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Notícias

UnB: Racismo ao extremo

      
Criminosos colocam fogo nas portas de três apartamentos ocupados por 10 alunos africanos na Casa do Estudante da Universidade de Brasília

Luciene Cruz


As marcas do racismo ficaram cravadas nas portas dos apartamentos 106, 112 e 207 da Casa do Estudante Universitário, da Universidade de Brasília (UnB). Ironicamente, o local é conhecido como CEU, devido às iniciais do lugar. Mas, na madrugada de ontem, as labaredas que entravam nas residências remetiam justamente ao contrário. Por volta das 4h, um grupo de criminosos - possivelmente alunos da própria UnB - colocou alguns tijolos em volta das portas, jogou líquido inflamável e ateou fogo em frente aos quartos de dez estudantes africanos. A suposta tentativa de assassinato virou responsabilidade da Polícia Federal - já que se trata de Patrimônio da União -, que abriu uma sindicância para apurar os fatos e já identificou suspeitos.

O fone de ouvido salvou a vida do estudante de Sociologia Nivaldo Gomes, 31 anos, de Guiné Bissau. No momento em que o ato de vandalismo foi praticado, o universitário dormia ouvindo música. Como o objeto começou a incomodar, ele acordou. Foi aí que ouviu um barulho e percebeu os sinais de fumaça no primeiro andar do apartamento. "Era muita fumaça, não conseguíamos enxergar nada. Vivemos momentos de pânico."

Gomes estava acompanhado de mais três colegas com quem divide o quarto. Como a residência só possui uma porta de acesso, ficaram impossibilitados de deixar o lugar. A única alternativa encontrada foi pular a janela para o apartamento vizinho. "Isso é um absurdo. Estou decepcionado. Isso é racismo, é xenofobia (aversão a outras raças e culturas). Tentaram nos matar. Isso não pode ficar assim", disse Gomes. Quando saíram do apartamento vizinho, perceberam que o incêndio atingia outras dependências do prédio, provocando pânico entre os moradores.

A crueldade foi tão grande que os três extintores de incêndio que ficam localizados no primeiro andar do CEU foram esvaziados. "Foi maldade pura. Planejaram cada detalhe. Não pouparam nem os extintores de incêndio", comentou o estudante de Administração Quebá Carimo, 28 anos, de Guiné Bissau, que também mora num dos apartamentos incendiados.

Por sorte, os criminosos esqueceram de esvaziar o extintor do segundo andar, que foi usado no combate ao fogo. O esvaziamento foi confirmado pelo reitor da UnB, Timothy Mulholland. "Foi feita vistoria nas dependências do prédio na semana passada e todos os extintores estavam em ordem", garantiu. "Os registros mostraram que nenhum estranho entrou nas dependências da Casa do Estudante", acrescentou Mulholland, deixando a suspeita de que alunos da UnB estariam envolvidos.

Caso antigo
O caso trouxe à tona um problema que já ocorre há alguns anos dentro da instituição: o racismo contra os alunos negros africanos. Os estrangeiros fazem parte de um convênio firmado entre o Brasil e outros países. O objetivo do programa é promover o intercâmbio cultural entre os estudantes. No entanto, desde que chegaram à UnB, eles sofrem ameaças e são hostilizados por um grupo de alunos brasileiros. Pedras atiradas na janela, pichações na parede e xingamentos são comuns. "Ontem pichação, hoje incêndio e amanhã vão fazer o quê?", indagou uma das vítimas, que preferiu não se identificar.

 
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