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Violência sem classe social

      

Por Felipe Datt

? chavão dizer que a violência no Brasil nasce junto com as crianças que crescem em periferias, com condições precárias de moradia, saneamento básico, saúde,ÿ na maioria das vezes sem ter o que comer. Mas o que leva à vida no crime cidadãos que tiveram melhores condições de vida, como a universitária gaúcha Rosinara Schutz da Silva, presa em abril por negociar falsos financiamentos do governo para pesquisa, em um golpe avaliado em R$ 3 milhões? Ou mesmo a estudante da Unicamp (Universidade de Campinas), Ana Paula Jorge Sousa, acusada de formação de quadrilha? Na avaliação do pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP (Universidade de São Paulo), Renato Alves, são situações distintas, mas cujas raízes são muito próximas.

No caso do Brasil, um dos grandes fatores de atratividade é a impunidade. "De certa forma está disseminado na sociedade que a contravenção às regras não é crime. Começa de pequeno, com o desrespeito ao professor, ao colega, quando jogamos papel na rua, passamos no farol vermelho. São pequenas coisas que imbutem na cabeça das pessoas que as regras não precisam ser respeitadas. E quando as pequenas convenções não são respeitadas, no final da cadeia vão se juntar às grandes questões de contravenções e criminalidades que discutimos aqui", opina.

No caso do envolvimento dos universitários, o especialista entende que existe também uma certa glamourização, disseminada inclusive pela mídia. "A vivência em risco dá adrenalina", filosofa. O caso das drogas - a participação de universitários consumidores e vendedores cada vez maior é sintomático nessa questão. "Se na classe baixa o envolvimento com drogas tornou-se um mecanismo de ascenção, para as mais altas, tornou-se altamente corrosivo ao patrimônio. Mas também vivemos em uma sociedade de consumo onde a busca do enriquecimento pelas vias mais fáceis é difundida eÿvalorizada", conclui.

No mais, culpa as próprias estruturas de muitas escolas e universidades, incluindo aí as particulares, consideradas por ele "produtos de mercado". "Muitas dessas instituições são 'conteudistas', não transmitem ética, valores e cidadania. Formam técnicos, profissionais, mas não cidadãos, que acham que sabem maisÿdo que os outros, valem mais do que os outros. E nossa Justiça vai nesse caminho. ? seletiva e atua na lógica da casagrande e da senzala", critica.

A crítica faz sentido. Algumas estatísticas mostram que os rumos tomados pela juventude levada à criminalidade não estão exclusivamente relacionados a quantos anos ela fica na escola - daí a importância levantada pelos especialistas de tornar a educação algo mais atrãnte. Alguns exemplos: apesar de ter, conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), a quarta menor taxa de analfabetismo do País (4,8%), o Estado do Rio de Janeiro apresentou, em 2003, o segundo maior índice de homicídios dolosos (com intenção de matar) - 40,5 por cem mil habitantes. São Paulo, com 5,5% de taxa de analfabetismo em 2004, teve taxa de 28,3 homicídios por 100 mil habitantes em 2003 (quarto lugar no País).ÿ A segunda menor taxa de analfabetismo do Brasil (6,6%) não impediu a Região Sudeste de ser a primeira noÿranking da violência, com 28,8 homicídios por cemÿ mil habitantes.

Estatísticas da ONU (Organização das Nações Unidas) e da Unesco, com dados mundiais, reforçam a tese de que mais escolaridade não representa necessariamente menos violência. A ex-república soviética da Geórgia tem, por exemplo, 100% dos seus adultos alfabetizados, mais do que o Brasil, que tem 88,4%,ÿPeru (87,7%) eÿEgito (55,6%).ÿ Entre os quatro, o Brasil encabeça o item "número de homicídios por armas de fogo" (19,54 por cem mil habitantes). Mas a Geórgia apresenta índices maiores (2,97 por 100 mil habitantes) que os de Peru (0,67) e Egito (0,02), menos alfabetizados.

O pesquisador do Crisp/UFMG (Centro de Estudos de Criminalidade da Universidade Federal de Minas Gerais), Robson Sávio Reis Souza, defende que a participação de universitários em atividades criminosas, bem como a do envolvimento de políticos, juízes e parlamentares, não é nova, mas começa a aparecer com destaque por pressão da própria sociedade e por uma atuação mais efetiva das autoridades. "Está cada vez mais claro para o brasileiro que a criminalidade não tem mais carimbo de classe. Antes a polícia prendia dentro da favela. Agora está agindo dentro do próprio estado e a sujeira começa a aparecer", diz.

Para ele, a segurança pública tornou-se inimigo público número 1 no Brasil e o combate à criminalidade, cada vez mais, se tornará palavra de ordem. "Destaco a atuação da Polícia Federal, que sem alarde e sem disparar nenhuma bala mostra que já que estamos na democracia, a justiça tem de ser igual para todos. O crime organizado, que controla o tráfego, o jogo do bicho, a pirataria, está dentro do estado. Há necessidade de repressão. Ainda são ações periféricas, mas isso vai crescer", finaliza.

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