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Quanto vale estudar?

      
Por Raul Pilati

Qual o melhor investimento? Diz o senso comum que não é o mercado financeiro, mas a educação. Quanto, exatamente, rende aplicar na formação educacional das crianças e jovens? Dois pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas (FGV) debruçaram-se sobre a questão de quantificar o efeito do estudo sobre a renda das pessoas, e chegaram a conclusões impressionantes.

Prevíamos que seria um retorno alto, mas foi acima do que esperávamos, conta Fernando Holanda Filho, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), ligado à FGV, que, junto com o colega Samuel Pessoa, esmiuçaram os dados da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (Pnad), do Ibge. O resultado, ainda inédito, está sendo consolidado e será apresentado em agosto. Parte de estudo maior, do Instituto Futuro Brasil, servirá de base para proposição de políticas pública para educação.

Segundo Holanda, o retorno médio fica próximo da criticada taxa de juros básicos da economia, hoje em 15,25%, considerada muito alta. Isso quer dizer que, para cada ano de estudo, o salário da pessoa fica 15% maior, em média. A última pesquisa deste tipo foi feita em 1969, pelo hoje consultor Carlos Langoni, que presidiu o Banco Central no começo da década de 80. E a atualização de Holanda e Pessoa revelou mudanças importantes, mas ainda mostra que o Brasil tem muito a avançar no campo educacional, infelizmente.

Retorno menor no básico

O economistas identificaram a taxa de retorno de investir em educação, propondo-se responder quanto rende, por ano, a dedicação à escola. Quando você estuda, tem um custo. ? um investimento do governo e outro do estudante por não estar trabalhando, não ter salário, diz Holanda. A diferença entre o salário e o tempo gasto é o benefício. Quanto maior for a remuneração, maior o retorno dos investimentos.

Olhando por outro ângulo, o estudo mostra o efeito da escassez de mão-de-obra no mercado. Ou seja, quanto as empresas estão dispostas a pagar aos empregados, de acordo com o nível de formação escolar, para dispor em seus quadros da qualificação de que necessita.

A comparação com a pesquisa anterior, de Langoni, revela os efeitos do investimento feito nos últimos 30 anos em educação. Em 1969, quem tinha até quatro anos de estudo (veja tabela abaixo), que corresponde hoje a parte do ensino fundamental, conseguia no mercado de trabalho um retorno de 32% a mais de salário para cada ano passado na carteira escolar. Em 2003, o ganho de renda caiu para menos de 11% para essa faixa.

Efeito parecido ocorreu para aqueles que tiveram oportunidade de estudar entre quatro e 11 anos. Ou seja, o retorno caiu. ? um problema? Não, é uma solução: dos trabalhadores que estão no mercado em busca de emprego, aumentou o número de pessoas com estudo até 11 anos, o que explica a menor disposição das empresas em pagar melhor. Para Holanda, esse processo já é reflexo da universalização do ensino fundamental.

Valorização do ensino superior

Tendência oposta apresentou a taxa de retorno para quem tem formação superior, no caso, entre 11 e 15 anos em sala de aula. A remuneração por ano subiu de 12,2% em 1969 para 18,6% em 2003, refletindo a necessidade do mercado de gente com mais formação. ? o prêmio de retorno sobre o título universitário, o prêmio-diploma, explica Holanda.

Chocante, em certa medida, é que a taxa de retorno pelo estudo ainda seja tão alta no Brasil. Nos Estados Unidos é de 7%, mostrando a mudança no comportamento do mercado de trabalho. Tivéssemos uma sistema educacional mais abrangente e com qualidade, a taxa teria caído mais nestas três décadas. Holanda encontra duas possibilidades para nossa velocidade de tartaruga. Na primeira hipótese, a oferta (de ensino) não aumentou o suficiente; na segunda, a demanda cresceu acima da oferta, explica Holanda. Acredito mais que faltou investimento, conclui

Os pesquisadores tomaram o cuidado de estender o levantamento para as duas pontas ? a pré-escola e a pós-gradução, segmentos pouco reconhecidos no sistema educacional brasileiro. A conclusão sobre os cursos de mestrado e doutorado, confirma o senso empírico de que a valorização dos profissionais vai, basicamente, até a graduação, pois a taxa de retorno ainda recua para 13%. Mas o efeito da pré-escola na formação do indivíduo, segundo Holanda, não deixa dúvidas sobre sua importância. Para quem entra cedo na escola, a taxa de retorno sobe para 17% e, melhor, eleva muito a probabilidade de completar as próximas fases de ensino.

Em resumo, ainda precisamos continuar investindo pesadamente em educação se quisermos evoluir como país. Basta dizer que na década de 70 um trabalhador no México tinha, em média, 2,9 anos de estudo. Hoje, tem 7,2. No Brasil, tem 4,9. Outro exemplo é a Coréia, que baseou sua revolução econômica em investimento duradouro em educação. Só para comparar, no país asiático os professores são bem remunerados e até os de ensino infantil devem ter mestrado completo. E todos trabalham em regime de dedicação exclusiva, segundo relatório da Unesco.

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