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Liderança, será que perdemos a chance?

      
Por Lilian Burgardt

Com um mercado interno comprador, que consome a grande maioria do etanol produzido no País, e mais, mantendo condições de clima e solo excelentes para o cultivo da cana-de-açúcar e outras matérias-primas naturais que podem dar origem aos biocombustíveis, especialistas são otimistas quanto a posição brasileira no ranking internacional de produção e exportação de "combustíveis verdes", em especial o etanol. Além disso, eles dão pouca importância ao questionamento "será que o Brasil perdeu o bonde da liderança na questão dos biocombustíveis?".

? do NIPE/Unicamp (Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Universidade Estadual de Campinas) - órgão parceiro do governo para estudos sobre implantação de canaviais para a produção de etanol no Brasil - que partem as primeiras críticas quanto a esse questionamento. O pesquisador Carlos Eduardo Vaz Rossell, que participa de estudos sobre a implantação e expansão da cultura da cana em diferentes pontos do País para a obtenção deste biocombustível, afirma que esta não deveria ser uma preocupação brasileira, dada a posição vantajosa que o Brasil ocupa em comparação a outros países.

Concorrência internacional

Segundo especialistas, Brasil e Estados Unidos tendem a dominar o mercado externo da produção de etanol, pelo menos, durante os próximos dez anos. Até lá, é pouco provável que outras nações tenham condições, infra-estrutura e tecnologia para competir internacionalmente. No entanto, muitos países já acordaram e passam a produzir etanol em menor escala, como o caso da Indonésia.

A China, como não poderia deixar de ser, também não pretende ficar fora deste nicho de mercado. Hoje, ela já se movimenta para cultivar matéria-prima apropriada às condições climáticas do país para ingressar no mercado do etanol. Fora isso, outros países estudam iniciativas com eletricidade e hidrogênio para reduzir prejuízos ao meio-ambiente.

"Tudo isso já acontece fora do país. A vantagem brasileira é que temos espaço e condições naturais de sobra, enquanto outros países precisam criar tais condições", explica o pesquisador do CERAT/Unesp (Centro de Raízes e Amidos Tropicais da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho), Cláudio Cabello.

Segundo ele, diferente do que aconteceu na década de 70 com o Pró-álcool, atualmente a produção brasileira tem mercado interno e não precisa de subsídios para se manter. A indústria está equilibrada e crescendo de forma organizada. Os Estados Unidos conseguiram produzir mais do que o Brasil contando com subsídios. Fora isso, eles têm como revés as condições climáticas e de solo, nada favoráveis para o plantio de cana-de-açúcar, mas apenas do milho, que eles só conseguem produzir durante uma determinada estação do ano, ao contrário do Brasil que o faz durante o ano todo e em abundância.

Rossell defende que não são só as condições de clima e solo que fazem do etanol brasileiro um forte concorrente ao norte-americano. A vantagem do etanol produzido aqui, derivado da cana-de-açúcar, é que ele produz menos danos ao meio-ambiente do que o derivado do milho. Na hora de decidir de onde pretende comprar biocombustível, ele acredita que as nações não irão observar apenas uma questão de preço, mas de prejuízos ao meio-ambiente. "Ser o líder não é só uma questão de produzir mais. Isso é coisa para o futebol. Ser líder é ser aquele que produz melhor, atende a uma demanda de comercialização e tem um crescimento sustentável e ordenado. ? para isto que o Brasil deve caminhar", ressalta o pesquisador.

A crescente preocupação com o preço do petróleo - nos últimos dois anos, ultrapassando a barreira dos US$ 50 dólares no mercado externo - aliada aos alarmantes índices dos danos causados ao planeta por conta do aquecimento global - foram os catalisadores para que os países passassem a se preocupar com as fontes de energia utilizadas. Mas o que foi ponto de partida, deve aquecer ainda mais a discussão em torno dos preços do mercado.

"O mundo acordou para os biocombustíveis por uma necessidade de independência do Oriente Médio e de respeito ao meio-ambiente. O Brasil, desde a crição do Pró-álcool, esteve atento a pesquisas nesta linha e não há porque acreditar que ele perdeu uma posição importante. Ao contrário, ao lado dos Estados Unidos, dominará o mercado externo, até que outras nações passem a desenvolver suas alternativas. Isso deve demorar, no mínimo, dez anos", acredita o pesquisador do CERAT/Unesp (Centro de Raízes e Amidos Tropicais da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho), Cláudio Cabello.

Francisco Ramirez, professor de Administração do Ibmec São Paulo, lembra que um mercado interno forte em que a produção seja efetiva e dê conta de sua demanda de consumo é a base para que um país consiga atingir uma posição de destaque internacional. Quanto a isso, o Brasil está em uma posição confortável. Para se ter uma idéia, cerca de 87% da frota de carros brasileiros vendidos em 2006 saíram de fábrica com a tecnologia flex-fuel. E não são os veículos automotivos que preenchem a demanda de etanol no Brasil. As indústrias farmacêuticas, por exemplo, também utilizam como um poderoso solvente. "Não há dúvida de quem atende melhor seu mercado interno ganha com mais facilidade o mercado externo", defende.

Hoje, a maioria dos países que importa o etanol o faz para adicionar à gasolina como forma de reduzir danos ao meio-ambiente. Isto significa que estamos diante de um mercado em franca expansão. Para Cabello, não é preciso que o Brasil exporte, de imediato, a tecnologia flex-fluel que domina. Ao passo em que os países forem percebendo as melhorias e a redução dos danos que a utilização do etanol promove por meio de pesquisas, certamente as portas do mercado externo estarão abertas para a comercialização dos veículos bicombustíveis. "? uma questão de tempo. O Brasil não precisa se preocupar em ganhar mercado agora com os automóveis, por si só, a produção de etanol para o exterior como novo componente da gasolina já abre portas para o mercado brasileiro", diz.

? justamente por pensar no mercado que Cabello vê com bons olhos uma parceria com o governo norte-americano. "Não tenho dúvidas de que estabelecer um acordo comercial deste nível seria positivo para o Brasil, pois coloca o País em um certo destaque internacional, para que outras nações possam conhecer e comprar o produto brasileiro. Além disso, confere certo status ao que é produzido aqui, em decorrência do acordo com uma potência com os Estados Unidos", acredita.

Riscos da monocultura da cana

Se a produção brasileira não é problema no discurso dos especialistas, a preocupação com a monocultura da cana figura como um dos temores em relação ao desenvolvimento agrário. Assim como aconteceu na época do café e no "boom" da soja, os agricultores tendem a plantar aquilo que é mais rentável. Ou seja, se o mercado está comprando etanol, eles vão plantar cana. O que parece preocupar o governo e também especialistas, é que essa monocultura da cana se traduza em um revés para o País.

Segundo o pesquisador Rossell, os estudos encomendados pelo governo para o NIPE têm como objetivo mapear as melhores áreas para o cultivo da cana-de-açúcar respeitando áreas de florestas, de preservação e, também, de cultivo de outros alimentos. "A idéia é mostrar onde o Brasil pode investir para produzir etanol, sem prejudicar outros setores da agricultura", explica.

Já o pesquisador da Unesp acredita que, para combater a monocultura da cana, o ideal seria investir para que outras matérias-primas também pudessem ser utilizadas como fonte de produção do etanol, como por exemplo a mandioca e o inhame. "Existem regiões em que a cana-de-açúcar não vai bem, como o Acre, por exemplo. Lá, o cultivo da mandioca é mais eficaz. Ao invés de enxergar a cana-de-açúcar como única solução, o Brasil precisa apostar em outras matérias-primas", defende.

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