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Notícias

Razões históricas e sociais

      

Por Bárbara Semerene

Não é de hoje que adolescentes engravidam, mas as nossas bisavós nem pensavam em ter uma carreira, e mais: o casamento também acontecia na adolescência. Muitas se casavam, inclusive, sem nem saber o que era sexo. Naquele tempo, a igreja era muito mais rígida, e realmente as pessoas achavam pecado evitar filhos. Então iam tendo, um atrás do outro. Esse era o costume.

Mas numa época em que a carreira é tão valorizada no universo feminino e o mercado de trabalho exige muito mais empenho e anos de estudo do que antigamente; numa época em que há informação de sobra sobre métodos contraceptivos, por que a taxa de fecundidade entre as jovens continua tão alta?

O conhecimento está acessível, mas o comportamento não está se modificando. Dois estudos da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), um realizado em 1979 e outro de 2000, mostram que, apesar da maioria das garotas conhecer métodos anticoncepcionais, o índice de gravidez permanece pela falta de prática na utilização desses métodos.

De acordo com levantamento do Ministério da Saúde, o número de partos realizados pelo SUS (Sistema énico de Saúde) registra crescimento desde 1996, ano em que aconteceram 638.087 nascimentos de filhos de adolescentes -22,34% dos partos no país, que chegaram a 2.856.255. Em 1999, o número chegou a 712.915 partos entre adolescentes de 10 a 19 anos.

Outra pesquisa feita na Unicamp com adolescentes grávidas indica que 98% conheciam a pílula, 99,4% a camisinha e 24,5% desejaram ter o filho. Dentre as entrevistadas, apenas 1,9% declarou ignorância quanto à contracepção. A pesquisa faz parte da tese de mestrado do ginecologista e obstetra Márcio Belo, sob orientação do diretor do Departamento de Tocoginecologia do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism), João Luiz Pinto e Silva. Foram entrevistadas, no período de outubro de 1999 a agosto de 2000, 156 meninas atendidas pelo Ambulatório de Pré-Natal de Adolescentes, serviço que funciona no hospital. Na pesquisa, 17,9% das adolescentes opinaram que os métodos anticoncepcionais são inconvenientes.

O que estaria por trás de tamanho "descuido"?

Desejo de virar adulta
No âmbito psicológico, especialistas dizem que engravidar significa, para a adolescente, se integrar ao mundo dos adultos, provar ao seu grupo e à sociedade que já está madura e capaz de procriar. Outro motivo seria escapar de conflitos familiares gerado pelo mau relacionamento com os pais. Isso no caso das adolescentes de alta renda. Já nas de classe social mais baixa - que não é o caso das que chegam à universidade - haveria também a falta de perspectiva de sucesso profissional dessas garotas. O único papel que restaria para ela atuar em sociedade então seria o de mãe.

Provar amor ao parceiro
Independentemente da classe social, há um outro fator comum entre as meninas para não evitarem um filho: provar amor ao parceiro. "Ainda há uma assimetria muito grande entre os gêneros. ? complicado para as meninas negociarem com o parceiro e nem sempre elas conseguem convencê-los a se prevenirem. Os meninos nessa idade são ainda mais relaxados, uma vez que sabem que a responsabilidade e as conseqüências de uma gravidez sempre recai mais no ombro da garota", explica a demógrafa do IBGE, Suzana Cavenaghi.


Ser uma mulher completa
Segundo a monografia "Análise do discurso de mães universitárias", do Instituto de Psicologia da UERJ, de autoria de Renata Cristian Sousa de Sá, Júlia Reis da Silva e Maria Lúcia Coutinho, ainda que haja na sociedade atual uma independência maior das mulheres, um aumento da participação no mercado de trabalho e crescente divisão de tarefas quando se trata do cuidar da casa e de filhos, esses novos papéis sociais ainda convivem lado a lado com os antigos, já que eles permanecem, como podemos observar na exigência da dedicação total da mulher a sua família em detrimento da carreira profissional, no sentimento de culpa se há uma tentativa de unir os cuidados maternos com a profissão etc

O estudo constatou que a visão antiga da mãe dedicada aos filhos e ao lar ainda continua nos dias de hoje, só que agora ela coexiste com a visão da mãe e mulher profissional, que estuda e quer ter uma carreira. O fato de ser mãe não exclui o fato da mulher ter uma profissão bem sucedida, e vice-versa.

Mudança do padrão sexual
Tivemos uma mudança no padrão sexual no Brasil muito grande nas últimas décadas. Não só na idade da primeira relação sexual, mas na freqüência e na forma. A sociedade atual estimula a sexualidade das meninas cada vez mais cedo. "E depois que você inicia a vida sexual é ativa, e aumenta a possibilidade de engravidar", afirma Cavenaghi.

Além disso, por conta da liberação sexual, hoje em dia, diminui-se o preconceito com relação à gravidez precoce e a mães solteiras, o que faz com que as meninas relaxem mais, aponta a terapeuta familiar Graziela Zlotnik Chehaibar, da USP (Universidade de São Paulo).

"Sabendo que não vai ser mais um escândalo ficar grávida - a menina sabe que vai contar com o apoio dos pais e não será obrigada a se casar -, ela não se preocupa tanto em se prevenir quanto deveria", diz terapeuta. Mas ela alerta que os avós devem sempre se colocar no lugar de avós, não de pais e deixar que a menina exerça esse papel, ainda que seja sacrificante para ela. "A garota tem que arcar com as conseqüências e sentir que a vida muda, sim, com um filho, em todos os aspectos, inclusive traz benefícios - como uma maior maturidade, responsabilidade, organização", afirma. Para Graziela, ficar grávida na universidade é um pouco menos traumático: a menina já fez mais escolhas na vida, já está encaminhada profissionalmente, não está mais vivendo transformações físicas e psicológicas. Tem mais estrutura.

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