text.compare.title

text.compare.empty.header

Notícias

O novo vestibular da USP

      
Numa iniciativa inédita, 90 dos mais conceituados professores da Universidade de São Paulo (USP) recorreram à internet para divulgar um contundente manifesto contra as mudanças que serão introduzidas no próximo vestibular, lotando com dezenas de e-mails a caixa postal dos 5 mil docentes da instituição. Segundo o manifesto, por reduzir o nível de exigência do exame, a pretexto de favorecer alunos oriundos da rede pública de ensino médio, as inovações podem colocar em risco o nível de qualidade do ensino e comprometer os cursos de graduação, considerados os melhores do País.

Entre as mudanças já anunciadas, as mais polêmicas são a redução de 100 para 90 as questões da primeira fase e a adoção de perguntas de natureza interdisciplinar, consideradas mais fáceis, em geral, do que as perguntas que vinham sendo feitas antes das mudanças. O mais grave, porém, é que a USP ainda não definiu todas as inovações que pretende introduzir, motivo pelo qual o manual da Fuvest deste ano não deverá conter informações básicas, como, por exemplo, o número de questões por disciplina.

"Em qualquer concurso público, o formato dos exames deve ser conhecido pelos candidatos com antecedência", dizem os autores do manifesto, após reclamar da falta de regras claras para o próximo exame. "Mudanças bruscas nos métodos de avaliação, feitas sem estudos e discussões mais aprofundadas, podem levar a resultados indesejados, colocando em risco a qualidade do ensino da USP", concluem eles, com apoio de dirigentes de cursinhos. No vestibular de 2007, mais de 170 mil candidatos disputarão 10,2 mil vagas.

Na realidade, o problema começou quando dirigentes da instituição, pressionados por movimentos sociais, optaram por fazer concessões aos defensores de políticas de ação afirmativa no ensino superior, como alternativa à adoção de cotas para alunos pobres e negros. Entre as concessões mais importantes, além da mudança no vestibular, destaca-se a de um bônus de 3% da nota máxima aos vestibulandos vindos da rede escolar pública. Segundo a Reitoria, o porcentual foi calculado para elevar de 23,6% para cerca de 30% o número de ingressantes oriundos de escolas públicas.

Chamadas de "Inclusp", essas mudanças foram justificadas em nome da "inclusão social com mérito acadêmico". Para seus defensores, o atual vestibular da USP privilegia "o acúmulo quantitativo da informação e não o potencial intelectual e criativo dos candidatos". Um dos objetivos do "Inclusp", segundo eles, é estimular os vestibulandos a demonstrar capacidade de relacionar conhecimentos e analisar diferentes contextos. Apesar de terem sido aprovadas por 79 votos, 2 contra e 6 abstenções pelo Conselho Universitário, essas mudanças foram mal recebidas pela maioria dos docentes da USP. Muitos as classificaram como "populistas", enquanto outros se queixaram por não terem sido consultados.

Respondendo ao manifesto de protesto distribuído pela internet, e que foi assinado entre outros pela professora Eunice Durhan, ex- diretora da Capes,ex-secretaria de Ensino Superior do MEC e atual diretora do Núcleo de Estudos e Pesquisas de Ensino Superior da USP, a reitora Suely Vilela distribuiu nota na qual se dispõe a conversar com os líderes dos docentes descontentes. A nota afirma que as mudanças que estão sendo promovidas no vestibular foram analisadas durante cinco anos pelos órgãos colegiados e que o manifesto será encaminhado "aos órgãos técnicos da instituição para eventual aproveitamento".

Embora a reação da reitora tenha revelado sua disposição de negociar, a polêmica está longe de uma solução. A verdade é que, como temos dito desde o advento do debate sobre as políticas de ação afirmativa no País, inclusão social não se faz "por cima" , ou seja, pela facilitação do acesso à educação superior, mas pela melhoria da qualidade do ensino fundamental. Do nível desse ensino é que vai depender a disseminação de oportunidades profissionais, a distribuição de renda e a emancipação intelectual das novas gerações. Infelizmente, os atuais dirigentes da USP não levaram isso em consideração e, ao fazerem concessões ao politicamente correto, em detrimento do princípio do mérito, acabaram colocando o corpo docente da instituição em pé de guerra.
  • Fonte:

Tags:

Aviso de cookies: Nós usamos cookies próprios e de terceiros para melhorar os nossos serviços , para análise estatística e para mostrar publicidade. Se você continuar a navegar considerar a aceitação de seu uso nos termos estabelecidos nos Política de Cookies.