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Notícias

Da linha de fogo às salas de faculdade

      
Policiais voltam a estudar, de olho na carreira e no mercado

Rodrigo Brancatelli e Alexandre Rodrigues

O desconforto com a mesinha é aparente. Lápis e cadernos teimam em cair no chão, os braços não cabem direito no apoio de madeira, as costas doem e aquele bendito assento de plástico é muito apertado. "Acho até engraçado, um bando de marmanjos, delicados como elefantes, tentando voltar à época da escola", diz Walter Joaquim Tadeu Coelho, de 42 anos, soldado da Polícia Militar e um dos calouros da Universidade Bandeirante de São Paulo (Uniban). Acostumados à linha de fogo entre a população e a criminalidade e à rotina de correria e violência, guardas civis, militares, bombeiros e policiais como Coelho estão encarando apostilas universitárias, quadros negros e cadeiras desconfortáveis.

Em 2004, começaram a pipocar nas faculdades do País cursos de extensão, pós-graduação e MBA voltados à área de segurança - tanto pública quanto privada. O motivo, claro, é o aumento da violência. Sem soluções mirabolantes à vista, o assunto se tornou importante demais para ficar restrito às academias de polícia. No fim do ano passado, o Ministério da Justiça chegou a credenciar 22 instituições de ensino para abrirem 1.600 vagas de pós-graduação em Segurança Pública. Metade delas é gratuita, voltada só a policiais.

No Rio, pelo menos quatro universidades têm entre seus alunos agentes de segurança pública, duas delas credenciadas no programa do Ministério da Justiça. Em São Paulo, elas também são quatro. A única paulista cadastrada é a Pontifícia Universidade Católica (PUC), que abriu a primeira turma do curso lato sensu em janeiro para 50 estudantes - sendo que entre eles há de guardas a delegados e investigadores. O currículo abrange noções de Direito, Sociologia, Direitos Humanos e discussões sobre políticas públicas.

"? aquela velha história: como o Estado oferece apenas formação precária, as universidades particulares tomaram a dianteira para suprir essa deficiência", diz o antropólogo paranãnse José Guilherme Magnani, coordenador do Núcleo de Antropologia Urbana da USP. "Existe uma demanda muito grande por especialistas em segurança, seja no âmbito público ou em empresas privadas. A visibilidade da violência nos dias de hoje e a ausência do governo criou um negócio dos mais lucrativos."

Coelho não entrava numa sala de aula havia mais de duas décadas. Até pescou do fundo do armário um terno e gravata para fazer bonito na frente da classe. "Os tempos são outros, e o ensino também precisa ser outro", diz ele, que entrou na pós-graduação em Segurança Empresarial da Uniban no começo de ano.

A Anhembi Morumbi, na zona sul, também oferece MBA em Gestão da Segurança Empresarial. Por volta de 30% dos 42 alunos são policiais, que pagam R$ 798 por mês. Quanto mais cursos, maior a demanda por professores. "Não há nem pessoal especializado no assunto o suficiente para preencher esse vazio", diz a secretária de Defesa Social de Diadema, Regina Miki, que ajudou a criar um projeto que reduziu em 75% o número de homicídios no município. Este ano, Regina também dará aulas no curso de pós-graduação em Gestão de Segurança Pública da Fundação Santo André.
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