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Quebrando fronteiras entre as disciplinas

      

Por Silvia Angerami

Você gosta de Matemática. Mas também adora Física e toca Música nas horas vagas. Você prestou vestibular para Engenharia, mas ao entrar na universidade, começou a cursar algumas disciplinas de Letras e acabou mudando de curso. Você queria fazer Biologia, mas entrou em Letras e ainda pretende fazer Biologia algum dia. Será que essas áreas são assim tão incompatíveis entre si? Depende. Se incluirmos nessa nossa conversa a questão da interdisciplinaridade, tudo se torna possível.

O conceito nem é tão novo assim. Surgiu no final do século XX, em decorrência da necessidade de mudanças nos métodos de ensino. A enciclopédia online interativa Wikipedia define interdisciplinaridade como a integração de dois ou mais componentes curriculares na construção do conhecimento. Na Educação, ela parece ser a solução para os problemas decorrentes da excessiva compartimentalização do conhecimento. (Ufa!) Isso significa que, para o estudante, ela pode ser a saída quando a graduação escolhida aparenta não dar conta da formação esperada antes do início da faculdade.

O universitário também pode encará-la como alento caso ainda tem dúvidas a respeito de sua escolha, muitas vezes, feita antes de ter conquistado a maturidade necessária para optar por um carreira que, na teoria, terá validade para a vida toda. Algumas universidades, como a UnB (Universidade de Brasília), por exemplo, permitem que o aluno, além das disciplinas pertinentes ao seu curso, também estude as matérias chamadas "de módulo livre", capazes de dar uma formação mais ampla, mais generalista, que abarque mais de um interesse específico.

Abolição da disciplina?

"Em um primeiro instante, a interdisciplinaridade parece sinônimo de abolição da disciplina. A verdade, porém, é que ela é um movimento entre as disciplinas que envolve reciprocidade e troca, integração e vôo; este movimento acontece entre o real e o ideal, a conquista e o fracasso, a verdade e o erro, na busca da totalidade que transcende o homem", afirma a pesquisadora Claudia Maria Soares Rossi, no artigo "A proposta da Interdisciplinaridade na universidade". Para ela, a interdisciplinaridade precisa contar com a honestidade intelectual e moral dos educadores para que não seja impedido nenhum caminho aos alunos, ou negada nenhuma possibilidade a eles. Claudia afirma que a interdisciplinaridade é "uma crítica ao saber dividido em especializações, à disciplina que se humilha em hiper-especialização. Hoje surge a necessidade de se repensar a disciplina, distante de ilusões, para muito além de sua condição disciplinar".

Exemplos

Os exemplos de interdisciplinaridade se multiplicam em todo o Brasil. No campus da Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho) em Tupã, interior do estado de São Paulo, está em andamento o curso de extensão em Análise Estratégica de Custos, ministrado pelo docente Timóteo Ramos Queiroz. A interdisciplinariedade é um dos principais objetivos do grupo docente do curso. Além da preocupação de relacionar suas disciplinas às demais, o curso de Administração conta com a disciplina de "Trabalho Interdisciplinar Orientado", em que, durante os primeiros cinco semestres, os alunos desenvolvem uma pesquisa que inter-relaciona o conteúdo abordado nas disciplinas de cada semestre. Segundo o professor Timóteo, a idéia é não prender os alunos apenas na teoria e nos exemplos acadêmicos, mas sim possibilitar a utilização prática dos conhecimentos transmitidos: "Com as informações do curso os alunos poderão entender os componentes do custo de seus projetos, para poderem estabelecer os preços e seus ganhos. Essa informação é muito importante para dar suporte às decisões de viabilidade econômica dos projetos."

Multidisciplinaridade na UnB

Outra instituição que se orgulha de seus projetos multidisciplinares é a UnB. Um dos principais aspectos do conceito de Universidade Nova é a estrutura dos cursos. A idéia é que os estudantes tenham acesso à universidade por meio de uma formação universitária inicial e, na seqüência, realizem formação em uma grande área de conhecimento, como Saúde, Humanidades ou Ciências. Para discutir a multidisciplinaridade na UnB, o Ceam (Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares), realizou um seminário em comemoração aos 45 anos da instituição, no dia 17 de maio.

Ana Maria Nogales Vasconcelos, diretora do Ceam, conta que o centro nasceu em 86, com o objetivo de trazer novas luzes para a universidade, propondo uma universidade tridimensional, voltada para a sociedade. "Nesse espírito nasce o Ceam - diz ela -, tentando abrir caminho para projetos multidisciplinares que não encontravam espaços adequados na concepção de universidade compartimentalizada".

Quanto à oposição verificada hoje na formação dos estudantes universitários - generalista x especialista - a professora não acredita que se deve optar por um, em detrimento do outro. "Cada vez mais é necessário o detalhamento e o aprofundamento de questões. Então, em algumas áreas a especialização é necessária", diz ela. "Não podemos perder de vista a demanda que gera determinados estudos, bem como o contexto em que ele se insere". Resgatar esse trabalho da universidade, o contato com várias disciplinas e expor o aluno a isso, este é o objetivo do Ceam. "A universidade brasileira pública federal está muito distante da sociedade", aponta ela. "Estamos propondo um movimento de derrubar muros, de aumentar e promover o acesso da população à universidade", explica.

De que forma o Ceam faz isso, na prática? "Na graduação, ofertamos disciplinas online de módulo livre para todos os alunos, com alguns encontros presenciais", afirma. Algumas dessas disciplinas estão agrupadas em núcleos temáticos. Assim, todos os alunos da UnB, independente do curso, podem estudar temas gerais como Cultura, Poder, Direitos Humanos, Cidadania, Ecologia, Infância e Juventude, Introdução aos Estudos de População, Corrupção, Integração no Mercosul. "São matérias que permeiam todos os cursos e que visam despertar o interesse por essas temáticas, trazendo abordagem multidisciplinar, são disciplinas que não cabem em apenas um departamento", classifica a professora Ana Maria. "Ao obter créditos nas disciplinas de módulo livre, o aluno passa a ter contato com outros saberes além daqueles da área em que ele está envolvido", completa. A cada semestre, a UnB oferece 750 vagas nessas disciplinas e todas elas costumam ser preenchidas.

Letras e Biologia

Formado em Licenciatura e concluindo Bacharelado em Letras e Inglês, o aluno Daniel Vieira de Queiroz, 26 anos, é um grande adepto do conceito de interdisciplinaridade. Daniel é de Fortaleza, mas está em Brasília desde criança. Seu processo de escolha profissional, segundo ele, "não foi nada fácil". Sua primeira opção era na área de Biologia, mas sua paixão pela Literatura o levou a optar pelo Inglês, língua em que já tinha uma boa base. Porém, a Biologia não está descartada. Aos 26 anos, Daniel pretende ainda cursar Biologia. Enquanto isso, desenvolve atividades como bolsista no NEáSIA (Núcleo de Estudos Asiáticos) do Ceam. Recebe uma bolsa chamada "Bolsa permanência". "O núcleo precisava de alguém para pesquisa em Inglês e me candidatei", relata Daniel, cujo interesse por línguas o conduziu a cursar Japonês, Grego, Italiano e até Latim, junto com o curso de graduação. "Eu sou professor, então vejo que as escolas estão buscando um professor que não seja focado só na matéria dele. O próprio vestibular é multidisciplinar hoje. Na minha área, acredito que o professor não pode ser só professor. Tem que ser um pouco ator, cantor. Vale tudo para chamar a atenção do aluno", diz ele.

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