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Notas de sucesso

      

Por Felipe Datt

Mais de 100 apresentações, quase uma a cada três dias, que incluem quatro formaturas, nove eventosÿespeciais, oito concertos em praça pública e outros 83 para estudantes, com um público estimado em 30.315 pessoas.ÿTratam-se de númerosÿrespeitáveis e bastante acima da média quandoÿo assunto éÿmúsica no Brasil e que servem para confirmar o velho mito de que vida de músico se resume a shows,ÿcontato com o públicoÿe muita fama. Mas o cenário descrito acimaÿé o retrato, na realidade, do árduo esforço de uma legião de quase anônimos que tentam, a todo custo,ÿpopularizar a música clássica no País. São integrantes das orquestras sinfônicas universitárias que, com muito talento e agenda cheia, mas também com orçamentos apertados eÿdependendo das quase sempre incertasÿajudas do governo e da iniciativa privada, buscamÿum lugar ao sol.

"Os resultados obtidos, infelizmente, nem sempre são satisfatórios. Houve uma época em que o interesse era maior pelas orquestras, viajávamos mais. Hoje, por falta de verba, não existe mais essa possibilidade", conta a administradora do Setor de Música Orquestral da UEL (Universidade de Londrina), Irina Ratcheva. Os números que abrem a reportagem referem-se à temporada 2006 da orquestra e mostram exatamente esse paradoxo apresentado por Irina, búlgara de nascimento e que háÿquase 20ÿanos trabalha firme para popularizar a música clássica no Brasil. "Nossa sensação é a de que estamos sempre tocando o barco para frente, sem muito rumo. Mas isto deveria ser provisório, pois não dá para sobreviver para sempre assim", lamenta.

A Orquestra Sinfônica da UEL completou,ÿno último dia 14 de março, 23 anos de existência com apresentações especiais, como no anfiteatro Ouro Verde, cujos ingressos para os 850 lugares se esgotaram. Trata-se de um grupo formado apenas por músicos profissionais, mantido pela instituição de ensino paranãnse por meio de um programa de extensão - na realidade, uma Casa de Cultura com várias divisões, como música, coralÿcomunitário e a orquestra sinfônica. São, ao todo, 52 membros, uma orquestra considerada enxutaÿpor Irina, que idealiza um time de 86 músicos. "Alguns naipes estão incompletos, especialmente de violoncelos. A culpa é da falta de uma política estadual para o setor, pois depende do governo abrir vagas por meio de concurso público, o que não acontece desde 2003", informa.ÿ

O orçamento anual da orquestra é de R$ 200 mil e exclui a folha de pagamento dos músicos, cujos salários variam de R$ 1,8 mil (músicos formados) a R$ 2,2 mil (mãstro). "? muito pouco", reclama Irina.ÿMas a situação tende a melhorar este ano: está prevista a abertura de um concurso público que ajudará a preencher as vagas remanescentes na orquestra. Além disto,ÿserão abertas vagas para jovens universitários e estagiários bolsistas. "Defendo uma sinergia maior entre as orquestras, e não apenas as universitárias. No fim, os objetivosÿsão os mesmos: formação cultural e educação musical.ÿTambém é necessária uma maior participação da iniciativa privada", defende a estrangeira.ÿÿ

O apoio da iniciativa privada é justamente um dos principais alicerces da Orquestra Sinfônica da UFBA (Universidade Federal da Bahia). Os R$ 800 mil injetados anualmente pela Coelba (Companhiaÿde Eletricidade do Estado da Bahia) garantem o pagamento de bolsa aos alunos, a contratação de músicos profissionais quando necessário e todos os custos com os concertos, como transporte de instrumentos, montagem de palcos etc. "A orquestra conta atualmente com 45 músicos profissionais e outros 20 alunos bolsistas, que bem ou mal dão condições de fazer aÿmáquina funcionar", revela o diretor da Escola de Música da federal baiana, Horst Schwebel. Assim como Irina Ratcheva, da UEL, o músico saiu da Europa ("um dia já fui alemão", brinca) para divulgar a músicaÿerudita no Brasil. Apesar dos percalços, não se arrepende. "Há muito talento por aqui, mas a vida da música popular na Bahia é tão intensa que os alunos migram das orquestras para os grupos de axé music. O cenário é parecido com as orquestras universitárias de todo o País. A escola fabrica a matéria-prima da orquestra e mostra aos alunos a vida de um músico profissional", diz.

A Orquestra Sinfônica da UFBA deu seus primeiros passos em 1954, resultado do I Seminário de Música Internacional da Bahia. Dois anos depois, foi fundada oficialmente com bases profissionais - professores e funcionários concursados - e funciona até hoje. O interesse dos alunos é grande. Na universidade são 500 estudantes ligados a cursos de música e outros 500 em cursos preparatórios. A agenda também anda cheia, com apresentações a cada 15 dias na reitoria da universidade, além de oitoÿconcertos mensais no interior do estado e outros quatro na Praça de Salvador. "O que gostaria é de um contrato de patrocínio mais longo, de cinco anos, que permitisse um planejamento maior. Nosso contrato é anual", contaÿSchwebel.ÿ

Reconhecimento

Considerada umas das melhores orquestras sinfônicas universitárias do País, a Osusp (Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo) começa a olhar para além da própria atividade universitária, nas palavras do seu mãstro, Carlos Moreno. "Acreditamos no bem da arte e uma orquestra sinfônica é um bem público. Antes o grupo era voltado mais para a vida acadêmica e agora começa a se popularizar", diz o mãstro.ÿ

Esse processo de reinvençãoÿenvolve a busca por novas idéias,ÿnovos espaços de apresentaçãoÿe passeios pela música erudita contemporâneaÿe até a música popular. O ápice se traduziu em uma aclamada turnê pela Alemanha eÿpela temporada fixa de concertos na Sala São Paulo, uma das principais casas de música erudita de São Paulo, que recebe grupos internacionais e nacionais, como a renomada Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo). São nove apresentações noturnas e outras nove didáticas, para alunos do ensino médio e fundamental, todos os meses. A agenda também inclui apresentações semanais na Faculdade de Medicina, no anfiteatro Camargo Guarnieri e nos diversos campi da USP em todo o Estado de São Paulo.

A orquestra começa a colher os frutos da empreitada. Em 2006,ÿrecebeu o Prêmio Carlos Gomes de Melhor Orquestra do Ano. Carlos Moreno já havia sido aclamadoÿMãstro Revelação do Ano em 2002. Foi a 11¦ edição da premiação, queÿvangloria os nomes mais expressivos da música erudita nacional. O Prêmio Carlos Gomes surgiu em 1996 e a idéia da sua criação foiÿchamar a atenção para a música erudita produzida no Brasil e, conseqüentemente, dos instrumentistas nacionais. Com um orçamento estimado em R$ 300 mil, a orquestra mantém um quadro de 42 músicos contratados e complementa o time comÿmúsicos formados pelo "Projeto Academia" que, nas palavras de Carlos Moreno, é um concurso aberto ao talento.ÿO projetoÿteve seu início em junho de 2002 eÿtem como finalidade permitir que talentos ligados àÿUniversidade de São Paulo e outras instituições de ensino superior tenham a possibilidade de participar das atividades que se desenvolvem na prática orquestral num âmbito de excelência.ÿ

Ao contrário da USP,a Orquestra Sinfônica da Unicamp (Universidade de Campinas) acentua sua relação com a vida acadêmica, um dos motivos, inclusive, que dificulta o fechamento de um contrato de patrocínio. "A questão da iniciativa privada é complicada, pois o nosso público principal está dentro da universidade. Para as empresas, interessa que a orquestra alcance um maior número de pessoas. Para nós, isso significaria ter de deixar um pouco de lado a função acadêmica da orquestra", explica o professor de regência e também regente da orquestra campineira, Carlos Fiorini.

Surgida no início daÿdécada de 80 como uma orquestra de câmara, recebeu apoio da universidade e transformou-se em uma sinfônica com cerca de 50 integrantes alguns anos depois, número de músicos que mantém até os dias de hoje. Realiza uma média de 50 apresentações por ano, tanto dentro da Unicamp quanto em Campinas e outras cidades do interior de São Paulo. "A orquestra poderia ser maior, mas conseguimos montar repertórios específicos para esse número de músicos", relata Fiorini. Além dos concertos, a orquestra serve de base para muitas atividades acadêmicas ligadas à graduação e à pós-graduação, por meio de trabalhos de regência e solos musicais com alunos e em disciplinas como orquestração.

Futuro das orquestras

Apesar dos inúmeros sucessos alcançados, as dificuldades que surgem no dia-a-dia desses músicos eruditos ligados às universidadesÿincomodam os profissionais, caso do coordenador do projeto "Grandes Grupos Instrumentais" da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Silvio Viegas. "Vejo nossa situação estacionada. Antes as universidades estavam abertas a trazer técnicos de música, que são importantíssimos para o desenvolvimento dos alunos. Hoje, as não têm como contratar. A postura estagnada do governo, no que se refere à abertura de concursos públicos para músicos, preocupa. Nossa última contratação foi no final da década de 80. Qual será nosso futuro?", questiona. O "presente" da orquestra se resume a 50 integrantes fixos (sendo 18 bolsistas), além de 10 técnicos, que realizam uma média de seis apresentações semestrais.

Outra queixa de Viegas refere-se à dificuldade em substituir os músicos, muitos deles gabaritados, que trocam os instrumentos pela aposentadoria ou pela carreira de docente. "Um músico com doutorado ganha trêz vezes mais na sala de aula do que como técnico. A vida de docente torna-se financeiramente mais atrãnte e perdemos muitos integrantes para as universidades. ? preciso mudar esse quadro, pois a orquestra universitária é importante para o aluno, o maior laboratório para a vida profissional de um músico", alerta.

O regente da orquestra da Unicamp, Carlos Fiorini, concorda com o colega da universidade mineira, mas lembra que não existem muitas diferenças entre o que acontece com as orquestras e outros departamentos das universidades. "Da mesma forma que existe dificuldade em repor um funcionário ou docente que se demite ou se aposenta, é difícil repor um músico que sai da orquestra.ÿApesar de representar um problema, este não éÿespecífico das sinfônicas, mas do ensino público brasileiro como um todo", finaliza.

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