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Notícias

Corações e mentes solidários

      
Marcelo Portela

A rotina diária da estudante Jeniffer de Paula Fiúza Souza, de 21 anos, não é fácil. Ela sai de casa no início da manhã e passa o restante do dia em uma maratona de aulas e provas na Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O dia-a-dia da faxineira desempregada Karla Roberta Oliveira Gonçalves, de 34, é diferente, mas não menos puxado. Ela acorda cedo, faz comida para o marido e os dois filhos adolescentes, cuida das demais tarefas de casa e, nos últimos oito meses, usa as poucas horas de folga para tentar achar emprego. Apesar de rotinas bem diferentes, a história das duas tem um ponto em comum. Ambas trocam o descanso noturno por uma sala de aula improvisada. De noite, Jeniffer deixa de ser aluna e se transforma em professora. Karla vira uma atenta e aplicada estudante.

Elas fazem parte de um projeto que ajuda desempregados de baixa renda e escolaridade a se prepararem melhor para tentar uma vaga no mercado de trabalho. Durante a semana, voluntários reservam suas noites para dar e assistir às aulas gratuitas dos ensinos fundamental e médio em salas do Sistema Nacional de Emprego (Sine), na Avenida Amazonas, Centro de Belo Horizonte. O projeto é desenvolvido há seis anos, em parceria entre a Associação Educacional, Cultural e Filantrópica dos Servidores do Ministério da Fazenda em Minas (Ecfaz) e a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Esportes (Sedese). Só em 2005, mais de 150 pessoas obtiveram diplomas escolares por meio de exames de suplência ou telecurso.

Hoje, 14 profissionais, a maioria servidores do Ministério da Fazenda - exceto Jeniffer e outros três -, dão aulas gratuitas para os candidatos. No início deste semestre, 78 pessoas se inscreveram no curso do ensino fundamental e 73 nas aulas do ensino médio. Todos foram ao Sine à procura de emprego e, como não conseguiram vagas, optaram por continuar os estudos em busca de qualificação. São 33 alunos no primeiro curso e 35 no segundo.

FORMIGUINHA

Para os professores voluntários, o trabalho é de "formiguinha". "Todos os alunos são de baixo poder aquisitivo. A maioria parou de estudar há muitos anos para trabalhar ou porque não se adaptou à escola. A freqüência varia muito, porque os alunos conseguem algum ?bico? ou mesmo um emprego e não voltam mais. Ou voltam quando acaba o ?bico?", diz o coordenador do projeto, o auditor fiscal e professor de direito tributário Luiz Sérgio Fonseca Soares. "Mas temos um contrato de convivência. Se a pessoa sumir sem justificativa, não refazemos a matrícula e ela terá que disputar uma vaga com outros interessados", acrescenta.

O "desaparecimento" de alunos durante o semestre e o cansaço não desanimam os voluntários. "Meus colegas de faculdade são muito estudiosos e alguns estranham eu deixar de estudar para dar aulas. Mas me formei em escola pública e, depois que entrei na universidade, achei que deveria ajudar outras pessoas a lutar pelo diploma de curso superior, porque este é um direito de todos", afirma Jeniffer, que leciona ciências no ensino fundamental. "? cansativo e pensei em parar, mas a alegria que sinto depois das aulas me faz pensar melhor. ? muito bom ver as pessoas progredindo. Vou embora para casa rindo sozinha no ônibus. E o trabalho voluntário também abre portas", revela.

A persistência da estudante-professora e de outros voluntários tem como recompensa o empenho de pessoas que, realmente, acreditam em dias melhores. "Larguei a escola há 17 anos, na 7¦ série, para cuidar da família. Estou há oito meses procurando emprego, mas, hoje, todos exigem pelo menos o 1º grau (ensino fundamental)", diz Karla Gonçalves, que não perde uma aula sequer na sala do Sine e sonha com nova carreira. "Vou terminar os estudos. Quero fazer faculdade de história. Posso até virar voluntária também", planeja.

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