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Uma aula multicultural

      

Larissa Leiros Baroni

Primeiro dia de aula. Você, professor, entra na sala para dar início a mais um semestre letivo e, logo na porta, esbarra com um estrangeiro carregando uma pilha de livros. Seria um visitante perdido pelos corredores da universidade? Nada disso. Ele é o mais novo integrante da turma e, inclusive, será seu aluno pelos próximos seis meses. E aí, está preparado para enfrentar uma situação como essa? Se a resposta for não, então é melhor começar a pensar nisso, porque mais cedo ou mais tarde você pode se transformar no personagem principal dessa história.

A presença de estrangeiros nos bancos universitários é cada vez mais comum. A mobilidade acadêmica e a internacionalização das IES (Instituições de Ensino Superior) têm atraído os olhares de estudantes dos quatro cantos do mundo. Para se ter uma idéia, este ano, o país vai receber mais de 360 alunos de 11 países das Américas Central e do Sul e de cinco lugares da áfrica, por meio do PEC-G (Programa de Estudantes-Convênio de Graduação) - uma iniciativa do governo federal. Sem contar os acordos de cooperação internacional das próprias universidades brasileiras, que sempre acabam resultando na vinda de novos estrangeiros.

O Brasil parece estar de braços abertos para receber esses alunos. No entanto, será que a receptividade, por si só, garante um programa de intercâmbio produtivo tanto para o visitante, como para a comunidade acadêmica brasileira? Quanto a isso, os especialistas são unânimes e afirmam que muitas outras ações devem ser realizadas simultaneamente. "O que não quer dizer que a pré-disposição do país não seja importante. Ao contrário, é essencial para que haja mobilidade acadêmica, mas apenas um ponto de partida", conta a presidente do Faubai (Fórum de Assessorias das Universidades Brasileiras para Assuntos Internacionais) e assessora de assuntos internacionais da UCS (Universidade de Caxias do Sul), Luciane Stallivieri.

No topo dessa lista está a capacitação dos docentes. "Grande parte da responsabilidade do sucesso e até do insucesso do programa está nas mãos do professor. Até porque ele é o mediador entre conhecimento e aluno, principal objetivo do intercâmbio", ressalta o assessor de assuntos internacionais da UnB (Universidade de Brasília), Noraí Rocco. Mas, nem sempre, esses profissionais estão preparados para recebê-los e a falta de conhecimento acaba, inclusive, se tornando mais uma barreira no processo da mobilidade acadêmica e, consequentemente, comprometendo a produtividade da visita do estudante de outra nacionalidade.

Quando a professora do curso de Nutrição da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) Márcia Regina Vitolo recebeu a notícia de que teria que dar aula para três mexicanas, seu mundo, em poucos minutos, pareceu ter virado de ponta cabeça. "A primeira impressão é de que não vai dar certo. Medo de que não acompanhassem a matéria e que atrapalhassem o desenvolvimento da aula", diz. A nutricionista não tinha a mínima idéia do que poderia encontrar nos próximos seis meses. Mas, no fim, acabou se surpreendendo. "Alcancei bons resultados: as alunas conseguiram acompanhar a aula, foram aprovadas com um excelente desempenho e, ainda, contribuíram muito para o desenvolvimento das aulas", aponta.

Anseios que não são exclusivos da Márcia. A inexperiência e a insegurança do desconhecido causam, naturalmente, esses medos, que só são quebrados quando o aluno estrangeiro deixa de ser visto como "trabalho" e passar a ser considerado um elemento potencialmente rico dentro de sala de aula. "Os benefícios que esse estudante pode trazer ao professor é muito maior do que o trabalho que terá", alerta Luciane. "Não é nenhum bicho-de-sete-cabeças, basta saber aproveitar a oportunidade", completa.

Nesse processo de internacionalização, o professor precisa ter flexibilidade no processo formador, conhecer a cultura do estudante estrangeiro e expandir seus conhecimentos culturais. "O maior investimento e treinamento do professor é a busca pela multiculturalidade. Fora isso, basta ter a cabeça aberta e estar desprovido de qualquer preconceito", ressalta Noraí. E essa é a lição de casa do professor.

Convivência nota 10

- Nada de tratamento diferenciado
- Fale devagar e articule bem as palavras
- Utilize mecanismos de apoio
- Abuse dos elementos visuais
- Disponibilize-se em horários extra-aulas
- Não faça uma avaliação diferenciada
- Releve erros de grafia e concordância
- Utilize a tutoria de monitores
- Indique leituras complementares
- Abuse dos exemplos dele e do país, isso enriquece a sua aula.

Mas, você deve está se perguntando: o que fazer, então, quando se deparar com um estudante de outra nacionalidade dentro de sala de aula? Ignorá-lo, fingindo que não há nada de diferente? Ou tratá-lo como rei, se dirigindo única exclusivamente a ele? Opa! Nenhuma das opções está correta. Vale lembrar que você não dará aula particular para esse aluno e que por isso tem outros que também precisam da sua atenção. E mais, há uma pessoa em sala que não domina o português e que, naturalmente, terá um pouco mais de dificuldade para entender o conteúdo. "Por isso, não dê um tratamento diferenciado, mas mecanismos de apoio para que o estrangeiro tenha as mesmas oportunidades dos demais", orienta a presidente do Faubai.

As aulas são ministradas em português, por isso o conhecimento básico no idioma é essencial. Mas, mesmo assim, a comunicação acaba sendo a principal barreira entre aluno e docente. Desta forma, é preciso que o professor fale devagar e articulando bem as palavras, lógico que sem deixar que as aulas se tornem monótonas e cansativas. "Em último caso e em algumas ocasiões, o professor pode e deve se comunicar com o estrangeiro em outra língua", afirma Rocco. "Isso não deve se tornar uma rotina, pois pode atrapalhar o desenvolvimento do curso."

Slides, fotos, desenhos e até filmes ajudam a incrementar as aulas. "Essas ferramentas podem colaborar muito no processo de aprendizagem do aluno estrangeiro", afirma a vice-coordenadora do curso de Ciências Biológicas da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), Jarcilene Silva de Almeida Cortez, que já recebeu 33 estudantes de diferentes nacionalidades. Mas, se isso não for suficiente para que o estudante compreenda o conceito, é preciso utilizar a criatividade. Mímicas, encenações, brincadeiras...tudo é valido, desde que não comprometa as aulas. "O que não pode é o professor levar mais de uma hora para explicar o que significa uma determinada palavra", afirma Jarcilene.

Se nenhum desses mecanismos funcionar e a dúvida permanecer, o ideal é marcar um horário extra-aula para esclarecer as dúvidas do estudante. Uma estratégia que funcionou com Márcia Regina. "Alguns conceitos podem acabar passando despercebidos e esse tempinho, no final das contas, pode fazer toda a diferença", garante. Outra tática utilizada pela professora foi a indicação de leituras complementares. "Uma forma de assimilarem termos técnicos e chegarem em sala de aula já com um parâmetro". Mas, independente da didática adotada, é preciso que o docente seja receptivo, tenha paciência e esteja atento.

A avaliação é um outro ponto a ser levado em consideração. Não se deve passar a mão na cabeça do aluno estrangeiro e isentá-lo dessa responsabilidade, porém é preciso relevar certas errinhos, principalmente, os de grafia e concordância. "Nada de avaliação diferenciada, afinal ele é um indivíduo que tem as mesmas condições e competências e deve ter as mesmas atividades", aponta Luciene.

E se você acha que esse aluno estrangeiro não tem a contribuir, está muito enganado. ? possível utilizá-lo para enriquecer suas aulas e, inclusive, criar ou ampliar os seus contatos internacionais. "O professor pode otimizar esse contato para abrir uma gama de canais. Profissionalmente, no ambiente acadêmico, pode utilizá-lo para criar uma comunicação intercultural em sala de aula", descreve Luciane. "Um ganho bilateral", conclui.

Esta matéria é a primeira parte de um especial que falará sobre a presença de estudantes estrangeiros em instituições brasileiras. Na próxima semana, será apresentada a visão do gestor, abordando com as IES estão se preparando para recebê-los. Confira!

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