tem esse poder? Afinal, agora, a terra é propriedade dele.

Azevedo - Hoje, essa área é privada e pertence ao empresário. Logo, nada impede que ele inviabilize as atividades de manejo florestal existentes para não mexer na região. Mas, como eu disse, nesse caso, ele não vai proteger nada, apenas retroceder um trabalho que está sendo desenvolvido. ? importante lembrar, porém, que se trata de uma área de 165 mil hectares. Como ele vai fiscalizar essa área e garantir que ela não seja invadida ou depredada? Obviamente será um trabalho árduo e, sozinho, praticamente impossível de ser feito.

Universia - Existem outras áreas na região, dentro destes 25% de terras privadas, arrendadas por estrangeiros ou por empresas. Como então fiscalizar estes pedaços de terra?

Azevedo - Quando uma empresa atua na região, normalmente ela tem projetos para fiscalizar seus territórios e coordenar atividades nos locais. Este pedaço de terra comprado pelo empresário, por exemplo, pertencia a GMO Renewable Resources, até então, a maior madeireira em atividade na região, onde 40,8 mil hectares eram de floresta de manejo. Não sei ao certo qual o interesse, mas parece uma visão um pouco romântica da situação. Ele diz que não irá derrubar mais nenhuma árvore e vai comprar novas áreas de floresta com o lucros de venda dos chamados créditos de carbono. Em especial, do Reino Unido, um dos maiores emissores de gases poluentes. Ou seja, a famosa idéia do colonialismo verde. A verdade é que o Protocolo de Kyoto nao prevê um mecanismo de comércio de carbono com florestas naturais, apenas para áreas de replantio. Ele pode conseguir que lhe paguem para manter a floresta em pé, mas estará congelando uma área que poderia gerar benefícios para a comunidade local.

Universia - Muita gente questionou a atitude do empresário por acreditar que seu interesse está na fauna e na flora da região. Não são raros os casos de pesquisadores estrangeiros que vão para a Amazônia atrás de nossa biodiversidade. ? possível que o sueco tenha comprado o território com esta intenção?

Azevedo - O Brasil não é uma "República de banana". Para fazer pesquisa eles vão esbarrar em nossa Constituição, que não permite o livre uso da nossa biodiverdidade. Já existe uma medida provisória em vigor que coibe este tipo de ação de modo desenfreado. Portanto, o fato dele ter uma área na região não libera o acesso à pesquisa. Não é uma questão do tipo: "eu paguei pela floresta e posso fazer o estudo."

Universia - O que mais o impressionou no discurso de Johan Eliasch?

Azevedo - Creio que o fato dele dizer que comprou a área para salvar a Amazônia e pressupor que, de acordo com seus cálculos, seriam necessários US$ 50 bilhões para comprar toda a floresta. Existem dois problemas nesse raciocínio, primeiro porque parte do princípio que somos um bando de desinteressados que não se preocupa com a região. E, em segundo lugar, que eles, os estrangeiros - especialmente europeus - são a salvação para a preservação da floresta. Justo eles que a destruíram muito antes de nós (suspiro).

Universia - Em sua opinião, quais as reais intenções do empresário?

Azevedo - Não acho que ele tenha agido de má fé. Quero dizer, de comprar a terra para "vender" nossa biodiversidade ou afirmar que não temos como cuidar da Amazônia, incentivando que outros empresários venham e tomem posse. Além disso, é um equívoco pensar que isso pode acontecer. Como disse anteriormente, por lei, apenas 25 % das terras poder ser comercializadas. Os outros 75% da Amazônia estão sob tutela da nova lei de gestão de florestas públicas, sancionada no início deste mês. São terras públicas que não podem ser privatizadas e têm que continuar sendo florestas.

Universia - O senhor afirma não ser contra este tipo de iniciativa, mas tampouco a defende por achar que medidas como essa, embora tenham seu valor, não sejam eficientes, por conta da falta de infra-estrutura. Então, qual seria a melhor alternativa para evitar a depredação deste território, tanto nas áreas públicas como privadas?

Azevedo - Creio que ações de de investimento são bem-vidas. De que forma? Já existe hoje o ARPA (Programa áreas Protegidas da Amazônia), maior iniciativa de conservação da história, inclusive, em âmbito internacional. Trata-se do desenvolvimento de uma rede completa de áreas protegidas. Entre outros mecanismos, ele utiliza fundos privados, composta por empresários interessados em manter o programa de conservação. ? um fundo fiduciário que está sendo montado para ter mais de US$ 300 milhões.

Além disso, acredito que iniciativas isoladas tenham menor eficácia. No caso do sueco por exemplo, o que pode acontecer? Na primeira invasão, ele vai recorrer ao poder público para resolver seu problema. Por isso, a visão de que é preciso comprar para proteger não resolve. Exceto em regiões onde não se existe governança, estrutura e sociedade civil. O que, definitivamente, não é o caso do Brasil.

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