text.compare.title

text.compare.empty.header

Notícias

Como criar comunidades no ensino a distância

      
Por Bárbara Semerene

Manter o aluno atento, interessado, participativo. Esse é o ideal de todo professor. No ensino a distância, tal meta é um desafio, uma vez que a cultura da sala de aula presencial está arraigada tanto nos alunos, quanto nos professores, e não funciona em e-learning. Qual é o segredo das IES que conseguem manter o vínculo - tanto entre professor-aluno, quanto entre os colegas de turma - e um índice de evasão baixo?

Ainda são poucas as que conseguem, o índice de evasão nos cursos de EAD é alto na maioria das IES. Isso porque, para educar a distância, é necessário repensar o papel do professor, a metodologia de ensino, o formato e o conteúdo das aulas, com qual objetivo usar cada uma das ferramentas disponíveis. O processo de transição não é tão fácil. Há resistência, principalmente por parte dos professores mais tradicionais. Para eles, essa história de elaborar a aula pensando em motivar e animar cada aluno parece coisa de primário. "Não é fácil mudar de uma hora para outra a cultura da hierarquia nas salas de aula tradicionais, nas quais o professor dá as cartas e sai fazendo o que bem entende, independentemente da necessidade e do perfil dos alunos", diz Waldomiro Loyola, diretor científico da ABED (Associação Brasileira de Ensino a Distância), diretor de EAD do UniFMU, e assessor de ead da Universidade Metodista de Piracicaba.

Mas Loyola destaca que "o professor que capta os conceitos de ensino a distância acaba sendo um melhor professor no presencial também". Isso porque o intuito da EAD é transformar a classe em comunidade de aprendizagem, ou seja, uma rede de pessoas com interesses em comum, que vão trocar informações, gerar conhecimento, interagir de uma maneira produtiva, dinâmica e inclusiva, valorizando as múltiplas perspectivas. Esse conceito de comunidade vale tanto para o virtual, quanto para o presencial. Tanto em um quanto em outro, todos sãm ganhando. Por isso o Universia entrevistou especialistas da área para enumerar os pontos chaves que fazem de uma classe uma comunidade. Veja:

O papel do professor
Aquele todo poderoso que entrava na sala de aula e falava, falava, falava, enquanto os alunos só ouviam, já era. A falta de didática também é inconcebível em EAD. Enquanto no ensino tradicional o professor é um treinador e sua responsabilidade é passar seu conhecimento para os outros, no e-learning, o professor é um facilitador, que provoca diálogo e, além de passar a informação, recebe e aprende com os alunos. Ele também precisa dedicar mais tempo percebendo cada aluno, as peculiaridades de cada um, para saber lidar e direcionar a turma de maneira que todos se mantenham interessados e interagindo. "Numa classe virtual, o professor não consegue ter pistas visuais de cada aluno. Fica mais difícil decifrá-lo. Ele não vê como cada um se veste, o tom de voz, o olhar, os gestos. Então, é preciso, logo no início, investir um tempo instigando a turma a falar de si, dos seus interesses. Posteriormente, pode ser necessário ainda ter uma comunicação privada entre professor e aluno, por email, por exemplo", explica Loyola.

Nessa modalidade de ensino, existem duas figuras de docentes: o professor conteudista e o professor-tutor. O primeiro elabora o conteúdo. Em algumas faculdades coordena o professor-tutor, que é quem interage com os alunos. Em outras, o professor-tutor é como um professor-assistente, que age nos bastidores, fazendo a ponte entre os alunos e o conteudista, passando informações para o conteudista sobre quem está precisando ser mais instigado, e dar um freio em quem está dominando a discussão. Enfim, ele não aparece para os alunos, só os observa e dá o feedback sobre cada um para o conteudista. Nesse caso, o tutor não precisa ser, necessariamente, um professor formado. Pode ser um aluno de pós-graduação, que entenda muito do tema.

"No ensino a distância, o professor funciona como um grande juiz no campo de futebol. Quem joga são os alunos, o juiz só apita. Conduz o jogo, mas não joga", explica Marta de Campos Maia, coordenadora de Ensino a Distância da FGVSP (Fundação Getúlio Vargas de São Paulo) e autora da tese de doutorado "O uso da tecnologia de informação para a Educação a Distância no Ensino Superior",de 2003. Segundo ela, no ensino presencial essa atitude não funciona porqueos alunos não lêem os textos, então não chegam tão preparados para a aula. Já no virtual, se o aluno não lê, não tem aula. "Não tem como se esconder porque não tem 'fundão'. O aluno é avaliado também pela participação. Quem escreve apenas 'concordo' ou 'discordo' leva zero."

Ser dinâmico é fundamental em um curso a distância. Para tanto, é preciso ter muita familiaridade com a tecnologia. "A maior dificuldade para o professor é lidar com a quantidade de mensagens que giram na tela em um chat, por exemplo", explica Marta. Quem ajuda o professor nesse quesito é o desenhista instrucional, que é ao mesmo tempo pedagogo e designer e passa o "script" para o professor. Ele orienta como montar a atividade, por quantos minutos o professor deve soltar a discussão e quanto tempo ele deve segurar, para não deixar os alunos perderem o foco. "O professor não pode deixar o aluno muito solto, porque fica fácil desvirtuar o assunto. Ele tem que estar sempre atento, focado", diz Marta.

"O professor deve ser um incentivador, um orientador de equipe, motivador do estudo", diz Loyola. Segundo ele, saber motivar cada aluno de acordo com o perfil de cada um é a maior dificuldade para o professor. "? difícil mediar posturas antagônicas dentro do grupo." Mas Marta garante: "qualquer professor se encaixa como professor de EAD. ? uma questão de preparação e de adaptação à tecnologia".

? essencial, também, que o professor tenha uma comunicação direta, use uma linguagem de fácil acesso. "Ele tem que escrever de maneira sistemática, preocupado com a forma. Esse é um grande desafio para o professor em EAD porque, em geral, os acadêmicos usam uma linguagem extramemente complexa", alerta Nara Pimentel, coordenadora pedagógica da Secretaria de EAD da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

"Para mim, um bom professor a distância é aquele que tem jogo de cintura para dar uma vídeo-conferência quando está todo mundo cansado, sabe direcionar os alunos no chat, e é diplomático, pois numa classe há gente de todo tipo: os supereducados, os prolixos, os secos. Além disso, ele tem que saber se colocar muito claramente, para não haver mal entendidos, o que é bem fácil quando você não está vendo os gestos dele, nem a entonação de voz", opina láudia Borges Shimabukuro, aluna do GV Next, curso a distância de Administração e Negócios para executivos da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

Como usar cada ferramenta

- E-mail: utilizado para contato téte-a-téte, de professor para aluno, para dar feedback sobre o seu desempenho. Também funciona como uma opção de interação informal entre os sujeitos da comunidade, e até mesmo de facilitar a formação de comunidades outras, paralelas, reunidas por outros interesses, que possam se formar entre partes dos sujeitos envolvidos.
- Chat: utilizado para discussões bem focadas, baseadas em um texto lido previamente pelos alunos. O professor joga high lights importantes do texto e encaminha a discussão. A duração ideal é 1h30, para dar tempo de aprofundar e ao mesmo tempo não se alongar mais do que o necessário no assunto. Na FGVSP, se o aluno entra 15 minutos atrasado no chat, já recebe falta. Não deve ser usado para tirar dúvida porque a discussão deve ser veloz, e o professor precisa estar altamente concentrado e atento a todas as linhas que estão sendo escritas. Nunca deve haver mais do que 15 alunos na sala de bate-papo. "Essa é a ferramenta que mais gostamos. ? um modo sensacional de aprender. O professor direciona a discussão em torno dos temas e os alunos têm uma interação que na sala de aula não dá para ter porque ao vivo não dá para todo mundo se colocar simultaneamente. Depois de um tempo, você fica craque em ler e escrever rápido. O fato de ser tão dinâmico nos faz ficar muito concentrados e focados na discussão, pois não dá para dar uma saidinha", opina Cláudia, aluna da FGV.
- Fórum:
lugar ideal para tirar dúvidas. Espaço onde o aluno pode elaborar mais as questões e comentários a respeito da dúvida do colega.
- Fórum-café: é o lugar onde os alunos fazem networking entre eles, trocam dicas não só referentes ao assunto das aulas, mas culturais, referentes a história de vida, onde colocam seu currículo, marcam happy hours. Importante para criar vínculo afetivo entre eles. "Para transformar a turma em à comunidade, é essencial que o contato extrapole o momento das aulas", diz Marta.
- MSN: para decisões pontuais entre alunos e professores e reuniões de trabalhos em grupo.
- Vídeo-conferência: para aulas expositivas.

A turma
Todos os profissionais de EAD concordam: fazer um curso a distância não é para qualquer um, nem para qualquer momento. ? para quem já está mais amadurecido profissionalmente, sabendo o que quer e consciente do que precisa. Também é preciso ser muito disciplinado e organizado. Ter consciência que o aluno é o maior responsável pelo próprio aprendizado. E é preciso ter familiaridade com a tecnologia.

Os membros de uma turma têm que ser selecionados a dedo. "Não dá para misturar um recém-formado com o vice-presidente de uma multinacional", explica Marta Campos. Na FGV, ela faz uma entrevista pessoal com cada um dos candidatos para estudar o perfil e depois montar o grupo. Ele só será coeso se for formada por pessoas com muita afinidade. E a interação entre eles é tão real e possível, que alguns chegam a ficar amigos, sair juntos. Foi o que aconteceu na turma de Cláudia. "A gente percebeu uma afinidade de linha de raciocínio nas discussões no chat. De lá fomos bater papo no msn. E depois combinamos uma cerveja no bar. Foi assim que progrediu nosso relacionamento", conta. A turma dela fez até um churrasco de confraternização no final do ano passado.

  • Fonte:

Tags:

Aviso de cookies: Nós usamos cookies próprios e de terceiros para melhorar os nossos serviços , para análise estatística e para mostrar publicidade. Se você continuar a navegar considerar a aceitação de seu uso nos termos estabelecidos nos Política de Cookies.