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P&D no setor de fármacos

      
Por Lilian Burgardt

Um gel dental com a finalidade de clarear o sorriso da população brasileira está sendo o responsável pela alegria dos pesquisadores da UEM (Universidade Estadual de Maringá). Trata-se do primeiro produto brasileiro elaborado pela universidade em parceria com uma empresa a receber a licença da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para ser comercializado no país. Após um ano e meio de trabalho duro nos laboratórios, os pesquisadores conseguiram desenvolver um produto, a partir de uma substância já utilizada em consultórios odontológicos, para que o clareamento dental pudesse ser feito em casa. "Fizemos com que uma substância, nos consultórios odontológicos utlizada junto ao laser para o clareamento dentário, fosse transformada em gel para ser usada em casa. Daí surgiu o white look", explica o pesquisador envolvido com o projeto e, também, diretor da pró-reitoria de pesquisa e graduação da UEM, Benedito Prado Dias Filho.

O mais interessante é que a pesquisa conseguiu reunir em um só trabalho vários aspectos positivos. Primeiro porque foi fruto de uma parceria entre a universidade e uma empresa incubada por ela. Depois, porque contou com o patrocínio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) que, na época de seu desenvolvimento, criava um edital de fomento à pesquisa destinado à empresas incubadas desenvolvendo estudos com nanotecnologia.

Diversos outros projetos na UEM são frutos de parceria universidade-empresa. Ainda que estejam em fases pré-clínicas e clínicas, ou seja, distantes da possibilidade de comercialização como o white look, também prometem resultados animadores. "A universidade vêm se aliando à indústria local para desenvolver medicamentos que atendam às necessidades da população", explica Dias Filho.

A boa notícia para o Brasil é que, no setor, esse comportamento não é exclusividade da Universidade de Maringá. Em diversas outras regiões do país, pequenas e grandes IES (Instituições de Ensino Superior) estão conseguindo firmar acordos com a iniciativa privada para pesquisa no setor de fármacos. Entre os principais motivos, a mão-de-obra qualificada concentradas nas IES e, também, o potencial brasileiro (por conta de nossa flora) para a produção de medicamentos de origem natural. O movimento, porém, ainda é tímido. No discurso de especialistas, as críticas se voltam para a falta de investimentos do governo em fortalecer a indústria nacional, além de não consolidar uma política de atração de P&D estrangeiro para o setor.

O professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho), José Carlos Nassute - desde a década de 70 envolvido na luta pela consolidação de uma massa crítica voltada para o desenvolvimento de um pólo de fármacos no Brasil - diz que o sonho é antigo e, ainda hoje, o Brasil não "acordou" para a importância de uma indústria nacional forte. "Estou me aposentando, ou seja, saindo do sistema, e isso ainda não se concretizou", lamenta.

Segundo ele, há diversos grupos isolados de pesquisadores desenvolvendo testes nas universidades, como na USP/São Carlos, Unesp e UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), por exemplo. Muitas outras até mantêm parcerias com a iniciativa privada, mas que se resumem a apoio financeiro para equipar laboratórios, sem cooperação científica. Em sua opinião, é necessário que o governo crie políticas públicas para fazer com que não só a indústria nacional e as micro e pequenas empresas incubadas procurem as universidades para o desenvolvimento de novos fármacos, mas também, as multinacionais.

O professor da UEM também acredita que a criação de políticas públicas - tal e qual a Lei de Informática, mas para o setor de fármacos - estimularia que as multinacionais transferissem seus centros de pesquisa e desenvolvimento para o Brasil, abrindo espaço na indústria para a contratação de mão-de-obra qualificada, e, ainda, para uma maior cooperação com as universidades. "O pesquisador tem que ter a chance de ir para o mercado, trabalhar em cooperação com a indústria. As experiências que tivemos aqui foram bem-sucedidas, não vejo razão para não estimulá-las", destaca.

Indústria Farmacêutica no Brasil
CaracterísticasValores
a) Comercialização
Faturamento total ao consumidor - 2004 R$ 23,0 bilhões
Faturamento no atacado
2004R$ 17,3 bilhões
2005R$ 19,2 bilhões
- Laboratórios de origem estrangeira R$ 11,7 bilhões
- Laboratórios de origem nacional R$ 7,5 bilhões
b) Investimentos
Investimento em pesquisa clínica
2002US$ 48 milhões
2003

US$ 50 milhões

Raio-x do setor

Segundo informações da FEBRAFARMA (Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica), no Brasil, o setor é composto por 692 estabelecimentos produtores de medicamentos para uso humano. Em 2005 - ano do último levantamento - os laboratórios com capital de origem nacional responderam por 45,3% das quantidades vendidas e 39,2% do faturamento do setor. A participação destes, no mercado nacional, apresenta tendências de expansão, ao se compararem com os dados de 2001, de 34,1% e 31,8%, para quantidades e faturamento, respectivamente. No entanto, ainda muito aquém da necessidade brasileira.

Hoje, pouquíssimas empresas brasileiras investem na produção de um novo fármaco (composto químico). Três que merecem destaque por tal comportamento são a EMS, a Cristália, e a Medley de Campinas. A baixa adesão decorre dos altos custos com testes pré-clínicos e clínicos, fases que determinam a eficácia de um medicamento para uso humano e, em geral, muito mais onerosas do que a produção em larga escala. (Saiba mais lendo a matéria o nascimento de um medicamento)

Aliás, a grande crítica dos pesquisadores envolvidos com P&D farmacêutico no Brasil é a falta de uma cadeia completa para exercer essas atividades. "O processo, além de longo, é muito oneroso. Mas acho importante lembrar que não só o governo precisa estar interessado em transformar a legislação para que seja possível criar infra-estrutura para consolidar a indústria farmacêutica no país. A iniciativa privada também tem de se mostrar interessada", diz Dias Filho.

Recentemente, dois grandes laboratórios nacionais, Eurofarma e Biolab, se uniram para criar a Incrementha PD&I - centro para pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica de novos produtos. A empresa tem o objetivo inicial de desenvolver ações incrementais (a partir de uma droga já conhecida), chegando no futuro à inovação radical (criação de uma nova molécula). A Incrementha desenvolve projetos de pesquisa dos dois grandes laboratórios e conta com um corpo técnico estabelecendo ações, prazos, investimentos, equipamentos, entre outros, com o objetivo de levar para o mercado estes novos medicamentos.

No dia 25 de abril deste ano, a empresa lançou o primeiro nanofármaco desenvolvido em nosso país. Trata-se de uma pomada anestésica de uso tópico que tem como objetivo substituir anestesias injetáveis em procedimentos de pequeno corte. O produto tem previsão de lançamento para o ano de 2008. Sem similares no mundo, o anestésico apresenta como benefícios a diminuição da dose recomendada, maior rapidez de ação e aumento e prolongamento de efeitos terapêuticos.

Com sua patente já depositada, o produto tem seus testes desenvolvidos de acordo com os padrões das principais entidades regulatórias mundiais do setor: Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), EMEA (European Medicines Agency) e FDA (Food and Drug Administration). Na ocasião, o diretor da Incrementha, Dante Alário Júnior, afirmou: "investir em pesquisa é ter um futuro com garantias reais de permanência no mercado e manutenção da competitividade. Não consigo enxergar o futuro das farmacêuticas sem inovação. Vale lembrar que o nanomedicamento nacional foi desenvolvido em parceria com a UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) por meio de uma parceria que contou com o apoio do CNPq (Conselho Nacional de desenvolvimento Científico e tecnológico).

Desafios

Na opinião do diretor do Instituto de Física da USP-São Carlos (Universidade Federal de São Paulo - campus São Carlos) e especialista em manipulação de medicamentos, Glaucius Oliva, frente a um mercado extremamente globalizado, o Brasil tem um grande desafio para enfrentar. Consolidar uma indústria no momento em que outros países já estão muito à frente, e mais, no momento em que países emergentes como China e Öndia já investem pesado no setor. "O Brasil importa quase 80% de seus fármacos. A questão da quebra da patente do Efavirenz fica como alerta. Hoje, somos amigos dos indianos e vamos comprar deles o medicamento anti-AIDS, mas e amanhã?", indaga. Segundo ele, se faz urgente uma política visando mais investimentos para P&D no setor farmacêutico. "Hoje, temos indústrias que produzem os medicamentos, mas o fármaco continua sendo nosso grande desafio", diz.

Ele acrescenta que o cenário ideal para o Brasil é aquele em que, além de se fazer pesquisa básica nas Instituições de Ensino Superior, a indústria brasileira investisse em pesquisa aplicada. Dessa forma, ela criaria departamentos de P&D nas empresas, contrataria mão-de-obra qualificada para elaborar os estudos e todos sairiam ganhando. "A Öndia só conseguiu consolidar uma indústria no setor de fármacos a partir de uma mudança de estratégia priorizando investimentos em inovação no país", ressalta o pesquisador. O mesmo aconteceu no setor de informática com a consolidação da indiana Lenovo. Hoje, tão competitiva que comprou o setor de PC's da IBM.

O professor Nassute defende que durante o processo de negociação dos preços dos medicamentos com as multinacionais deveria ser colocado em pauta a migração de seus centros de pesquisa para o Brasil. "Não basta só o governo contar com seus fundos setoriais para o fomento à pesquisa no setor de fármacos, ou apenas com o apoio do BNDES e da FINEP, mas estimular que a iniciativa privada se envolva com a causa. "Assim, o Brasil teria mais chances de consolidar sua indústria e abrir mercado para os pesquisadores que, hoje, estão majoritariamente restritos ao ambiente acadêmico", diz.

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