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Notícias

O dia-a-dia de estudante

      


Por Bárbara Semerene

"Só tenho tempo de estudar dentro do ônibus e do metrô"
Beatriz Vazquez, 19 anos, estudante de hotelaria na Faculdade São Marcos em São Paulo e mãe do Breno, de um ano e dez meses

Dá para fazer uma faculdade com um filho para criar, morando com os pais, sem emprego e sem marido? Que dá, dá. Mas é bastante sacrificante, não só para a mãe, quanto para o filho e os avós (ou até mesmo os bisavós) - que são geralmente quem segura as pontas pra jovem mamãe freqüentar as aulas. Que o diga Beatriz, que trabalha de recepcionista de um Hotel das 7h às 15h30 e faz o terceiro ano da faculdade à noite. Todos os dias é assim. Apesar de namorar há quatro anos com o pai de seu filho - que ainda está no colegial e é da mesma idade da Bia -, não mora com ele, e quem cuida do Breno é a sua avó, bisavó do Breno.

Beatriz jura que tomava anticoncepcional quando engravidou, no primeiro semestre da faculdade. Nunca teve de faltar aula durante a gravidez e não trancou nem um semestre da faculdade logo que o filho nasceu, renunciando ao direito à licença maternidade. "Só fiquei duas semanas em casa depois que o Breno nasceu. Tive a sorte de não ter de amamentá-lo por conta de um problema de saúde que fez com que ele não pudesse beber leite materno."

As coisas não mudaram muito na vida da Bia depois de ser mãe, garante ela. "Não sinto falta das baladas. Nunca fui mesmo de sair". E, com o apoio da família, pode levar sua vida de estudante normalmente. "Só sinto falta de estar mais com meu filho porque trabalho até durante os fins de semana". Para continuar tendo um bom desempenho na faculdade, tenta aproveitar ao máximo o tempo. "O jogo é prestar muita atenção na aula, aí não precisa estudar muito. Estudo mais quando estou indo para o trabalho ou voltando do serviço, no metrô e no ônibus, o trajeto leva uma hora", conta. Mas Beatriz sabe que ela é exceção. "A maioria das outras colegas minhas que ficaram grávidas, abandonaram os estudos."


"Ter filho me fez rever meus planos e levar o futuro mais a sério"
Maíra Guerra, 27 anos, ex-estudante de hotelaria na faculdade São Marcos em São Paulo e mãe de Lorenzo, de um ano e quatro meses

Ela bem que tentou. Mas não resistiu à maternidade. Estava no primeiro semestre de hotelaria quando ficou grávida. Os enjôos a faziam ficar muito mal. Até que o marido a convenceu a largar os estudos. "Ele tem condições financeiras de bancar a casa - é dono de um restaurante - e eu achei que seria bacana, para o meu filho e para mim, me dedicar exclusivamente a ele durante um período". A família do casal não mora em São Paulo, o que dificulta ter alguém de confiança para deixar o bebê e é mais um empecilho para que Maíra estude. Apesar ser casada quando engravidou, não havia planejado ter filhos tão cedo. "Mas eu havia parado de tomar anticoncepcional e, num vacilo, engravidei."

Mas agora Maíra tem tudo estrategicamente planejado. Aproveitando o ensejo, agora quer ter o segundo filho, e voltará a estudar somente em 2009, quando vai cursar algo relacionado a um novo negócio que o marido vai abrir: uma loja de roupas. "Vamos voltar para o Sul e lá farei faculdade de Moda, que sempre gostei", diz.

"Ter filhos me incentiva a me dedicar ainda mais aos estudos"
Paula Almeida Duizit Brito Benzi, 24 anos, estudante do primeiro ano de Direito na Faculdade São José, no Rio de Janeiro, e mãe de Júlia, 4 anos, e Giovanna, de 6 meses

Paula se casou aos 18 anos e logo engravidou. "Foi sem querer, por descuido mesmo", alega. O marido, militar, vive tendo que mudar de cidade, e por isso sempre foi difícil para Paula engatar uma faculdade. Ela até tentou, quando morou no interior do Rio Grande do Sul começou a faculdade de fisioterapia numa faculdade no Paraguai. "Mas era muito puxado. Meu marido ficava com ela à noite para eu ir estudar e eu ficava estudando para as provas até 4 da madrugada com ela chorando no meu colo. Aí, desisti logo no primeiro semestre. Além disso, tinha o fato de eu me sentir culpada de não ficar com a minha filha 24 horas por dia".

Mas agora, na segunda filha, Paula pensa diferente, e resolveu entrar novamente pra faculdade. "Estou com outra cabeça, sei que tenho que pensar mais em mim e que não é nem saudável ficar grudada na criança", explica.

Mas ela confessa que não dá para ser uma estudante "comum". Já sabia disso antes de entrar e por isso, logo que se matriculou, foi conversar com o coordenador do curso e expôs sua situação. "Ele foi compreensivo, mas já teve professor que me disse 'o problema é seu'."

? que Paula vive pedindo presença para os professores por conta das faltas que precisa ter vez ou outra para cuidar das meninas. Muitas vezes faz prova de segunda chamada e já até pediu para os professores para deixarem as filhas assistirem aula com ela. "Mas eles negaram, dizem que iria virar uma creche aquilo ali se deixassem". Muitas vezes é o marido dela quem faz seus trabalhos de faculdade e depois lê para ela. "O que eu faço é prestar atenção nas aulas e gravá-las para ficar ouvindo enquanto cuido das meninas. O segredo para continuar firme é não ter a expectativa de ser uma aluna exemplar, primeira da turma, porque não dá", aconselha.

Paula diz estar fazendo tanto esforço principalmente por suas filhas e também foi por elas que escolheu o Direito. "A gente não sabe o dia de amanhã, precisamos garantir o futuro delas. Quero dar as melhores condições. E o Direito é uma profissão que tem leque mais aberto, muitos concursos públicos que dão segurança e estabilidade na carreira. Além disso, sem um curso superior eu estava começando a me achar burra e sem papo com as pessoas", explica.


O que diz a legislação
Segundo legislação de 1975, a partir do oitavo mês de gestação e durante três meses, a estudante grávida tem direito a ficar sob regime de exercícios domiciliares. Ou seja: ela não é obrigada a freqüentar as aulas. Para tanto, devem apresentar atestado médico à direção da escola. Em casos excepcionais atestados pelo médico, pode haver aumento do período de permanência em casa.Em qualquer caso, é assegurado às estudantes grávidas o direito à prestação dos exames finais.

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