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Dando adeus ao cartão de ponto

      

Larissa Leiros Baroni

O relógio marca seis da manhã. ? hora de pular da cama, enfrentar o trânsito, bater o cartão, cumprir uma jornada de 8 horas de trabalho e, só depois de encarar quilômetros de congestionamento, voltar para casa e, enfim, dormir. Mais um dia se foi e, novamente, o lazer e a família foram preteridos. Já não resta tempo para conciliar a vida pessoal com a profissional. Desminta isso quem não tem dificuldade para organizar a agenda de trabalho com as demais atividades. Mas, atento a essa densa e, muitas vezes, improdutiva rotina, o mundo dos negócios busca estratégicas para aumentar a motivação e, conseqüentemente, a produtividade de seus funcionários. E o trabalho remoto, também conhecido como teletrabalho, é uma das tendências da era contemporânea.

Já imaginou trabalhar em sua própria casa? Ter um almoço saudável, dispor de algumas horas para a família, praticar esportes, ter muito mais tempo para se atualizar e nada de perder horas no trânsito? O teletrabalho é um sistema exercido a distancia, utilizando ferramentas telecomunicacionais e de informação que asseguram um contato direto entre funcionário e empregador. A atividade independe da localização geográfica, ou seja, pode ser realizada em qualquer ponto onde se encontre o teletrabalhador.

A quantidade de profissionais que trocam as roupas formais e os cartões de ponto para se tornarem teletrabalhadores é cada vez mais expressiva. Segundo pesquisa da Sobratt (Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividade), o número de brasileiros que trabalha fora do escritório chega a 4,5 milhões - um crescimento médio de 20% por ano. "Uma tendência que se expande ainda mais com a evolução da tecnologia, com o barateamento da infra-estrutura dos serviços online e com a qualidade de vida insatisfatória", afirma o presidente da sociedade Fernando Carvalho Lima.

Para que a prática se intensifique no País, ainda há muito o que fazer. E o primeiro passo, segundo os especialistas, é romper com os paradigmas e com o conservadorismo das empresas. "Muitas organizações se fecham em modelos convencionais de trabalho e não percebem que o contato físico, em alguns casos, é desnecessário", conta o coordenador do Centro de Empreendedorismo, Inovação e Negócios da BSP (Business School de São Paulo), álvaro Mello. "O que importa é o que e quando se faz e não onde", completa.

Enquanto algumas companhias fecham os olhos para essa realidade, outras já disparam na contratação de teletrabalhadores. E nesse segmento as organizações ligadas ao setor de tecnologia sãm na frente. A IBM, por exemplo, mantém 40% dos 330 mil funcionários trabalhando em casa, na estrada (em caso de viagens de negócio) e até mesmo nas empresas dos clientes. "Com o tempo, todas vão perceber a importância do teletrabalho. Já se nota alguns avanços, mas o Brasil ainda caminha em marcha lenta", assegura Mello.

- Redução do tempo perdido com translados
- Diminuição do nível de stress
- Flexibilidade de horário
- Aumento do tempo disponível para a vida familiar e pessoal
- Redução de custos com deslocamentos e refeições
- Melhoria da qualidade de vida
- Aumento da produtividade associada à motivação do funcionário
- Redução de custos por conta da diminuição de espaço, equipamentos e manutenção
- Abater o absentismo
- Aumento da flexibilidade organizacional
- Diminuição da poluição e do transito, já que o fluxo de automóveis será menor
- Aumento da participação dos trabalhadores em atividades sociais
- Desenvolvimento regional, com a descentralização de empregos em regiões centrais
- Isolamento pessoal e profissional
- Vício do emprego
- Descomprometimento profissional
- Se envolver demais com problemas familiares
- Maior dificuldade na supervisão do trabalho
- Riscos de segurança e confidencialidade da informação
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Para ingressar no mundo virtual

O trabalho remoto, por si só, não garante a qualidade das atividades. Muitos outros fatores também devem ser levados em conta, entre eles o perfil do cargo do teletrabalhador. Já imaginou o presidente de uma empresa trabalhar em casa? Em alguns casos, a presença diária no escritório ainda é fundamental. "Depende do tipo de trabalho, da necessidade de contato com outras pessoas e, ainda, do quanto as atividades dependem de uma equipe", explica o diretor de projetos da pós-graduação da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), Claudinei Santos.

Em geral, as atividades concretas possuem maior efetividade nesse sistema à distância. Essa análise, porém, depende única e exclusivamente das empresas. "Depois de detectar as funções que podem ser desenvolvidas fora da organização, os executivos devem definir os resultados e mapear processos para uma melhor supervisão da teleatividade."

O perfil do funcionário também é outro fator que deve ser levado em consideração. Aliás, não pense você que o trabalho em casa é um período de férias permanente. Mesmo tendo horários mais flexíveis, as exigências e os cuidados acabam sendo redobrados. Ser teletrabalhador implica em algumas condições. Uma delas é a disciplina, necessária para separar o trabalho da rotina doméstica, resistir às tentações de um cochilinho no sofá da sala e até mesmo das partidas de futebol ou novelas. E mais: o profissional precisa ter uma visão empreendedora para gerenciar o tempo e otimizar os recursos. "O funcionário virtual é o supervisor do seu próprio trabalho, por isso a responsabilidade, o comprometimento e o amadurecimento profissional são características essenciais", descreve Santos.

A organização é a principal característica da analista de negócios da ILOG Tecnologia (empresa especializada no desenvolvimento de soluções), Daisy Cristiane Sache Cipriani, 29. Há três anos, a profissional trabalha, fisicamente, em Blumenau, mas prestando serviço à organização, localizada em Florianópolis. "Não é porque estou a quilômetros de distância que não tenho compromisso com o horário. Tenho que cumprir prazos e serei cobrada pela empresa no dia da entrega de um projeto, do mesmo jeito que os demais funcionários", aponta. No entanto, Daisy tem uma preocupação a mais: encontrar mecanismos para substituir o face-a-face. "Além de utilizar os sistemas de interação e as ferramentas que superam essa distância, preciso, a todo momento, apontar as minhas atividades, meus resultados e me fazer presente na rotina da empresa", diz.

Se não bastassem todas essas peculiaridades, o teletrabalhador também precisa ter um mínimo de infra-estrutura, como um computador, fax e telefone, além dos softwares de controle de tarefas e ferramentas de comunicação. Messenger, email e skype são alguns dos mecanismos de interação da teleatividade. "Muitas empresas oferecem equipamentos e arcam com os custos de Internet e telefonia do funcionário virtual", afirma Lima.

Fantasmas de uma atividade desconhecida

Ao mesmo tempo em que as pesquisas revelam o aumento da produtividade, apontam também uma desvantagem no desenvolvimento da carreira do teletrabalhador. De acordo com o estudo da consultoria Korn/Ferry Internacional, mais de 60% dos 1.320 executivos entrevistados acreditam que os "funcionários virtuais" são menos lembrados e escolhidos em promoções. Isso porque os gestores dizem que precisam "olhar nos olhos" de seus funcionários diariamente.

Para o professor Mello, da BSP, esse é um problema gerencial. "Se o teletrabalhador apresenta resultados, cumpre os prazos e é um bom funcionário, quais são os motivos para ele ser deixado de lado na hora de uma promoção?", questiona. Em sua opinião, se isso acontece, é porque a avaliação do desempenho dos funcionários está errada. "O ponto a ser levado em consideração não é a presença física, mas sim as habilidades, as potencialidades e as capacidades dos funcionários", descreve.

A gerente de divisão da área de Recrutamento e Seleção de Executivos da Gelre, Vera Modolo, também partilha da mesma opinião. A consultora não acredita que a teleatividade seja um fator negativo na hora da contratação. Pelo contrário, é um diferencial, já que se trata de um profissional apto aos novos moldes do mercado. "Atualmente, o mundo empresarial pouco demanda o olho no olho. Mas, mesmo a distância, o funcionário precisa se preocupar com o marketing pessoal, a visibilidade e a interação com a empresa e com o cliente", recomenda. Nesse processo, os meios eletrônicos e até as visitas esporádicas à organização e à clientela podem ser eficientes. "Por que não compartilhar com o seu chefe e com a equipe, mesmo que seja por e-mail, seus resultados? Não se deixe passar por despercebido", alerta.

A solidão, o tédio, a perda dos contatos informais no local de trabalho, bem como a insegurança associada à atividade isolada sem o apoio dos colegas, são outros aspectos que angustiam parte dos teletrabalhadores. No entanto, o diretor de projetos da pós-graduação da ESPM, Claudinei Santos, garante que isso depende única e exclusivamente do profissional. "Falar que não há trabalho em equipe e interação na teleatividade é um mito. Isso só acontece se o funcionário se fechar no seu mundinho", afirma. "? preciso estar aberto para ampliar a rede de amigos fora da empresa, manter contato com os colegas de trabalho e, sempre que possível, participar dos happy hours", aconselha.

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