text.compare.title

text.compare.empty.header

Notícias

Cartola - vá escutar

      

Se você quer saber quem foi Cartola - do começo ao fim - não vá com essa expectativa assistir o documentário de autoria dos pernambucanos Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, em cartaz nas principais salas de cinema do Brasil. Na tela, você encontrará recortes de sua vida, cenas da história política do Brasil dos anos 60 e 70, da indústria cultural e fonográfica daquela época e, de quebra, ouvir uma bela trilha sonora. "Vale a pena para quem quer conhecer a música do Cartola, não a biografia dele. Os dados informativos sobre a vida do Cartola ficam um pouco soltos. Mas isso não é uma falha, foi uma opção pelo viés poético, em detrimento do modo clássico de fazer documentário, que seria mais didático", afirma o professor de História do Cinema da Unicamp (Universidade de Campinas), Fernão Ramos.

Segundo ele, é interessante para alunos de cinema prestarem atenção nessa forma narrativa, mais dinâmica e contemporânea. Para estudantes de música, o professor destaca que é bacana notar como, naquela época, a música não era encarada como um produto de mercado. "Era um período em que se fazia música como paixão, não havia preocupação com a mídia em geral, venda de discos, essas coisas".

Leigos, no entanto, podem achar a obra mal costurada, com imagens aleatórias pulando pela tela. "A opção narrativa da dupla de cineastas passa a impressão de que as imagens são quase acessórias. O que importa são as músicas, que são tocadas inteiras. Embora essa opção narrativa tenha lá suas vantagens sobre uma história linear da vida do compositor, para muitos espectadores a seleção das informações acaba por deixar muitas lacunas", opina o professor de Cinema da PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), Miguel Pereira.

O docente - apesar de ressaltar que um documentário não tem de responder todas as perguntas que podem ser feitas sobre seu personagem - enumera as tais lacunas do filme que, para ele, deveriam ter sido preenchidas pois revelaria fatos importantes da vida dessa figura singular da música popular brasileira, que virou mito quando suas canções passaram a ser gravadas pelos mais importantes intérpretes brasileiros.

Primeiramente, Pereira acredita que a veia poética do texto do Cartola ? falado ou cantado -, com a sua sedução romântica, foram pouco explorados no filme "Cartola sempre foi homem de costumes sóbrios, mas extremamente elegante no porte e nos gestos, além de possuir uma invejável e poderosa voz. Confinado, por muito tempo, nas suas rodas de samba, chamou a atenção dos jornalistas e dos jovens universitários por seu indiscutível talento poético e musical. Tudo isso está no filme, mas sem ênfase. O músico é mais enfatizado do que a sua personalidade e o seu modo de ser no mundo."

Em segundo lugar, para o professor, o documentário peca por deixar em segundo plano a importância política do compositor. "Muitos jovens intelectuais se aproximaram do mundo popular através desses famosos shows", lembra. Outra crítica de Pereira está relacionada à demora para entrar no personagem principal da história. "O início do filme parece um preâmbulo que não acaba mais".

O docente afirma, porém, que fazer um documentário sobre o Cartola e contar com imagens de arquivo para narrar a sua história seria um desafio para qualquer cineasta. E que o filme não deixa de ser um colírio para os ouvidos. Vá escutar.

  • Fonte:

Tags:

Aviso de cookies: Nós usamos cookies próprios e de terceiros para melhorar os nossos serviços , para análise estatística e para mostrar publicidade. Se você continuar a navegar considerar a aceitação de seu uso nos termos estabelecidos nos Política de Cookies.