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Da simplicidade ao espetáculo

      

As festas de São João que ocorrem no Nordeste brasileiro viraram grandes produções. As fogueiras, antes feitas com madeiras, atualmente exibem shows pirotécnicos as quadrilhas, que desfilavam os noivos ao som de músicas tradicionais como "Pula Fogueira", abordam agora temas sociais e são embaladas por grandes nomes de artistas locais. Este é o retrato das "superquermesses" que agitam a economia e o turismo do Nordeste durante esta época do ano. A grande responsável pela mudança de perfil destes eventos populares é a Mídia, que trabalhou nos últimos 20 anos para transformá-los em espetáculos rentáveis e adaptados ao mundo globalizado.

Quem aponta estas mudanças é a pesquisa "São João de Campina Grande: Um acontecimento folkmidiático", elaborada pelo professor da FACOM-UFPB (Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco), Osvaldo Meira Trigueiro. O trabalho, que começou em 1998, vem estudando as transformações que este tipo de evento sofreu no decorrer do tempo. "As grandes Festas Juninas, hoje, funcionam como uma nova cultura híbrida, que atende ao apelo popular - que deseja espetáculos e consumo. E ao midiático, que espera, nas entrelinhas, expôr um mercado em potencial", explica Trigueiro.

O resultado deste apelo entre as duas partes foi a adaptação das Festas Juninas nordestinas para o consumo global. Segundo o professor, a estes eventos culturais foram adicionados elementos que os transformaram em shows. Ele cita como exemplo "O maior São João do Mundo", realizado em Campina Grande (PB), que recebeu uma estrutura com cenários, barracas de comidas típicas e um palco para espetáculos, itens que não faziam parte originalmente da festa . "Os meios de comunicação mantiveram a tradição e adicionaram o show. Ou seja, transformaram a Festa Junina em um produto globalizado, para ser noticiado e explorado comercialmente. Algo como a junção do folclore com tecnologia".

Essa evolução para espetáculo passou a a atrair milhares de pessoas. Com isso, empresários de diversos segmentos (turismo, bebida, roupa, fogos de artifício), enxergaram um mercado em potencial. "Um evento deste porte, que atrai muitos turistas, é ideal para a movimentação do comércio", explica Trigueiro. O professor acrescenta que a exposição na mídia também chamou a atenção de empresas. "O poder de imagem é tão forte que estes eventos se mostram uma última oportunidade para a divulgação de novos produtos".

No embalo de Campina Grande, cidades como Caruaru (PE) e Feira de Santana (BA) também promovem suas "superquermesses". Para manter o clima da festa, que tem duração média de 30 dias, os organizadores destes eventos reinventam as atrações clássicas das Festas Juninas. A fogueiras viram espetáculos de laser, o show dos fogos de artifício são comparados aos exibidos tradicionalmente nos finais de ano na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. No entanto, o ponto alto, segundo Trigueiro, é a apresentação das quadrilhas. "Elas disputam para ver quem apresenta o melhor enredo, que pode ser dramático ou contemporâneo", diz. Ele acredita, que, em breve, elas estarão organizadas como as escolas de samba do Rio de Janeiro.

Segundo Trigueiro, este tipo de evento já se consolidou no Nordeste e virou um roteiro obrigatório para a população local daquela região. "Os nordestinos, que consideram as Festas Juninas mais importantes que o carnaval, aguardam muito sua realização". Ele conta que a atração é tão chamativa que, geralmente, muita gente acaba visitando todas as grandes Festas de São João do Nordeste. "Por causa dos meios de comunicação, curtir as festas é ser pop", brinca.

Chama acesa

A tríade formada entre a exposição na mídia, apelo popular e mercado gerou uma super Festa Junina que acarretou na perda da simplicidade. Por causa disso, foi especulado, por muito tempo, que as festas realizadas pela comunidade desapareceriam logo após a consolidação dos mega espetáculos Juninos. Mas de acordo com o professor, quem pensou que as chamas das pequenas fogueiras fossem se apagar, está muito enganado. "Os meios de comunicação reativaram a vontade da comunidade em manter a tradição".

Trigueiro, que visitou no último final de semana a pequena cidade de São José dos Pinhais (PB), conta que a tradição continua, ainda, bem viva no interior e com todos os costumes antigos. "As novenas de São João, as superstições, a igreja, e a madrinha e padrinho de fogueiras, ainda estão lá. Isso significa que a televisão e a globalização não tocaram não mexeram nas raízes", conclui.

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