text.compare.title

text.compare.empty.header

Notícias

Brasil e Estados Unidos, parceria para quê?

      

Se temos condições climáticas e de solo perfeitas para o cultivo da cana-de-açúcar, e o melhor: o ano todo, também detemos a tecnologia para fazer da cana biocombustível de qualidade, afinal, para quê nos interessa uma parceria com Estados Unidos? Pesquisadores brasileiros não chegaram a um consenso sobre a validade e os benefícios de um acordo comercial entre os dois países para a comercialização de etanol. Há quem defenda que a cooperação será unilateral, em favor dos americanos, já que eles terão seu produto à venda a preços mais competitivos e continuarão submetendo o etanol brasileiro a altas taxas de exportação em prol da cultura protecionista norte-americana. Há, porém, quem diga que o acordo pode ser uma chance de expor o produto brasileiro para o mercado mundial, servindo para que, além de Estados Unidos, cliente em potencial, outras nações recorram ao produto brasileiro.

O Universia conversou com o especialista em pesquisa de biocombustíveis, José Walter Bautista Vidal, físico e professor aposentado do Departamento de Administração da UnB (Universidade de Brasília) que criou o Pró-álcool (Programa Nacional do álcool), na década de 1970 e, também, com um especialista em Administração do Ibmec São Paulo - instituição voltada para o ensino de Economia, Administração e Finanças -, Francisco Isaac Roppero Ramirez, para expor suas opiniões sobre os riscos e benefícios de um acordo entre Brasil e Estados Unidos.

Professor do Ibmec São Paulo e especialista em Administração Físico e professor aposentado da UnB (Universidade de Brasília) que criou o Pró-álcool (Programa Nacional do álcool)

Universia - O senhor é favor da parceria entre Brasil e Estados Unidos para comercialização do etanol. Em sua opinião, quais os riscos que o Brasil corre em estabelecer esta parceria?

Ramirez - Sou totalmente favorável. Geograficamente, Brasil e Estados Unidos estão muito próximos, além de serem grandes países em território e população. A produção norte-americana não supre a demanda do país em etanol, diferentemente do Brasil, que por suas excelentes condições de solo e clima, consegue ter uma produção constante o ano todo. Logo, já temos nosso principal cliente. Internamente, nosso mercado é muito positivo. Não há dúvida de que, ao menos em curto prazo, os países que têm produção e demanda no mercado interno serão os principais exportadores mundiais de etanol.

Universia - Há indícios de que os Estados Unidos estão montando uma estrutura de produção de etanol derivado da cana-de-açúcar para competir com o mercado brasileiro? As especulações giram em torno dos países caribenhos onde a supremacia de multinacionais norte-americanas se faz presente.

Ramirez - O que existe no Caribe são pequenas ilhas que, caso se tornem produtoras de biocombustíveis, não irão suprir a demanda mundial. O máximo que pode acontecer é que elas sirvam como complemento para atender a demanda americana. Nada impede que exportemos álcool hidratado para o Caribe ou o desidratemos e revendamos. Vale lembrar que existe um grande mercado, não são só os Estados Unidos os grandes compradores de etanol, o mundo abriu os olhos para esta questão.

Universia - Na sua opinião, o que o governo brasileiro teria de fazer para garantir que o Brasil mantenha uma posição de destaque no que diz respeito à produção e à comercialização de etanol e dos biocombustíveis de forma geral?

Ramirez - Há várias formas de negociar acordos. Temos uma maturidade e uma diversidade empresarial na produção de ácool que, na realidade, deveria ajudar e não atrapalhar nas negociações. Hoje em dia, não existe colaboração que seja unilateral. Os acordos são pré-estabelecidos para atender as necessidades de ambos os países. Temos que discutir, sim, regulações de mercado, financiamentos, mas vale lembrar, que os acordos entre Brasil e Estados Unidos não se restringem ao álcool. Há muitos anos o Brasil produz álcool e, portanto, temos condições para brigar. Não há dúvida de que vamos encontrar competidores duros pela frente, mas, ainda assim o Brasil está em uma posição confortável porque investou em pesquisa científica para tal, como em vários outros segmentos do agronegócio, como a carne e a soja.

Universia - Há chance do Brasil não aproveitar a oportunidade de se tornar o grande produtor mundial de etanol derivado de cana-de-açúcar?

Ramirez - Não acredito que o Brasil perca o posto, ao menos pelos próximos dez anos. Tudo indica que Brasil e Estados Unidos serão os grandes players no que diz respeito à produção e comercialização de etanol. ? claro que outros países já passam a se movimentar. Indonésia, por exemplo, é um país que possui condições climáticas interessantes para o cultivo da cana-de-açúcar, mas tudo ainda é muito embrionário. Outros países, como a China, por exemplo, também passam a prestar atenção nesta questão. No meu ponto de vista, se a áfrica contasse com recursos, ela poderia, sim, ser uma grande produtora de etanol, mas quantos anos seriam necessários para que se montasse uma infra-estrutura e se investisse em tecnologia para que as cosias acontecessem por lá?

Universia - O senhor é contra a parceria entre Brasil e Estados Unidos para comercialização do etanol. Em sua opinião, quais os riscos que o Brasil corre em estabelecer esta parceria?

Vidal - Não há como dizer que o Brasil não corre riscos em estabelecer uma parceria de comercialização do etanol com os Estados Unidos. Para produzir etanol, é preciso de condições climáticas e de solo especiais, além da detenção de uma tecnologia específica. Tudo isso o Brasil já tem. Não vejo no que eles podem contribuir. O que eles querem é manter uma sobretaxa absurda para impedir as importações do álcool brasileiro. O que está se montando aí não é uma parceria, mas é um acordo em que entramos com o produto e eles com a dominação.

Universia - Há indícios de que os Estados Unidos estão montando uma estrutura de produção de etanol derivado da cana-de-açúcar para competir com o mercado brasileiro? As especulações giram em torno dos países caribenhos onde a supremacia de multinacionais norte-americanas se faz presente.

Vidal - O que eles querem fazer é pegar a nossa tecnologia para colocar países que já são dominados por companhias dos Estados Unidos, como Guatemala, Honduras e El Salvador, para produzir álcool com o investimento deles. Só que a produção também será deles. Isso não resolve o problema da energia no mundo. Eles distorceram a idéia da Opep Verde, que seria a união de países para investir em programas de biocombustíveis. Eles estão montando empresas no exterior sob o comando de Jeb Bush para controlar a distribuição do álcool brasileiro no mundo, o mesmo que foi feito com o café e com a soja. Nós somos os maiores produtores, mas quem ganha com isso são os norte-americanos com suas super taxas que controlam o mercado mundial.

Universia - Existe algum tipo de parceria comercial interessante para o Brasil no que diz respeito ao etanol e aos biocombustíveis?

Vidal - Sem dúvida, seria muito melhor para o Brasil unir-se a países como Japão e China que efetivamente estão interessados em estabelecer acordos comerciais vantajosos para ambos os países. Eles querem comprar o biocombustível brasileiro e não se apoderar de nosso produto deixando o produtor brasileiro na miséria. Não podemos entregar nosso produto nas mãos dos americanos na ilusão de que o resultado será diferente do que já aconteceu anteriormente.

Universia - Na sua opinião, o que o governo brasileiro teria de fazer para garantir que o Brasil mantenha uma posição de destaque no que diz respeito à produção e à comercialização de etanol e dos biocombustíveis de forma geral?

Vidal - O governo brasileiro é muito inoperante precisa criar instrumentos para promover a exportação, apoiar o produtos, como na época do petróleo em que criamos a Petrobras, uma estrutura adequada para produzir e comercializar o petróleo no mercado externo. O que precisamos é de uma empresa de energia como a Petrobras para fontes renováveis. Hoje, estamos completamente desamparados sem nenhum instrumento adequado para regular e demarcar sua posição de grande exportador mundial.

Universia - Há chance do Brasil não aproveitar a oportunidade de se tornar o grande produtor mundial de etanol derivado de cana-de-açúcar?

Vidal - Estamos com muitos acordos na América do Sul para promover a exportação e ganhar mercado externo. Na América Central, quem manda são as multinacionais norte-americanas já instaladas. Só se o Brasil for muito "inocente" ele vai deixar de ter vantagem com a produção de etanol por conta da interferência dos Estados Unidos.

  • Fonte:

Tags:

Aviso de cookies: Nós usamos cookies próprios e de terceiros para melhorar os nossos serviços , para análise estatística e para mostrar publicidade. Se você continuar a navegar considerar a aceitação de seu uso nos termos estabelecidos nos Política de Cookies.