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Notícias

Espaço para os "auto-empreendedores"

      

Por Renato Marques

As seguidas crises econômicas no Brasil dos anos 80 e 90 trouxeram para o país um fantasma temido por todos: o desemprego. Com o início de retomada nos últimos dez anos, a economia do país apresentou, principalmente aos jovens que lutam para ingressar no mercado de trabalho, uma nova realidade. Cada vez mais, os profissionais são levados a assumir a posição de gestor do próprio trabalho, investindo em uma carreira independente, ou apostando em abrir seu próprio negócio. Agora, a boa notícia: trabalhar desta forma pode ser muito positivo.

Não é novidade para ninguém (especialmente para quem está batalhando uma vaga no mercado) que está difícil encontrar um emprego. Principalmente se levarmos em conta o conceito tradicional de emprego - registrado em carteira, com todos os benefícios e estabilidade. Não dá, no entanto, para afirmar que o trabalho com registro acabou. Segundo dados da última PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os últimos anos apresentaram uma tendência de retomada na contratação por parte das empresas (veja mais detalhes no Box ao lado).

E o que houve, então? "Nos anos 90, o Brasil passou por uma reestruturação econômica e produtiva com a desestruturação do mercado de trabalho", explica Alexandre Barbosa, professor da Faculdade de Ciências Econômicas, Contábeis e Administrativa do Instituto Presbiteriano Mackenzie. Em outras palavras: a economia brasileira mudou, se ajustou a uma nova realidade interna (Plano Real) e externa (crises em alguns países emergentes, como Rússia e Argentina) e a situação do emprego mudou.

Emprego ou desemprego?


Quando se ouve que o emprego em carteira está em extinção, é preciso analisar com cuidado. Nos últimos três anos, foram criados mais de 3.000.000 de empregos com carteira assinada, segundo dados do CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). O CAGED é formado através de informações que as empresas prestam sobre a sua mão de obra contratada. Através desses dados, é possível avaliar o crescimento, o saldo líquido, e o balanço entre demitidos e contratados.

No dia-a-dia, porém, as pessoas percebem que arrumar emprego está mesmo mais difícil. Onde está o problema, então?

A questão é que, desde 99, quando foi quebrada a paridade entre o Real e o Dólar, o emprego vem apresentando uma tendência de retomada. Segundo a PNAD ( Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no entanto, o maior crescimento se dá nos empregos SEM CARTEIRA ASSINADA.

Ou seja, os trabalhadores se reorganizaram para garantir uma renda para sobrevivência. Para se ter uma idéia, entre 92 e 2002, o tipo de emprego que mais cresceu foi o assalariado sem carteira assinada, com expansão de 52%. Em seguida, vem o emprego doméstico, com 42,2%. Em terceiro, o trabalho autônomo, com 38,5%.

"No anos 90, tivemos realmente mudanças estruturais no mercado de trabalho. Foi uma tendência de desestruturação do mercado de trabalho. O oposto do que aconteceu durante o período de crescimento e industrialização da economia brasileira, entre 30 a 80", explica Alexandre Barbosa, professor da Faculdade de Ciências Econômicas, Contábeis e Administrativa do Instituto Presbiteriano Mackenzie.

Assim, é possível compreender a sensação de que o emprego com registro 'desapareceu'. O que acontece é que, sim, há uma tendência de crescimento, mas o panorama da economia fez com que o emprego sem registro crescesse muito mais que o trabalho formal.

"Desde de 99 o que percebemos é que continuamos gerando emprego sem carteira, mas voltamos a ter dinamismo na geração de emprego com carteira", diz Barbosa. "Agora, se a economia brasileira não conseguir crescer, pode voltar a repetir tudo que aconteceu nos anos 90, e o custo é do trabalhador."

Na prática, mesmo com as mudanças na economia, os trabalhadores continuaram precisando de emprego. E as empresas de funcionários. Só que o emprego ficou mais 'caro' para as empresas, graças aos altos impostos - e o dinheiro ficou mais 'curto'. Assim, os profissionais precisaram aceitar vínculos menos estáveis, especialmente nos níveis mais elevados, de serviços especializados. Ao mesmo tempo, as companhias passaram a contratar mais pessoas com este perfil, uma vez que o custo reduziu. Simples, não?

"Isso cresceu realmente, principalmente nos níveis mais altos. Na contratação, implica a empresa pagar um salário e um monte de impostos, o que praticamente dobra o custo. Com esse impacto maior nas despesas, as relações estão mais em um nível de trabalho como autônomo", acrescenta a consultora da Career Center Marisa da Silva. "Então, a pessoa abre uma empresa e presta serviço para uma outra companhia. Com isso, diminuem os encargos trabalhistas. Algumas até incluem no pagamento os benefícios que o funcionário teria com o registro, mas, mesmo assim, ela reduz um monte de gastos."

Consultor autônomo, à sua disposição

Ok, você já conhece a realidade. Agora, como enfrentá-la? Trabalhar como autônomo não é, nem de longe, a pior coisa do mundo. E também não é a alternativa mais cômoda. Como tudo, tem vantagens e desvantagens. "O autônomo presta todos os tipos de serviços. Por isso, alguns conseguiram se dar muito melhor neste quadro recente. Trabalhavam em uma empresa, recebiam salário, desenvolviam um trabalho chato, com uma hierarquia forte e não tinham perspectivas de ascensão na empresa. Aí conseguiram sair e organizar uma empresa de consultoria que trabalha para outras e virou empresário", relata Barbosa. "Agora, a parte mais expressiva dos autônomos é composta por aqueles que eram assalariados, tinham acesso à previdência, à legislação trabalhista, foram expulsos pela economia e tiveram que viver fazendo todo o tipo de bico, prestando serviços e trabalhos eventuais."

Conhece aquela história de 'melhor prevenir do que remediar'? Então.

Em 2002, o jornalista Denis Nunciaroni trabalhava em uma agência de comunicação. Tinha um bom emprego, um bom cargo, tinha experiência em grandes veículos, como o Diário do Grande ABC. Mas não estava satisfeito. "No último ano em que estava lá, toda a equipe que trabalhava comigo antes já tinha saído. Eu era o mais antigo, a empresa estava passando por algumas reformulações,e eu queria inovar e eles não achavam que era o momento", conta Denis. "Eu estava praticamente estagnado, porque coordenava um núcleo, mas não conseguia colocar minhas idéias em prática porque eles não queriam criar nada diferente do que já existia."

Ao se ver "preso" na estrutura, Nunciaroni decidiu ousar. Abandonou o emprego estável e partiu para ser seu próprio patrão. "Eu não tinha com quem trocar idéias, já estava planejando tudo sozinho. Então pensei que se podia fazer esse planejamento para os outros, podia fazer para mim", conta. Ao encarar a cultura de estabilidade, para a qual foi preparado, inclusive na faculdade, Denis criou uma oportunidade empreendedora. Podia dar errado? Sim. Mas ele arriscou.

"O empreendedor verdadeiro é aquele que abre uma empresa. Se não dá certo, ele vai e abre outra. Ou seja, ele se atira, procura alternativas, não tem medo", conta Marisa. Naturalmente, optar por uma carreira autônoma exige que se tenha planejamento. Empreendedorismo não é sinônimo de irresponsabilidade. Mesmo porque existem diversas formas de atuação. Abrir uma empresa que preste serviços específicos não é a única saída, pelo contrário. Você pode ser sua companhia, trabalhando como freelance, consultor de projetos específicos ou coordenador terceirizado de uma equipe que iniciará um novo programa em determinada empresa.

O impacto na vida pessoal

O que vai mudar, automaticamente, é a maneira como você organiza os seus ganhos. Trabalhar com projetos específicos significa ter muito serviço por três meses e, em seguida, ficar quatro sem fazer nada. Por isso, planejar sua rotina é essencial. E não apenas a vida profissional. Lembre-se que, ao assumir uma carreira independente, toda a sua rotina passa a ser o dia a dia da sua 'empresa'. Assim, é preciso ter organização para utilizar os recursos - que passam a financiar o desenvolvimento da empresa e sua vida pessoal (alimentação, transporte, lazer).

"Tem gente que faz um serviço durante um ano e depois não tem nenhum outro projeto. Aí, a pessoa tem que esperar. ? uma instabilidade mesmo e a pessoa precisa estar preparada para isso. Então, ela tem que fazer uma poupança, pensando lá na frente, em tempos mais 'magros', vamos dizer assim. Tem que se planejar para as fases difíceis", reafirma Marisa.

Para Denis, passados os tempos difíceis e a fase de adaptação, é hora de aproveitar o bom momento. "Eu sempre quis ter meu próprio negócio. Não me via trabalhando muito tempo para outras pessoas. Sempre quis ter uma independência de trabalho para poder implementar minhas idéias", conta. "Hoje estou satisfeito com minha decisão. Encontrei muitas dificuldades que no início não previ que teria, mas estou bem satisfeito."

Veja abaixo algumas dicas de como lidar com este tipo de atividade e não deixe de conferir, no link no alto, à direita, o quadro de vantagens e desvantagens de ser um "auto-empreendedor":

Tome nota!

Primeiro, tenha consciência que deverá administrar sua carreira praticamente como uma empresa própria. Ou seja, ela precisará de investimentos e terá um custo fixo mensal de 'operação'. Essas contas precisam estar bem claras na sua gestão financeira;

Quando conseguir bons serviços em seqüência, não saia gastando tudo indistintamente. Se planeje para ter uma boa poupança quando a demanda cair;

Ter uma rede de contatos ampla e confiável é fundamental para qualquer profissional hoje. No caso de autônomos, essa necessidade é multiplicada muitas vezes. Mantenha contato constante com todos os seus amigos, clientes, ex-clientes, professores, chefes, etc. Se você mostrar empenho e um bom serviço, eles vão lembrar de você quando surgir uma oportunidade;

Se você prestou serviço para uma empresa uma vez, procure deixar uma boa impressão logo de cara. Muitas empresas mantêm um rol fixo de "consultores associados". Ou seja, uma lista de profissionais especializados que são convocados para serviços específicos periodicamente;

Não tenha medo de arriscar. Tenha plena consciência dos riscos que está assumindo ao optar por uma carreira com este perfil e ouse para conquistar mercado.

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