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UnB: Reação à xenofobia

      
A pedido do MPDF, delegacia da Asa Norte investigará os crimes de racismo ou injúria qualificada, que estariam por trás de ataque a alojamento de africanos. Universidade cria Dia da Igualdade Racial

Marcela Duarte

Um dia depois do incêndio criminoso na Casa do Estudante Universitário (CEU) da Universidade de Brasília (UnB), a direção da instituição admite que o ato pode ter sido uma manifestação racista e xenofóbica contra estudantes africanos. O Ministério Público do Distrito Federal (MPDF) encaminhou um ofício à 2¦ Delegacia de Polícia (Asa Norte), exigindo que sejam investigados os crimes de racismo ou injúria qualificada. O incêndio proposital ocorreu na madrugada de quarta-feira e queimou a porta de três apartamentos onde residiam 10 alunos africanos. O fogo também atingiu um quarto alojamento, onde estavam mais quatro estudantes vindos da áfrica. As polícias Civil e Federal abriram inquérito e começaram a intimar vítimas, testemunhas e suspeitos. A UnB, por sua vez, abriu sindicância e pode expulsar os responsáveis pelo incêndio.

Traumatizadas, as vítimas cogitam a possibilidade de regressar a seus países de origem. Ao relembrar a madrugada de medo, Quebá Carimo Cairabá Sanhá, 28 anos, natural de Guiné-Bissau e aluno do curso de administração, afirma que o ato foi o ápice de uma situação que estava ficando insustentável. "Cansei de ouvir que usamos tênis caros e por isso não poderíamos ficar aqui (na Casa dos Estudantes). Não dá para ficarmos tranqüilos diante disso. Não temos segurança", desabafa.

As 14 vítimas e outros três africanos que também moravam na CEU foram levados para um hotel pago pela universidade. Além dos três seguranças que atuavam na Casa do Estudante, a Reitoria da instituição reforçou a guarda com outros três vigilantes, um para cada andar. A UnB pretende identificar os culpados o mais rápido possível para que sejam desligados da instituição e as vítimas possam retomar a rotina de estudos. "Se eles (os africanos) não voltarem, encaro como uma derrota da universidade e uma vitória dos vândalos. Queremos que tudo seja resolvido da melhor maneira, com os culpados punidos", disse o vice-reitor Edgar Mamiya.

Clima de tensão
As vítimas passaram à Polícia Federal o nome de oito suspeitos, que serão investigados. A PF também recolheu impressões digitais do local do crime, o que deve auxiliar a identificar os responsáveis. Na tarde de ontem, o delegado titular da 2¦ DP (Asa Norte), Antônio Romeiro, recebeu um ofício da promotora de Justiça Laís Cerqueira Silva, do Núcleo de Enfrentamento à Discriminação do MPDF. Ela pediu a investigação dos crimes de racismo ou injúria qualificada. "Vítimas nos procuraram e contaram o histórico da convivência na CEU. Apontaram as pichações (ocorridas em fevereiro). O que estava escrito nas paredes (Morte aos estrangeiros!) tem caráter xenofóbico. A relação entre as pichações e o incêndio deve ser apurada", aponta a promotora.

Outro episódio ocorrido em fevereiro evidencia a tensão entre brasileiros e estrangeiros na Casa do Estudante. Segundo o delegado Antônio Romeiro, no dia 24 daquele mês, dois brasileiros registraram ocorrência contra seis estrangeiros por perturbação da tranqüilidade. "Não indica que eles (os brasileiros) são os culpados, mas é uma linha de investigação que seguiremos. Ouviremos as duas partes", afirmou o delegado. De acordo com moradores da CEU, a pichação e o registro de ocorrência na 2¦ DP ocorreram na mesma época.

Sindicância
Funcionários da UnB também começam a investigar o que ocorreu na madrugada de quarta-feira. De acordo com a Reitoria, todos os responsáveis pelo ataque serão punidos conforme o nível de participação. "A troca de experiência entre alunos estrangeiros deve ser enriquecedora. Não faz sentido se não for assim. Se a autoria for comprovada, falaremos em expulsão. A UnB tem que ser um lugar de paz ", disse o reitor Timothy Mulholland, que divulgou uma nota oficial de repúdio ao incêndio criminoso no alojamento dos africanos. Dos 25.415 estudantes da UnB, 427 são estrangeiros.

O reitor anunciou ontem que o dia 28 de março (data do ataque) será o Dia da Igualdade Racial na UnB. Mulholland também confirmou a criação do Programa de Combate ao Racismo e Xenofobia Institucional, que terá o objetivo de conscientizar a comunidade acadêmica sobre a importância da vinda de jovens de outros países para a instituição e da ação para promover a tolerância entre as diversas raças e nacionalidades. Um grupo de estudantes africanos se reuniu ontem no gramado ao lado do Restaurante Universitário para programar um grande ato público contra o racismo, a xenofobia e o preconceito. O evento está marcado para a próxima quarta-feira.

Ato político
No final da tarde, o reitor Timothy Mulholland recebeu os deputados federais Vieira da Cunha (PDT-RS), Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e Janete Rocha Pietá (PT-SP), os senadores Paulo Paim (PT-RS), Cristovam Buarque (PDT-DF) e Geraldo Mesquita (PMDB-AC), além da superintendente da Polícia Federal em Brasília, Valquíria Souza Teixeira de Andrade, e o ouvidor da Secretaria Especial de Promoção de Políticas de Igualdade Racial, Luiz Fernando Martins da Silva. Mulholland detalhou ao grupo as providências adotadas pela UnB sobre o assunto.

O tema também ecoou nas dependências do Congresso Nacional. "Não são vândalos, são nazifascistas, que colocaram fogo justamente nos quartos dos setores onde os negros africanos estavam hospedados", afirmou o deputado federal Dr. Rosinha (PT-PR). Fernando Gabeira (PV-RJ) pediu que seja enviada, na próxima semana, uma comissão à UnB para "prestar nossa solidariedade e nossa preocupação." A Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa do DF promove, na próxima semana, audiência pública para discutir o caso.
 
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